Infância no Bom Retiro

Nasci no bairro do Bom Retiro em 1962, na verdade foi na Maternidade Dona Leonor Mendes de Barros, morei na Rua dos Bandeirantes que hoje, se eu não me engano, é estacionamento. Meu pai era judeu e minha mãe católica, fui batizado na igreja Nossa Senhora Auxiliadora, na infância fiquei na Casa de Infância Dom Gastão, na Rua Ribeiro de Lima, posteriormente fomos (eu e meus irmãos) estudar no Parque da Luz. Naquela época a maioria estudava no Grupo Escolar Prudente de Moraes situado na Avenida Tiradentes.

Meu irmão caçula estudou no Scholem Aleichem, a tarde todos nós íamos à Ofidas (Organização Feminina Israelita de Assitência Social) brincar e fazer lição de casa, a biblioteca era coisa de primeiro mundo (francamente, era feliz e não sabia), não tínhamos televisão, o jeito era estudar mesmo. Aos domingos os garotos católicos poderiam ir tanto ao Dom Bosco como ao Liceu Coração de Jesus, primeiro assistir à missa, depois futebol, quem quisesse poderia ir ao Liceu para o cinema na parte da tarde. No total aos sábados e domingos era futebol de rua o dia inteiro, não tinha essa quantidade de carros na rua (as meninas poderiam ir ao Colégio Santa Inês).

Morei na Rua da Graça, na Afonso Pena, na Tocantins (hoje Talmud Thorah) lá existe a sinagoga com o mesmo nome. Aos domingos muita gente se reunia no Bola Preta, tinha bocha e futebol. Coisa bonita de se ver era a coincidência das comemorações da Páscoa católica e da Páscoa judaica, naquela época levava-se a sério os dez mandamentos, (os católicos mais fervorosos não comiam carne), os judeus comiam o “matza”, a religiosidade no bairro era muito visível, as procissões eram intermináveis.

Aprendi o alfabeto hebraico sozinho, fiz primeira comunhão na Igreja Coração de Jesus. Também me lembro de quando morava na Rua da Graça da cavalaria que passava às 23h30 época da ditadura militar. A Rua José Paulino era predominantemente judaica (os comerciantes eram na maioria judeus) na época do Ano Novo (Rosh Hashaná – Páscoa Pessach) e no Dia do Perdão (Yom Kipur) as lojas fechavam.

Estudei parte do ginásio no Prudente de Moraes e como precisava trabalhar fui estudar à noite no Marechal Deodoro, na Rua dos Italianos, na mesma rua também tinha a Igreja de Santo Eduardo com escola anexa, às vezes exibiam filmes para crianças, concluí o ensino médio no EEPSG "Conselheiro Rodrigues Alves", na Rua Vitorino Carmilo.

Só para lembrar, no Bom Retiro já havia muitos bolivianos, eram pouquíssimos os coreanos, tinha muitos gregos. Na Ponte Pequena tinha um número considerável de armênios, a maioria era descendentes de italianos, espanhóis e portugueses.