Era um pé rapado, um “Zé Mané” sem futuro, um desses que nunca vai para frente. Ela mesmo o dissera ao lhe dar um pé na bunda e revelar-se de caso com o espanhol dono da Autopeças Echeverría. Mas aí o vento virou. De birra ele trabalhou duro, empreendeu, jogou com a sorte, virou o rei da cocada preta lá na Baixada do Glicério. Agora, pasmem, é presidente de honra da escola de samba do bairro e patrocina a malhação do Judas na Semana Santa.
Outro dia se cruzaram no Bar do Portuga, ali na esquina da Lavapés com a Rua Espírita. Ele, na estica, sapato Samello, terno de casimira, perfume importado; ela, sambada, em “marré descer”, perdendo o viço, trocada por uma piriguete.
– Bela vidente és tu! – caçoou ele – Sem futuro, eu…
Ela, sem graça, fumava. O cabelo louro, descolorido.
– Ora, vamos, tire esse sorriso amargo da cara, ó mulher. Tome uma cocada para adoçar a vida!
– Branca? – ela estranhou.
– Pois é. Estou diversificando.
É, a despeito dos cinco graus de miopia, indubitavelmente, um homem de visão.
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