Homens-formigas

Prezados leitores, preciso de um momento de reflexão. Nós, paulistanos e moradores desta grandiosa, fantástica e por nós maltratada metrópole, necessitamos muito desses seres tão desprezados. Por quê? Afinal, são tão insignificantes, não é mesmo? Puxam carrocinhas sobrecarregadas de lixo, atrapalham ainda mais o nosso já caótico trânsito, não pagam IPVA, inspeção veicular ou outros impostos como nós, não sinalizam quando mudam de faixa, não respeitam os sinais dos semáforos, param em qualquer lugar para descansarem. Pensando bem, são um estorvo para a cidade. Será mesmo? Ledo engano, senhores. Sem eles viveríamos em um verdadeiro lixão, como vivem as ratazanas, baratas, os insetos peçonhentos. São eles, com seus "carros" não poluidores, que não emitem gazes, não buzinam, não descartam os produtos que consomem e não produzem o lixo como nós, pois o levam para a reciclagem, transformando em sustento de suas famílias. Devemos a eles o nosso maior respeito, senhores.

Apressá-los? Ofendê-los? Buzinarmos com irritação? Por quê? Nada disso. É falta de bom senso. Atitudes como essas não adiantam. Eles não conseguem andar mais depressa. Caminham no seu ritmo, sempre para frente, na busca de seu sustento. Nós, modernos e apressados, é que estamos andando para trás. Estamos retroagindo e transformando a nossa cidade em um caos. E por que eles existem, surgindo mais e mais, no dia a dia? Porque existe demasiada pobreza, que aumenta diariamente. Falta educação, saúde, saneamento básico, respeito ao ser humano, planejamento, consciência moral e, principalmente, produzimos muito lixo descartável.

Aliás, a própria sociedade está se tornando descartável. Como vemos, os homens-formigas, que puxam seus carrinhos com cargas imensas e desequilibradas, cujo peso é superior ao seu próprio peso, assim como as formigas, subindo e descendo as nossas ruas, muitas vezes embaixo de chuvas e com chinelos de borracha ou sapatos velhos nos pés, acompanhados de cães sarnentos, são peças importantes da enorme engrenagem que move e impulsiona a nossa cidade. Graças a eles ainda conseguimos transitar pelas vias públicas. Vamos respeitá-los, amigos, ajudando-os com calçados, roupas e, se possível, com um prato de comida. Ruim com eles, pior, muito pior sem eles. Pensem nisso!

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