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Categoria - Outras histórias Clarins! Castanholas! Olé: Espanha em Santo André! Autor(a): Rubens Cano de Medeiros - Conheça esse autor
História publicada em 13/06/2014
Sim, eu me lembro. Todavia, não com toda exatidão. Afinal, fatos de há sessenta anos! Desembarquei na Maternidade São Paulo, penúltima semana do ano: 1947. Por conta do calendário escolar de então, quando foi para ingressar no “primário”, ficou para “o outro ano”. Só que eu já entrei razoavelmente alfabetizado.
 
Minha memória hoje foge do “padrão Fifa”, dentre as memórias. Nem mesmo é “uma Brastemp”. Mas ainda dá para o gasto. Algumas reminiscências. Lembro que, antes do “Marechal Floriano” (grupo escolar, Rua Dona Júlia), eu tinha feito escala na pré-escola municipal de então. Precursores das atuais EMEIs. Certa manhã, de não lembro quando, minha mãe me matriculava...
 
Entrei no “parquinho” infantil da Rua Curitiba. Bem defronte à Tumiaru. O 48-Paraíso passava à porta. Vila Mariana, mas para ser Ibirapuera era só ir pouco à frente. Oficialmente, desde Celso Pitta, ali é Distrito de Moema! Moema, que fica mais longe de lá...  Que Vila Mariana? Moema, cuja explosão imobiliária e comercial detonou o nome (belo). “Indianópolis”, não? Do bonde 102-Indianópolis. Hoje, ele seria VLT. A linha? 102... “Moema”, claro.
 
Pois aos cinco anos eu lia (e escrevia) o suficiente para fuçar jornais e revistas – como O Cruzeiro. Até o “romance” em “quadrinhos” (quase), chamado “Grande Hotel” – minha mãe pegava emprestado. Eu gostava do jornal A Gazeta!
 
Minha mãe, de maneira “empírica”, foi me alfabetizando. Eu “lia” o jornal. Letras vermelhas, maiúsculas, o título, não? A Gazeta! Jornais, todos, à época, em preto-e-branco. Raros suplementos ou anúncios de algumas cores. Muitos lembrarão. À esquerda do título, o “reloginho” circular. Marcava (sempre) 2:30 (da tarde, subtendido). Hora da tiragem. À direita, uma face da moeda (um cruzeiro?), preço do exemplar, nas bancas. Logo abaixo do título, “Fundação Cásper Líbero”. Ué? Não era a avenida?
 
Minha mãe... Bem, ela sintonizava era a Rádio Gazeta. No nosso rádio grandão, de válvulas; carcaça de madeira, ponteiro do “dial” vermelho. Lembro bem. Todo meio-dia, o uivo: “Uóóóóó...”, uns 30 segundos? Meio dia, em ponto! Eu não perdia um! O moleque sabia: Rádio Gazeta; A Gazeta; A “Esportiva”! Tudo era São Silvestre! Na Cásper Líbero...
 
O mesmo vento que frequentemente me trazia o fragor de motores aeronáuticos roncando em Congonhas. Tenho para mim que o mesmo vento, invertendo a rota, trazia também o uivo interminável, do topo do prédio de A Gazeta! Se tiver sido imaginação... Nada mais real! “Uóóóóó...”. O relógio do Largo São Bento confirmava: doze horas na Pauliceia!
 
Princípios dos anos 50, minha mãe gostava de certo programa da Gazeta. Eu, pegava carona. Músicas orquestradas. “Instrumentais”, falavam. Ou eram “clássicas”? Certeza não tenho mais. A sirene de minha memória ficou afônica: calou.
 
“Tá-tá-tá”! Outro programa! Nunca esqueci! Outra, emissora. Era (diariamente?) à tardinha. “Hablado em español”, a locutora de voz fininha. “Rádio Clube de Santo André”! “Tá-tá-tá! Tléc, tléc, tléc! Tóc, tóc, tóc, tóc!” – clarins, castanholas e sapateado: “ôle, ôle, ôle – Olé!”. “Relicário Espanhol”, bradava a voz feminina, ibérica da gema! De Santo André – mas bem poderia ser Sevilha, Granada, Madri! Músicas de “gitaneria”, dizia-me a Isabel Cano (de Medeiros), paulista, filha de espanhóis. Mouros, ciganos, ibéricos. Todos, em 78 rotações. Músicas vibrantes!
 
Fragmentos, esparsos, de memória, de mim, à época, cinco a sete anos. Grudados na mente, como a lagartixa que gruda na parede. Felizmente (ufa!), não guardei a música toda – um trechinho (cuja melodia fico devendo): “Me llamo Rodriguez, por parte de madre. Me llamo Fernandez, por parte de padre! My nombre es Maria – Maria del Carmo – del Carmo Rodriguez – Rodriguez Fernandez!”... E a saraivada de castanholas e sapateado! Eu, quando moleque, era até comum a pergunta, do sobrenome (mal aportuguesado) “Cano”: “Ocê é neto de ispanhór?”. Além de português e italiano, sim! Olé!
 
Meu pai, ele sim, é que trazia, consigo, todo dia. O jornal A Gazeta. “Tudos” dias, como falávamos, aquela molecada daquele trecho, Vila Mariana – quase Paraíso. Onde eu morava.
 
Era que meu pai retornava do trabalho, das oficinas da Light, no Lavapés, Cambuci, perto da Liberdade, não? E eu, no “vespertino” do dia, eu postado no portãozinho de madeira – de tramela, por dentro – eu ficava a aguardar os dois. Meu pai e A Gazeta. Que ele trazia. Lembro bem: sob o braço. Então, luzes de filamento – espetadas, na horizontal dos postes da mesma Light (alguns mais antigos, de ferro) – luzes acendiam “em série”... Milionésimos de segundo, sequencialmente, uma após outra. Era que a noite vinha descendo. Junto com meu pai e A Gazeta: descendo a rua... Enquanto no velho (nosso) rádio, Pedro Geraldo Costa falava: a “Hora da Ave Maria”. Era quase hora da janta. Hora de descanso dos operários. Como o Dionísio de Medeiros – paulistano, do Glicério. A sirene de A Gazeta respeitava o descanso de todos.
 
Deve ter sido – até mesmo desde eu moleque, que “herdei” de meus pais, o hábito saudável de muito caminhar. Sempre (até hoje) exercitei o tal de “ir-e-vir”, a pé. Certo período, com a colaboração dos então “inesgotáveis” Vulcabras 752. Pretos e marrons – de amarrar. Hoje, sirvo-me do neologismo pisante: “sapatênis”. E (ainda) ando, ando, ando... Como um fusquinha!
 
Nos vinte anos em que – meus pais e esta testemunha – moramos na então romântica Vila Mariana “da garoa”, meu pai... Infalível, era! Ele ia a pé, trabalhar, de madrugada. Voltava andando, à tardinha. Hábito. Salutar costume. Da José Antônio Coelho (quase Paraíso) até a Lavapés. Via Apeninos e Pires da Mota. Ele dizia que, se quisesse, poderia ir de bonde: como operário ligtheano, a CMTC não cobrava. Como os bondes nasceram Light... Dionísio tinha saúde de ferro – galvanizado! Ele que me trazia A Gazeta.
 
Por sinal (qualquer deles, àquele tempo, da DST: vermelho, amarelo ou verde), paulistanos hão de lembrar. Na São Paulo dos anos 50, andava-se muito! Era comum, no dia a dia. E não só nos “arrabaldes”. Era a (eterna) carência de transporte público. Que os bondes e ônibus não contemplavam todos rincões paulistanos, claro. Só de lembrar, dá cansaço.
 
Porém, hoje... Ah! Ônibus articulados! Bi! Tri! E, nos horizontes, surge um novo! O tal de “BRT”! Meu tempinho de moleque? Se houve BRT, claro, foi que “Busão Rodava (a)Trasado”! “Busão”: que termo rastaquera! Feioso. Que mau aportuguesamento. “Busão”...
 
Por aqui mesmo. Vila Gumercindo (ou Distrito do Cursino...), que me acolhe há décadas. Diziam moradores “mais antigos”, de quando aqui aportei. Que, anos 40 e 50, a turma “camelava”, velhinho! Condução? Era sofrível. E distante. Bonde? Ou só o Bosque ou, “mais pior”, o Ipiranga, lá (longíssimo) no “Padre Chico”! Ou a condução da distante Domingos de Morais, a uns dois quilômetros... Ruas de terra, sem luz! Se chovia... Ah!, lembrei. Tinha o heróico ônibus “22”, era verdade! Em 1955, surgiu um eletrizante: o Gentil de Moura, perto até. “Já passou o Gentil?” – “Não. Demoura.”. Vi uma foto da inauguração: A Gazeta!
 
Eu, moleque paulistano. O que prendia minha atenção, aquele jornal? Era um jornalzão, cheio de assuntos interessantes. Fotos? Em profusão! Muito nítidas, algumas grandonas. Eram “reclames” – de brinquedos, da Viação Cometa... Panorâmicas belas da “metrópole” Pauliceia; de outras cidades... A edição do IV Centenário, meu chapa! Era, o jornal, para o moleque, como o Primo Carbonari! Das telas do Cine Cruzeiro. Do Phenix. Do Cine Estrela!
 
Bem, já aos domingos... Não saía A Gazeta. Como a sirene, ela emudecia, nas bancas. Meu pai comprava o Diário de São Paulo. O de hoje? Não. O irmão “associado” do Diário da Noite. O de hoje, é só rescaldo de outro jornal tradicional, Diário Popular. Aquele Diário tinha suplemento, colorido! Nele, quadrinhos! Lembro do “Príncipe Valente”; “Sobrinhos do Capitão”; a dupla “Mutt e Jeff”. Talvez “Pinduca”, moleque caladinho. Quem sabe, o “Gato Félix”... Mas eu preferia A Gazeta que, de tirinha, era só o Professor Nimbus, não?
 
Velhinho, certo dia... Aconteceu uma, que... Tive até que – involuntariamente – deixar A Gazeta de lado! Ficou, ela, para “the day after”! Quando minha mãe me levou para “fazer” dilatação de pupilas.. Dilatar? Escancarar! Falavam os “espíqueres” na Rádio Record: “O gol estava escancarado! Sem o guarda-valas!”. E, ainda assim, o “cabecinha de ouro” perdeu! Também: pulou de pupilas fechadas! Ah... Acabou zero a zero.
 
Então, mais à tardinha, minha mãe me “conduziu”. Clínica “de olhos” até bem conhecida, de nome... (?) – Ah!, lembrei! Rua Condessa de São Joaquim! Logo depois da Conde de São Joaquim (marido?). Não tão longe da Rua... São Joaquim! Na qual plantaram a estação São Joaquim! Pá! Com tanto Joaquim, a Liberdade só podia mesmo ser bairro... Oriental! Não é, Manuel?
 
No regresso, à noitinha... Eu, pupilonas dilatadas! Angústia, sô! Visão borrada! Transtorno. E A Gazeta? Eu via chuviscos e rabiscos. Lembro, hoje, com a mesma aflição daquele dia (noite)! Demorava voltar ao normal – 24 horas, ou mais. Pois na Av. Liberdade... Ponto do bonde à frente do “Professorado”... No letreiro do bonde, era “Santo Amaro”. Ou “Domingos de Morais”. Que eu “lia” assim, ó: “ ////////// “... “Manhê! Quando passa, o rabisco?” – “Amanhã”. Passou. 
 
Ó passado paulistano: o certo é que nunca me esqueci do jornal A Gazeta. Pena que descontinuou. Tal qual a respectiva sirene, silenciou! Mas... incrível! Para mim, é instintivo! Quando Helena Maria me pede (na verdade, manda!) para buscar o jornal... Eu, instintivamente: “Ei, seu Zé! Tem A Gazeta?”. O semblante mudo do jornaleiro exaspera: “ ****** !”.
 
Mas enfim... Prezado contemporâneo paulistano, de meus “meia meia” e meio. Ao contrário de mim: guardaste tu alguma hoje rara “A Gazeta”? É sério?! O quê? A do IV Centenário? Nossa! “Me empresta ela?”, diríamos, alguns moleques de sangue ítalo-vilamarianense, nos anos 50. Prometo (mas não confies) devolver (não confies)!
 
E prometo mais. Não recortar – como eu fazia, de moleque. Fotos e reclames que eu guardava na caixa de (sem) sapatos. Eu, reler A Gazeta? Quero, sim! E é só para prover a nostalgia: de eternos breves momentos, de emoção.
 
Melhor, gente boa: agradeço a ti, mas guarda teu exemplar. Com o mesmo zelo de até então. É, sem muito exagero, até uma “relíquia”, preciosidade. Um documento. Um testemunho. Da melhor tradição do jornalismo de Piratininga. Jornal que “arregalava os olhos” da curiosidade do moleque. Melhor, “dilatava” as pupilas...
 
Ufa, para concluir! Minha nostalgia acerca do passado paulistano... Reconheço (e dou fé): torna-me um cara chato! Essa mania... In-sis-tir! “Tem A Gazeta?”. Ora, não tenho como: é-me involuntário! “Ei, seu Zé! Tem A Gazeta?”. Quem sabe, hein? Ato contínuo, respondendo em silêncio, o olhar feroz!. Bom, São Paulo, “sacumé”: água mole em pedra dura... Melhor deixar quieto!
 
“A Gazeta”! Página virada. É a própria rotativa – a da vida. Vida em preto-e-branco. Vida colorida. Fim! Olé!
 
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Publicado em 16/06/2014

Possuo um encadernado de A Gazeta Magazine, de 1941, do diretor Cásper Líbero,com matérias excelentes...não me perguntem com isso chegou em casa, pois eu não sei. Possui um acervo de boa qualidade que nos prende ao assunto.

Enviado por Carlos Fatorelli - [email protected]
Publicado em 16/06/2014

Uma deliciosa explosão de lembranças, com direito a fotos, PB ou coloridas, de uma época saudosa. Parecendo uma panela de pipócas, estourando pra todo lado, recordações mil, e quando vc pensa que o último "milho" já explodiu, lá vem outro, logo em seguida, mostrando que a saborosa narrativa ainda tem muito pra ser contada. Pois é, Medeiros, quando vc cita a "GAZETA", apesar de seus 15 anos a menos, lembro, também de meu pai, assíduo leitor desse vespertino táo grato aos meus tempos de "aprendiz" de leitor. Muito obrigado, Cano pela sua memória, trazendo gratos instantâneos de uma época tão gostosa. Parabéns, Rubens.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 16/06/2014

Caro Rubens seu texto maravilhoso me trouxe inteirinho a minha infância e o meu passado paulistano de volta. parabéns foi muito gratificante ler essa sua narrativa.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - [email protected]
Publicado em 15/06/2014

Rubens, curti o seu texto desde o início. Cheguei a me emocionar quando você citou o Colégio Marechal Floriano. Fiz uma substituição ali na década de 80, mas foi de apenas uns dez dias. ADOREI a experiência ali e fiquei bastante abatida por ter que devolver o lugar para a professora titular. Não que eu quisesse tomar o lugar dela, mas aquela escola era um mimo. Senti muito. Bem,o seu texto é impecável do começo ao fim. Parabéns e um abraço.

Enviado por Vera Moratta - [email protected]
Publicado em 14/06/2014

Rubens, velhas lembranças que povoam nossas mentes, jornal A Gazeta, já não existe mais, parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - [email protected]
Publicado em 13/06/2014

Excelsior, lindo, beleza de texto, simpatia total, o falar escrito. Quero agradecer pelo seu bom humor, pela sequencia ideal no andamento do seu pensamento (confuso né?, faltaram-me definições melhores)! Professor Nimbus, bela lembrança, os suplementos do Diário de São Paulo, O Cruzeiro, Grande Hotel, Vida Infantil, Vida Juvenil, Vida Doméstica... tudo isso um dia desses, ontem...

1brigadão Rubens.

PS: Busão, realmente é "horriver"

Enviado por Joaquim Ignácio de Souza Netto - [email protected]
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