Na metade dos anos 40, quando eu já tinha 6 anos, o Itaim era um simples bairro periférico. Do rio Pinheiros ainda com águas limpas. Havia um hiato grande onde os bairros seguintes que já pertenciam à zona Oeste. Pinheiros que ficava na outra ponta da rua Iguatemi. Ou então a Vila Sônia, Caxingui, da metade da avenida Francisco Morato em diante. Entre Itaim e Pinheiros ia ser formado o Jardim Europa pela companhia City. E antes do Caxingui estava o Morumbi que era simplesmente uma Floresta. A ponte Cidade Jardim sobre o rio Pinheiros, já não era mais aquela ponte de madeira. Pois pelo fato de o Jóquei Clube ter se mudado da Mooca para onde se encontra hoje, a ponte de madeira que ligava a zona oeste à zona sul foi substituída pela ponte de concreto (até pouco tempo PONTE CIDADE JARDIM). Hoje tem a denominação de ponte Engenheiro Roberto Zucollo. O Butantã ainda era um deserto, a Cidade Universitária estava no papel, e só foi levado, e avante, a toque de caixa para abrigar os atletas que iam disputar os jogos Pan Americanos em 1963, realizados em São Paulo. Os prédios construídos para alojar os atletas ficaram servindo ao Crusp, para moradia dos alunos. Posteriormente vieram os demais prédios e a urbanização do campus.
O Itaim era aquele quadrilátero que vinha do largo da Maná (hoje Praça Gastão Liberal Pinto) até o rio Pinheiros. No sentido contrário, o Itaim ficava entre o córrego que fazia divisa com o Jardim Europa, posteriormente canalizado ficou sendo a extensão da avenida Nove de julho. Até a rua Antonieta (hoje rua Miguel Calfat) daí em diante seria a futura Vila Olímpia, ainda só terrenos baldios e um grande brejo. Lembro-me ainda que nos anos 40, já terminada a II Guerra Mundial, ainda circulavam os ônibus com aquele enorme cilindro de gasogênio que substituía a gasolina, que era racionada. Esse ônibus era aquele que tinha a frente onde ficava o motor conhecido como focinho de cachorro. Era o Itaim linha 52 da CMTC. Seu ponto final ficava em frente à biblioteca na avenida Imperial (hoje Rua Horácio Lafer). Em 1947 foi substituído o velho ônibus, tinha gente que o chamava de Jardineira, por um mais moderno com frente reta mais parecido com o pão Pulmam. Na inauguração esteve presente o governador Ademar de Barros, que não deixou de fazer seu discurso. Iniciando com: Meus caros Patrícios e Caros Patrícias. Mas o bom da história foram os docinhos que vieram depois. Os problemas com a farinha racionada, por ser importada, resquício da Guerra, fazia com que fôssemos de madrugada à padaria do seu Delfin, na rua João Cachoeira (eu e minha irmã) na fila do pão para pelo menos pegar um filão daquele pão escuro (farinha de trigo misturado com farinha de mandioca) e sem o contra peso que formava um quilo. Foi no Largo da Maná (nome de uma padaria do local) onde desembarcaram os pracinhas do Itaim que foram servir na força expedicionária brasileira, o que ajudou os aliados a vencer a guerra.
O bairro do Itaim surgiu depois do loteamento da chácara Itaim, de propriedade de Leopoldo Couto de Magalhães, cujo apelido era BIBI, que deu origem ao complemento no nome do bairro, para não se confundir com o Itaim Paulista, próximo a São Miguel na zona Leste. A antiga rua do Porto levou o nome do inspirador do bairro e hoje é a rua Leopoldo Couto de Magalhães Júnior. A rua principal do Itaim era (e, é) a rua Joaquim Floriano que se iniciava no largo da Maná (praça Gastão Liberal Pinto) e terminava na rua Iguatemi em frente o sanatório Bela Vista, quando se completava a curva já era a rua Iguatemi. A Joaquim Floriano ainda era de terra, e me lembro de quando os calceteiros iniciavam o calçamento dela, colocando um a um os paralelepípedos com areia por entre eles. Era uma festa para a molecada, uns ajudavam a levar os paralelepípedos aos operários, os demais jogavam areia nos outros.
Na sua extensão a rua Joaquim Floriano ia tendo suas transversais, ou pequenas ruas iniciadas nela. Começava pela rua Ibiaté, depois Brasília, rua Bibi (hoje Renato Paes de Barros), rua Tapera (hoje bandeira Paulista), Rua Arnaldo (hoje Urussui), Rua João Cachoeira, Rua Jeribatiba (hoje Manoel Guedes), rua da Ponte (hoje Clodomiro Amazonas) e finalmente Iguatemi. Nesse percurso da rua Joaquim Floriano, tinha o Rinque de Patinação na esquina da Tapera, a Delegacia, o grupo escolar Aristides de Castro e Circo Teatro do Mazaroppi, que morava na rua Paes de Araújo. A igreja de Santa Teresa ainda era na rua Tabapuã, sendo depois construída uma nova na esquina da rua da Ponte (Clodomiro Amazonas). No local da antiga igreja ficou o supermercado Pão de Açúcar. Uma das características do bairro do Itaim, que foi descaracterizado, era a de homenagear as mulheres, colocando varias ruas com nomes femininos. Rua Alice, Rua Silvia, Rua Heloísa, que beirava o córrego do sapateiro, passando posteriormente a chamar-se Rua Eduardo de Souza Aranha. Com a canalização do córrego, e o conseqüente asfaltamento, coincidiu com a morte do presidente Juscelino Kubistchek(1976), tendo ela ficado com essa denominação. Tinha também a rua Amélia (hoje com duas denominações: Jesuíno Cardoso até a Clodomiro Amazonas e Alceu de Campos Rodrigues até o Hospital São Luiz, na avenida Santo Amaro). A já citada rua Antonieta (Miguel Calfat), Rua Norma (rua Fadlo Haidar), Rua Teresa, rua Arminda, rua Iara, rua Iaia (permanece até hoje) e rua Helena. A rua Firmino Ladeira foi o inverso. De nome masculino virou denominação feminina. Rua Santa Justina.
O Itaim tinha ao final da rua 17 (hoje Ramos Batista), um porto de areia que com as chuvas formou um lago de grande profundidade, que levava o nome de descoberta, em que morriam vários meninos afogados. Depois de aterrado formou-se o lixão, justamente onde fica o elefante branco da Eletro Paulo e a loja Daslú. Mais adiante ficavam os campos de futebol do Marechal Floriano, Canto do Rio, Esplanada, América, Araraquara e o Kopenhagen.
O Itaim fazia divisa com o Jardim Paulista pela avenida São Gabriel. E com a Vila Nova Conceição pela avenida Santo Amaro e com a Vila Olímpia até rua Antonieta (rua Miguel Calfat).
O Itaim tinha sua rua comercial, a Joaquim Floriano, o famoso bar e bilhar Central, onde se reuniam os malandros do bairro. E como tinha malandro. A Casa Pais era o magazine em que tudo se encontrava, sendo superada somente pelo Bazar Mil, na antiga rua Amélia onde tudo era encontrado. Seu proprietário João tinha o sobrenome dado pelos clientes de João Mil. A única indústria da Rua Joaquim Floriano era a fábrica de chocolates Kopenhagen de propriedade do seu Davi, que um dia recusou o titulo de cidadão paulistano, e medalha Anchieta, pelo fato de saber apenas fazer chocolates. Isso dito na carta dirigida ao vereador autor da proposta.
Mais tarde nos anos 70-80 com a sofisticação da rua João Cachoeira, ficou ela sendo o point do comércio, principalmente de roupas. Já nos anos 60 a camisaria Franita, a pioneira. Depois veio a Porto Belo, segundo as línguas, cópia da Franita. Daí deu-se o início do sucesso da João Cachoeira, patrocinado pela mídia, colocando a famosa rua Augusta em plano secundário. Os clubes de futebol eram outro ponto de destaque no bairro. O Marechal Floriano, era o referencial do esporte Bretão. Seu campo bem gramado não ficava a dever para qualquer campo de futebol profissional. Depois vinha o Grêmio também Floriano, a beira do córrego do sapateiro que trazia as águas da vila Mariana e Aclimação. O grêmio perdeu a fleuma devido ao seu presidente, seu Pedro, ter assassinado um jogador do time da guarda Civil (aquela de uniforme Azul Marinho). Depois vinha o São Cristóvão, o único com uma grande estrutura. Campo bem cercado, e sede própria. Marítimo, e Canto do Rio, sendo estes dois últimos ainda em atividade.
Hoje o Itaim é um dos metros quadrados mais caros da cidade de São Paulo. Dentre as ruas que tinham denominações, até os anos 50-60, poucas ruas tiveram seus nomes mantidos.
1- A rua Joaquim Floriano, (Joaquim Floriano de Toledo, nasceu em São Paulo aos 09/06/1794).
Em 1823 foi nomeado Secretário do Governo, lugar que ocupou até 1838. A Rua Joaquim Floriano que, naquela época era considerada a "estrada principal", com oito metros de largura, seu leito era todo de pedregulho e ladeada de magnólias. Essa Rua teve sua origem em um terraço, que servia de caminho para a Casa Grande da chácara. Foi a principal via de acesso ao bairro, pois continuava a Av. Brig. Luís Antonio. Foi também a primeira a receber asfalto, luz e água; foi o primeiro núcleo comercial, cultural, de prestação de serviço e de lazer. Entre 1920 e 1930, costumava-se dizer que "tudo estava na Joaquim Floriano" (padaria, venda, farmácia, parteira, médico, delegacia, cinema, grupo escolar). Porém, dois estabelecimentos marcaram mais fortemente a história desta rua: o primeiro deles é a fábrica de chocolates "Kopenhagen", fundada por David Kopenhagen e sua esposa D. Anna, imigrantes da Letônia, que chegaram ao Brasil em 1925. Em 1943 a família adquiriu o terreno onde instalaria a indústria Chocolates Kopenhagen.
2 – Rua João Cachoeira. João Cachoeira foi um antigo empregado da família Couto de Magalhães, proprietários da antiga "Chácara Itaim" e fundadores do atual bairro Itaim Bibi. No dia 22 de maio de 1929, a Câmara Municipal aprovou um projeto que deu origem à Lei 3.488 de 23/05/1930, autorizando o prefeito a oficializar o nome de uma das ruas mais conhecida do Itaim Bibi.
3 – Rua Pedroso Alvarenga. Antonio Pedroso de Alvarenga foi notável bandeirante no século XVII. Tomou parte na expedição de João Mendes Geraldo, em diretriz do Sul brasileiro, no ano de 1645. Era filho de Francisco Alvarenga e de sua mulher Luzia Leme, e casado com Maria de Brito, filha de Antônio Bicudo de Brito, todos de São Paulo.
4 – Rua Tabapuã. Tabapuã é o nome de um município paulista, localizado na região de Araraquara. "1º trecho entre o Rio Pinheiros e a Rua Iguatemi; 2º trecho entre a Rua da Ponte (hoje – Clodomiro Amazonas) até a divisa com a Vila Primavera (esta divisa é a atual Avenida São Gabriel)
5 -"Rua Iaiá" – (grafada naquela época como "Yayá"). Não consta da documentação uma explicação para essa denominação. Podemos apenas supor que se trata de um apelido dado a uma mulher, parente ou amiga dos antigos proprietários da "Chácara Itaim". Porém, esta explicação necessita de uma confirmação.
Mário Lopomo