IV Centenário

Era 1954. São Paulo em festa. Uma criança completando 400 anos e continua tão infante como dantes. Menina agitada, hiperativa que não aceita tratamento. Corre, é barulhenta, não pára seja sob o sol ou sob a lua. É danada. Deve ter o bicho carpinteiro.

Era 1954, a “paulistanada” participando. Ibirapuera, Anhangabaú, Teatro Municipal. O clima era festeiro. O assunto era o IV Centenário.

Residindo no Jabaquara, encontrava os amigos na Vila Mariana. Chegar ao Ibirapuera era um pulo.

Descíamos a Sena Madureira a pé e chegávamos ao parque num instantinho. Havia o bonde Vila Clementino, porém a grana era curta e mal dava para o ingresso e para um saco de pipocas, que, na maioria das vezes, era dividido. Era tudo feito no pé dois. Andávamos a não poder mais. Para cima e para baixo à procura de uma companhia feminina. Antes mal acompanhado do que só. Era a regra. Cabelo glostorado, topete, calça social, sapatos e meias combinando com a calça e camisa clara. Poderia ser com manga curta. Alguns mais atrevidos portavam uns bigodinhos sem vergonhas, que nada mais eram do que meia dúzia de pelos reforçados com lápis número um. Aqueles com grafite bem macio. E muita pose. Se usasse guardanapo, estaria frito.

No dia do aniversário da Menina, à noite choveu prata. Aviões da FAB, aqueles C 47 da Douglas, sobrevoaram o centro e despejaram lâminas de alumínio com dizeres alusivos à data e os holofotes do Exército, aqueles cilindros sobre carretas cuja luz era produzida por carvões, semelhante à projeção de filmes que varriam o céu iluminando as lâminas que brilhavam enquanto caiam sobre o povo que assistia.
A grande maioria recolhia como lembrança, e eu ainda tenho algumas entre páginas de livros.

A repetição da dose se deu no dia 9 de Julho. Lá fomos assistir e pegar algumas como recordação.

Essa menina adorável, com mais de 450 anos, me embriaga. Quando chego até você, fungo, o nariz escorre, tenho tosse, os olhos ardem, mas eu te amo.

Continue moleca, irreverente, despachada, sem hora para nada, anarquista, mas paulistana.

Iracy, o seu filho moleque.

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