Histórias de cachorros, gatos e outros bichos

Tenho uma bela foto de infância em que eu e o Negrão estamos rolando pelo chão. Negrão foi um dos muitos cachorros com os quais convivi quando criança, na deliciosa São Paulo da década de 60. Dele não tenho muitas lembranças, posto que morreu atropelado quando eu ainda era muito pequeno.

Éramos quatro irmãos e, como não poderia deixar de ser, éramos tão endiabrados e aprontávamos tanto que minha mãe vivia no limiar da sanidade mental. Para tentar amenizar seus ataques histéricos, que a deixavam sem voz e pouco influíam em nosso censurável comportamento, ela, vez ou outra, nos arrumava um animal de estimação para tentar acalmar nossos ânimos.

Portanto, muitos bichos fazem parte do meu repertório de recordações. Dentre eles pintinhos, patinhos, passarinhos, gatos, cachorros e até um inacreditável cágado.

Começo minha narrativa por ele. Um tio de Taubaté nos presenteou com um enorme cágado que, explicava ele, era muito jovem ainda, tinha “apenas” uns vinte anos. Logo ao chegar em casa, Teodoro (acho que esse era o nome dele) mostrou a que veio. Transformou-se de imediato num feroz “cágado” de guarda. Atacava a tudo e a todos que se postassem em seu caminho, incluindo aí eu, meus irmãos e meu pobre pai que, vira e mexe, tinha suas canelas mordidas pelo obtuso quelônio. Minha mãe, que o tratava a pão–de-ló, quase sempre escapava ilesa de Teodoro. A coisa foi ficando feia quando os colegas da rua recusavam-se a vir a nossa casa e eu comecei a ter alguns pesadelos recorrentes em que um enorme pescoço sustentando uma bocarra cheia de dentes partia para cima de mim. Teodoro foi solenemente devolvido ao tio de Taubaté, e hoje, aos sessenta anos, deve estar mais calmo curtindo sua adolescência.

Muito comum à época eram pintinhos ou patinhos ofertados de brinde na compra de alguns produtos vendidos de porta em porta. Certa feita, nós e os colegas dos sobrados “geminados” vizinhos ganhamos vários patinhos. Os patinhos cresceram rapidamente e transformaram-se em… ferozes “gansos” de guarda. Novamente nos vimos às voltas com esganiçados animais que partiam para o ataque a qualquer coisa móvel nas redondezas. Era um tal de moleque correr de ganso e uma saraivada diária de bicadas doloridas que o pai de um dos colegas resolveu pôr fim à situação, unindo, segundo ele, o útil ao agradável. Resolveu, com a anuência de todos os pais, que mataria os gansos e promoveria um apetitoso guisado coletivo para nossas famílias. Cansados de levar bicadas, concordamos e, inocentemente, resolvemos assistir à matança dos animais. Nos reunimos no quintal, um público recorde de nove criancinhas. O algoz dos gansos apareceu com uma enorme faca, agarrou o primeiro que estava a seu alcance e “zapt”, cortou o pescoço dele de um só golpe. Horrorizados, vimos a cabeça do ganso cair no chão e o corpo decapitado sair andando cambaleante por alguns metros. Nem preciso dizer que o trauma causado por tal barbaridade nos acompanha até hoje.

Voltando aos animais mais tradicionais, uma boa tentativa de minha mãe foi nos presentear, no auge da Jovem Guarda, com um lindo filhote de pequinês, uma fêmea, que de imediato recebeu o nome de Wandeca. A cadelinha, coitada, com poucos dias de vida, sofreu o diabo em nossas mãos: era derrubada, carregada para cima e para baixo, ora segura por uma pata, ora de cabeça para baixo, ora pelo rabo etc., etc. A bichinha vivia ganindo e tentando se esconder, até que um dia, para sua sorte, meu irmão do meio entrou chorando em casa com uma marca de mordida na bochecha. Minha mãe, em mais um afã histérico, perguntava aos gritos quem o havia mordido. Em uníssono falamos e apontamos para Wandeca. A verdadeira autora da mordida foi minha irmã, no calor de uma de nossas incontáveis brigas, e Wandeca, que levou a culpa, para nossa “segurança”, foi doada a uma tia, que a tratou como princesa até sua morte de velhice com dezessete anos.

Ainda falando de cachorros, tivemos o Brasinha, um vira-latinha preto e branco, carinhoso e inteligente. Quando adoeci com hepatite e fiquei “internado” na casa de minha avó, na mesma rua em que morávamos, Brasinha ia me visitar, para espanto de todos, pontualmente às cinco horas da tarde. Ficava meia hora comigo, brincando, lambendo-me e recebendo afagos e então ia embora, só voltando no dia seguinte no mesmo horário. As visitas se repetiram sistematicamente pelos três meses de minha convalescença, e o caso até hoje é lembrado com assombro em nossas reuniões de família.

Infelizmente, Brasinha foi o causador de outro trauma que trazemos também até hoje. Namorador incorrigível, não podia ver um rabo (sem saia) de qualquer cadelinha que passasse, pois partia em disparada atrás da beldade. Nessas incursões, às vezes, ficava alguns dias sem aparecer. Invariavelmente voltava sujo e cheirando mal, indo direto para o banho frio com sabão em pedra no tanque de lavar roupas. Um dia voltou estranho, muito quieto e acabrunhado. Procurava por lugares escuros e rosnava violentamente para quem se aproximasse. Apenas minha mãe conseguia chegar perto dele, que se recusava a alimentar-se e já soltava espuma pela boca. Tudo indicava que Brasinha estava com hidrofobia ou raiva canina. O serviço de zoonoses foi chamado e, chorando muito, demos o último adeus ao Brasinha antes dele ser trancado na carrocinha, que o levou embora para sempre.

Mas, mudando de pato para ganso, ou melhor, de cachorro para gato, vários foram os gatos que também marcaram minha infância; recordo-me de um em especial. Um dia acompanhei meu pai e meu avô numa visita a parentes. Enquanto eles se despediam, vi um filhotinho de gato caminhando próximo ao carro do meu avô e, sem hesitar, peguei o bichano e o enfiei por debaixo da camisa. Já no carro ele começou a miar, provavelmente de fome, meu pai perguntou o que era aquele miado e eu respondi que estava brincando de imitar gato. Assim, Ronrom passou a ser nosso gato de estimação.

Entretanto, um acontecimento trágico faria a história desse gato ser inesquecível. Certa vez, Ronrom entrou na cozinha sem que minha mãe percebesse, bem no momento em que ela descia de uma cadeira que tinha utilizado para alcançar uma panela no alto do armário. Ela pisou em cheio na cabecinha do Ronrom. Ele desfaleceu e começou a sangrar pela boca e pelo nariz. Minha mãe, desesperada, tudo fez pela recuperação do bichano: promessa para Nossa Senhora, comidinha na boca, compressas etc.; só não o levou a um veterinário, pois nossas posses não permitiam.

Utilizando pelo menos cinco de suas sete vidas, Ronrom sobreviveu, mas não sem terríveis seqüelas. Pequenino ele era e pequenino ele ficou. Tornou-se adulto e não cresceu, permanecendo, como diria, um gato anão. Além disso, passou a apresentar um impressionante sintoma. De repente, tinha um ataque ou surto que era mais ou menos assim: dava um miado agudo e gutural, eriçava todos os pelos, erguia a cauda, se contorcia e rolava várias vezes pelo chão e, então, saía correndo feito um foguete. Se uma parede estivesse em seu caminho, ele, literalmente, subia por ela. O ataque durava alguns segundos, e quando terminava nem parecia que Ronrom tinha passado por ele.

Era muito engraçado quando Ronrom decidia dormir entre as pernas de meu pai. Explico: Meu pai tinha o hábito de assistir televisão deitado de lado no sofá, com as pernas flexionadas e coberto com seu indefectível cobertor vermelho. Ronrom entrava por debaixo da coberta e se instalava atrás das pernas dele, para dormir no “quentinho”. O miado inicial do surto do Ronrom era a deixa para meu pai dar uma “levantadinha” no cobertor o suficiente para o gato sair. Ele tinha então o incrível ataque no meio da sala, e tão logo este passava, voltava a aninhar-se entre as pernas de meu pai, que se cobria novamente como se nada tivesse acontecido.

Ronrom morreu de velho, não antes de meu pai ter precisado dar uma “levantadinha” no cobertor.

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