Durante anos fui alcoólatra. Era solteiro, tinha vida relativamente mansa, frequentava bares, ficava dias sem aparecer em casa, perdia noites em rodas de samba, tinha namoradas e "namoradas" e fazia parte de grupos de intelectualóides, pretensos salvadores do país, do mundo e, quiçá do universo; ou seja, dia após dia jogava minha vida nas latas de lixo da cidade.
Em 1971, casei-me com D. Odete, e no dia 1º de Setembro de 1972, após muito sofrimento, deixei de beber definitivamente. Na ocasião, trabalhava na ECA-USP e ocupava um cargo subalterno. Precisava engrenar minha vida novamente, então, toca a prestar concursos dentro da Universidade para melhorar o salário, pois a família aumentava.
Em meu tempo de prestação do Serviço Militar, fui Padioleiro do 2º Batalhão de Saúde e aprendi rudimentos de Enfermagem, o que me valeu muitíssimo quando prestei concurso para Atendente de Enfermagem do Hospital das Clínicas, em 1978. Entre centenas de candidatos, consegui a primeira colocação e, a partir de minha admissão, minha vida mudou de maneira definitiva. Verdadeiramente, o que eu pretendo relatar começa agora; esqueçam do Ignácio, de seu evidente egocentrismo, do blá, blá, blá e vamos lá!
A função do Atendente de Enfermagem, especialmente no HC (Hospital das Clínicas), era mais física do que técnica: não se podia nem pensar em manipular medicações, aplicar tratamentos ou executar qualquer procedimento que interferisse nas rotinas dos(as) auxiliares, técnicos(as) ou enfermeiros(as) de nível universitário. Ao atendente cabiam os banhos, a troca das roupas de cama, o acompanhamento dos pacientes em seus deslocamentos pelos diversos setores do hospital; vivíamos num mundo de fezes, urina, secreções purulentas e muito trabalho pesado. Alguns não aguentavam a rotina estafante e se demitiam ou simplesmente abandonavam o emprego e não davam mais as caras. Sumiam que nem chapéu velho!
Graças a Deus, o HC oferecia cursos internos e muitos de nós aproveitávamos as oportunidades que nos eram oferecidas e, assim, íamos melhorando nossas condições profissionais, aprendíamos a respeitar a dor, aprendíamos a encarar a morte de frente em nosso dia-a-dia, aprendíamos técnicas de tratamento, exercitando a teoria junto com a prática diária.
O Hospital das Clínicas nos tornava homens e mulheres melhores, mais compreensivos e, paradoxalmente, mais sensíveis em relação à vida e aos nossos defeitos como seres humanos, tendo em vista tantas dores e sofrimentos que ajudávamos a mitigar.
Devo minha postura, minha maneira de ser hoje em dia ao Hospital das Clínicas e seus profissionais, especialmente às equipes da neurologia de meu tempo; à minha chefa, D. Maria José de Carvalho, ultra-profissional; às enfermeiras de cabeceira; às enfermeiras assistentes; e, especificamente, aos meus companheiros de "mão na massa" (no verdadeiro sentido da palavra), o Fernando, o André, o Thiago, o Lucílio, à Maria da Graça, à Carmo, à Cida, à Nádia, enfim, a todos do 5º andar, das alas norte e sul.
Aposentado, hoje, ainda devo minha vida ao HC, que cuida de meu coração através do INCOR.
Minhas homenagens a todos, dos antigos atendentes (a profissão não existe mais, foi suprimida pelo COREN), aos enfermeiros com Doutorado, os profissionais que nos mantém vivos e, meu maior preito, ao HC, minha 2ª casa.
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