Índios de São Paulo

Quero falar hoje dos índios que ainda habitam esta cidade complexa que é São Paulo. Sim, índios Guaranis que vivem dentro da cidade.
De mais ou menos 1985 até 1997 morei na City Campo Grande, que ficava entre as Avenidas Interlagos, Nossa Senhora do Sabará, Arnaldo Magnicaro e Marginal. É um lugar muito movimentado, com trânsito intenso, comércio, bancos etc. Todos os domingos meu marido e eu íamos à feira próxima à Avenida Nossa Senhora do Sabará quando num belo dia, aparecem na feira várias mulheres índias levando suas crianças, amamentando algumas, todas elas muito sujas e maltrapilhas, comendo as frutas que os feirantes ou passantes lhes davam. Não pediam esmolas, apenas tentavam vender seu artesanato.
Paramos para comprar-lhes alguma peça, mas muito mais interessados em conversar com elas. Nos contaram que viviam em uma aldeia em Parelheiros e que eram da Nação Guarani. Passavam muita necessidade porque a aldeia tinha pouco espaço para o plantio e a caça, embora próxima à Represa. Perguntei-lhes se recebiam visitas e disseram que sim. Um dia fomos conhecer a aldeia e lá encontramos malocas de tábuas, onde habitavam, mas nos deparamos, para nossa surpresa, com algumas construções indígenas típicas, como a Casa de Oração, havia Pagé, havia a Casa da Cultura e uma Escola. As crianças freqüentavam uma Escola Municipal próxima e a escola da aldeia tinha a finalidade de transmitir ensinamentos locais: seu artesanato tradicional, suas músicas e danças, sua língua, sua cultura e sua história. Havia ali um índio com curso superior de história e jovens que viviam entre a cultura dos brancos e sua própria cultura. Havia um líder jovem, com mais ou menos 45 anos, Antonio, muito esperto e atento, diretor da escola. Não conhecemos o cacique.
Havia ali também um homem que não era índio, mas que organizava aquelas atividades, como se fosse uma ONG, mas não era uma ONG.
Na Constituição Brasileira o Capítulo VII é dedicado aos Índios; na Constituição do Estado de São Paulo a Seção II tem a mesma finalidade e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional dedica vários artigos e parágrafos dentro de seus capítulos à educação indígena, sendo um dos mais importantes o artigo 72 que se refere ao planejamento e financiamento dessa educação. No parágrafo segundo do artigo, o item I trata da formação de pessoal especializado destinado à educação escolar das comunidades indígenas e o item III trata dos programas e currículos específicos, neles incluindo os conteúdos culturais correspondentes às respectivas comunidades. Devido a estas implicações legais, todo Estado que tiver populações indígenas precisa ter um NEI – Núcleo de Ensino Indígena, em sua secretaria de educação.
Em 1990, fui convidada para trabalhar na CENP – Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, sendo responsável pela atualização didática, pedagógica e de novas metodologias para os Cursos de Magistério, que formava professores para a Educação Infantil e de primeira a quarta série do Ensino Fundamental.
Devido a estas funções pedagógicas acabei sendo designada, juntamente com uma colega responsável pelo ensino de história, para fazer parte do NEI, representando a CENP. Deste núcleo participavam além de uma representante da Secretaria da Educação, um representante do Ministério Público que tinha a finalidade de garantir os direitos fundamentais dos índios, um da FUNAI, antropólogos das Universidades Estaduais de São Paulo e representantes das comunidades indígenas. Para minha surpresa, neste grupo de trabalho reencontrei o Antonio, índio da Aldeia de Parelheiros, comunidade das mais atuantes e presentes, que possui inclusive uma Associação, com registro de CGC.
Neste trabalho descobri que em São Paulo temos, além da Aldeia Indígena Guarani Morro da Saudade – Parelheiros -, a Aldeia Cracatú, também em Parelheiros, a Aldeia do Pico do Jaraguá, onde visitei e conheci a então cacique Jandira. Os índios Pankararú, originários de Pernambuco e vivendo na Favela do Real Parque e os Fulniô e os Pankararé originários da Bahia, também vivendo em São Paulo. Existem ainda, vivendo em São Paulo, famílias isoladas de Xavante, Patachó e outros. Descobri ainda as Aldeias de Aguapei, em Monguaguá, que visitei, a Aldeia Rio Branco II, em Cananéia, as Aldeias do Rio do Azeite e a Capoeirão, ambas em Itariri, Aldeia Bananal, Aldeia da Barragem e nem me lembro mais quantas outras em Tupã, Caraguatatuba etc.
Este trabalho foi muito rico e importante na minha vida profissional. Não sei se o relato foi longo e cansativo mas é um tema apaixonante e tenho tanto para contar. Gostaria que este site desse atenção a estas minorias que aqui vivem e colocasse fotografias de algumas dessas Aldeias para conhecimento de todos. Eles fazem parte desta Sãopaulonossacidade.

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