Foram muitos os momentos de glória que principalmente os quatro grandes do futebol paulista (São Paulo, Corinthians, Palmeiras e Santos) tiveram em suas longas existências. Dentre esses vários momentos de glória escrevi uma história para cada clube, escolhida em razão da especial peculiaridade do momento que aconteceram.
Primeira história: São Paulo Futebol Club – Praça Roberto Gomes Pedrosa, 1 – Morumbi – Estádio Cícero Pompeu de Toledo
Desde o início da década de 30 (exceto 1935 quando o Campeão foi o Santos) até 1942, somente Corinthians e Palmeiras (Palestra) foram Campeões Paulista. Antes do início dos campeonatos, sempre havia reunião entre os representantes dos clubes. Na reunião de 1943, depois de discutidos os assuntos referentes ao Campeonato, alguns representantes faziam conjeturas sobre quem seria o Campeão. Corintianos e Palmeirenses chegam a um acordo:
– “como existe só duas opções basta jogar uma moeda para cima, quando cair, se der cara será o Palmeiras, se der coroa, o Corinthians.”
Dirigente do São Paulo não gostando da gozação, retrucou:
– “E se o São Paulo for Campeão?”
Corintianos e Palmeirenses continuando com a gozação, responderam:
– “O São Paulo só será Campeão se a moeda cair em pé.”
Nos últimos jogos do campeonato, Corinthians, Palmeiras e São Paulo disputavam ponto a ponto a primeira colocação. Faltando três jogos para o Corinthians (São Paulo, Palmeiras e Ypiranga), três jogos para o São Paulo (Corinthians, Santos e Palmeiras) e dois jogos para o Palmeiras (Corinthians e São Paulo), a situação do campeonato era a seguinte: Corinthians líder com 30 pontos; Palmeiras e São Paulo em segundo, ambos com 28 pontos (naquela época a vitória valia dois pontos).
Corinthians perde para o São Paulo, perde para o Palmeiras e ganha do Ypiranga, ficando com 32 pontos. São Paulo ganha do Corinthians e ganha do Santos ficando também com 32 pontos. O Palmeiras ganha do Corinthians ficando com 30 pontos. O último jogo do campeonato era São Paulo x Palmeiras no Estádio Municipal do Pacaembu. Se o Palmeiras vencesse os três empatariam em primeiro com 32 pontos e haveria um supercampeonato para surgir o Campeão.
O jogo tem início e notava-se o São Paulo mais preocupado em resguardar a defesa, pois tinha a vantagem de jogar pelo empate. Jogou o tempo todo tentando segurar o resultado de zero a zero e acabou conseguindo, o que lhe valeu a conquista do Campeonato Paulista de 1943 e mostrar a Corintianos e Palmeirenses que a moeda realmente caiu em pé. No dia seguinte o jornal "A Gazeta Esportiva" ilustrava na primeira página uma charge de uma mão aberta com uma moeda em pé e a torcida saopaulina comemorou o título desfilando em carro alegórico com uma enorme moeda em pé
Segunda história: Sport Club Corinthians Paulista – Rua São Jorge,777 – Parque São Jorge – Estádio Alfredo Schuring – em breve "Itaquerão"
Campeonato Brasileiro de Futebol de l976. Em 05 de dezembro a tabela marcava a disputa da semifinal entre Fluminense e Corinthians no Maracanã. O vencedor iria disputar o título com o Internacional que já estava na final ao vencer o Atlético Mineiro. Na época o Fluminense tinha um dos melhores times do Brasil. Jogavam no Fluminense, entre outros, Carlos Alberto Torres, Edinho, Rodrigues Neto, Dirceu e até o grande Rivelino. O Corinthians tinha também um bom time, mas tecnicamente inferior ao Fluminense, mas tinha algo que se bem usada poderia se igualar ao tricolor carioca: garra!
Quando o Corinthians entra em campo, uma súbita avalanche de torcedores saudando a equipe com bandeiras tremulando por toda a extensão do Maracanã. Foi a maior invasão de torcida de um clube em campo adversário. Jamais um clube havia conseguido levar tantos torcedores (mais de 60 mil) a uma distância de quase 450Km da capital. O jogo tem início e o Fluminense apresentava melhor desempenho chegando a fazer um a zero logo aos 18 minutos.
Enquanto a torcida do Fluminense festejava com naturalidade, a multidão corintiana pasmada se calava. Mas o jogo continua e aquele trunfo que o Corinthians tinha (garra) se fez presente aos 29 minutos, empatando o jogo. A estrondosa manifestação da torcida corintiana nesse momento, confesso, sem ser corintiano me fez arrepiar.
O jogo acabou terminando em um a um ocasionando uma decisão nos pênaltis, que vencida pelo Corinthians originou mais uma espetacular demonstração de Júbilo entre os milhares de corintianos presentes. Com a vitória o Corinthians iria para a final com o Internacional para a decisão do Campeonato Brasileiro que, por ironia do destino, não veio premiar os participantes da invasão que muito mereciam esse título.
Terceira história: Santos Futebol Clube – Rua Princesa Isabel,77 – Vila Belmiro – Estádio Urbano Caldeira
Em janeiro de 1969 o Santos iniciou uma excursão por várias cidades da África. No começo de fevereiro, estava marcada uma partida no antigo Congo Belga. Quando o Santos chegou no local os dirigentes foram informados que na região do jogo duas cidades viviam uma sangrenta guerra civil e por consequente o jogo seria cancelado. A notícia do cancelamento causou grande comoção no país, tanto na população com também entre as partes em luta que desejavam ver o Santos (Bicampeão Mundial) e principalmente Pelé (uma das personalidades mais conhecida em todo o mundo).
Houve um entendimento entre os conflitantes que de comum acordo decidiram parar a guerra para que o jogo pudesse ser realizado e além do jogo previamente marcado, condicionaram o cessar fogo se o Santos realizasse dois jogos. Com agenda lotada o Santos tentou não concordar, mas não tiveram escolha e aceitaram fazer os dois jogos. Embora sob um forte calor na época, o Santos de Pelé cumpriu o combinado deixando maravilhados os torcedores presentes.
Durante a permanência do Santos no local, não se ouviu um único estampido de qualquer tipo de arma de fogo, mas assim que o avião com a delegação do Santos levantou voo, a guerra recomeçou. Que orgulho para o Santos! Que orgulho para o Pelé!
Quarta história: Sociedade Esportiva Palmeiras – Rua Turiassu, 1840 – Perdizes – Estádio Palestra Itália
Em 07 de setembro de 1965, estava marcado o dia para a inauguração do Estádio Magalhães Pinto, o "Mineirão" em Belo Horizonte. Com alguma antecedência e para as festividades da inauguração, a CBD (atual CBF) convidou a seleção do Uruguai, que acabara de se classificar para a Copa do Mundo de 1966, de forma invicta, para um jogo com a Seleção Brasileira.
Aproximando-se a data do jogo, a CBD achando inviável convocar uma Seleção Brasileira naquele momento, convidou a Sociedade Esportiva Palmeiras para representar o Brasil. O Palmeiras aceitou e se comprometeu a compor toda delegação desde o roupeiro, massagista, médico, técnico, 11 titulares e mais sete reservas. Só um item não poderia levar: o uniforme. Seria trocado pela famosa camisa canarinho, com calção azul e meia branca.
A seleção Uruguaia sempre foi a terceira força do futebol Sul-americano, atrás do Brasil e da Argentina. E sempre aprontava como na Copa do Mundo de 1950, quando derrotou em pleno Maracanã a poderosa Seleção Brasileira da época, tornando-se Campeão Mundial com o técnico Juan Lopez, o mesmo que iria dirigir a Seleção Uruguaia contra o Palmeiras/Brasil.
Com a bola rolando logo no início os "brasileiros" se mostravam melhores. Depois de várias chances perdidas, saiu o primeiro gol aos 27 minutos. Continuando, jogando melhor aos 35 faz o segundo e poderia fazer o terceiro em um lance de falta dentro da área que o juiz não marcou pênalti em consideração ao convidado. Na volta do intervalo a equipe palmeirense/brasileira veio com cinco substituições e mais uma no decorrer da partida e mesmo assim continuou dominando o jogo não dando “Sanches” para os Uruguaios e ainda aos 29 minutos marca mais um fechando a contagem com três a zero, para alegria de mais de 80 mil presentes no primeiro espetáculo no palco do Mineirão.
Ao final do jogo, ainda no gramado, Juarez Soares entrevista o zagueiro Manicera do Uruguai que diz:
– "Se vocês brasileiros quiserem ganhar a Copa na Inglaterra, é só colocar esse time aí. Ninguém vai aguentá-los. Ah, e reforça com Pelé, claro. Mas não tira nunca esse Ademir do time".
Havia uma taça em disputa que foi entregue ao capitão do Palmeiras, mas a Diretoria entendendo que o troféu pertencia à CBD, deixou o mesmo com a Comissão Organizadora e retornou a São Paulo. Decorridos mais de 20 anos descobriu-se que a taça continuava no Mineirão, pois a CBD não havia requisitado o troféu. Decidiu-se entre as partes que o Palmeiras pelo honroso empenho deveria ficar com o mesmo. Hoje está exposto na sala de Troféus do Clube.
Uma curiosidade: pela primeira vez uma Seleção "Brasileira" foi dirigida por um técnico Argentino: Filpo Nuñes, o criador da primeira Academia!
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