Brincadeiras e outras badernagens à parte, o que mais causa saudade em minha mente é o gostoso cheiro do arroz com feijão que minha amada e saudosa mãe tão brilhantemente preparava.
Quando a fome era algo que extrapolasse os píncaros dos paladares mais exigentes, um prato de arroz com feijão e alguma mistura para complementar poderia ser comparado a um lauto banquete e, para acompanhar, uma garrafinha de 'Cerejinha' ou mesmo 'Grapette', invariavelmente um guaraná Brahma também seria uma pedida excelente. Contudo, esse luxo líquido sé era possível nos finais de semana, juntamente com macarronadas, porpetas ou almôndegas, como queiram, regadas com muito molho de tomate (de tomate, mesmo), salada de alface e tomates, queijo ralado e pão.
Como desfecho, uma sobremesa que poderia ser goiabada com queijo ou mesmo um pudim de leite moça. Isso chega a dar água na boca.
As emissoras de televisões (Tupi, Record, Paulista e Excelsior), sempre ou quase sempre, não nos ofereciam uma programação mais atraente. Eram alguns noticiários, novelas e seriados (enlatados americanos) e muito “reclame”. Tudo isso em preto em branco!
Assistíamos em nosso aparelho da marca Semp (“Sempre Empregamos Materiais Phillips” – risos), que demorava uma eternidade até que as suas válvulas esquentassem, para depois de alguns longos minutos, uma imagem tênue se formar em seu cinescópio. Mas, depois de devidamente aquecida e com a ajuda de uma boa antena, não havia coisa mais bela para se admirar.
Blota Jr., Sonia Ribeiro, Hélio Ansaldo, Randal Juliano, o repórter “Tico-Tico”, repórter Esso, com Kalil Filho, Manoel da Nóbrega e a sua “Praça da Alegria” com Ronald de Golias, Zilda Cardoso, Consuelo Leandro, os “reclames” da Toddy e do Ovomaltine, as garotas propagandas que, ao vivo, faziam os comerciais de sofás, geladeiras, fogões e liquidificadores e, quando a coisa não saia como se esperava o constrangimento era geral. Nídia Lícia fez propaganda da Rural Willys para a Willys Overland do Brasil, e o Volkswagen foi imbatível em sua performance como o 'Carro do Povo' (“você conhece você confia”).
Éramos ecléticos musicais e ouvíamos desde Ray Conniff, Bill Haley, Elvis Presley, Little Richard e Willie Nelson, passando por Beatles, Rolling Stones, Roberto Carlos, Johnny Mathis, até absorvermos as dissonâncias batidas da bossa nova em toda a sua essência.
Simca Chambord, Aero Willys, Willys Itamaraty, Gordini, Dauphine, Interlagos, DKW, Kombi e Volkswagen Sedan, temperaram o nosso imaginário automobilístico e alguns deles nos tornou os motoristas que hoje somos. Eu aprendi a guiar no fusca do Álvaro da farmácia.
Eram dias felizes dos ônibus “coach's” da CMTC e dos bondes que serpenteavam nossos bairros (o da Bela Vista era o de número 5). Quem, em “insana” consciência não “chocou” um bonde, já que os “trólebus” eram difíceis?
Contudo, e como expressou em música o pequeno grande cantor Nelson Ned em que “tudo passa, tudo passará, e nada fica, nada ficará…”, ficou sim.
Ficou o gosto de uma saudade dos tempos em que os nossos cachorros não precisavam de ração balanceada para se alimentarem. As sobras do almoço e do jantar já estavam de bom tamanho para eles, ainda melhor quando alguns ossos de galinha complementavam o menu.
Ficou as saudades de uma liberdade nem um pouco vigiada e desatrelada dos novos recursos da informática (computadores prendem-nos à beça). Nada de telefones celulares. Bastava-nos um grito e a nossa localização estaria descoberta. Nada de CD's, “pen-drives” ou “dowloads”. No máximo, uma “radiola” automática para até doze LP's ou um violão para cantar e encantar alguém em especial, com modinhas românticas e que falavam mais alto no coração do que qualquer tímida declaração de amor.
Vivo estes memoráveis momentos e, em algumas vezes, na solidão deste agreste sertão baiano, conferindo nas estrelas de um céu limpo e nítido, as imagens de um passado já um pouco distante, mas cheio de gostosas e ricas lembranças.
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