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Categoria - Outras histórias Na catedral Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 04/06/2014
Desde sempre eu me lembro de entrar na catedral. Foi ali que a tia Norma me crismou naquele janeiro de 1967. Eu não sabia o significado da crisma. Nos meus nove anos de idade eu não me atrevia a perguntar nada a ninguém. A seriedade e sisudez dos adultos ao meu redor eram tais que eu não me sentia digna de atenção e, muito menos, de manifestar a minha ignorância sobre qualquer assunto.
 
Com olhar de respeito eu admirava a catedral na sua grandiosidade, simbologia e história.
Iniciada a construção em 1913, São Paulo já tinha pressa e se preparava para receber novas ondas de imigrantes, pois a Primeira Guerra não tardaria a eclodir. Aquela monumental obra arquitetônica só ficou pronta, sem as duas torres principais, por ocasião da comemoração do IV Centenário, que o meu pai tanto falava orgulhosamente.
 
O marco zero da cidade sempre me provocou. Foi do meu professor de Física, Sr. Leonardo, que ouvi pela primeira vez a expressão ”marco zero” e o seu significado. Foi ali que comecei a me permitir participar politicamente dos atos contrários à ditadura. Também foi lá que me apaixonei pela figura histórica do Dom Paulo Evaristo. Foi bem ali, próximo à porta de entrada, que dei meu primeiro grito pelas Diretas-Já. Comecei a nascer como cidadã às portas da catedral de São Paulo.
 
Não foram poucas as vezes que me sentei na primeira fileira e tentei visualizar a missa de sétimo dia pelo assassinato de Wladimir Herzog, oficializada pelo D. Paulo. Respirei intensamente as angústias, as indagações, as saudades e os lamentos.
 
Observando os detalhes, a pulsação do lugar, as batidas compassadas das almas inquietas, uma mulher de aparência simples se aproximou e se sentou ao meu lado. Achei estranho, em um espaço daquele tamanho, a mulher se juntar a mim. Ela pediu um dinheiro. Era para comprar um batom.
 
Neguei. Era um tempo que qualquer centavo me era importante. Aquela mulher rapidamente se levantou, saiu resmungando pela lateral esquerda da igreja.
 
E eu olhava para ela, acompanhava seus passos rápidos e decididos com compaixão, embora não pudesse dar-lhe o auxílio. Fiquei pensando no quanto significaria para ela, naquele momento, um batom. Ela se chamaria Maria, Edite, Joana, Elisa? O que importa? Quem sabe estaria recomeçando a vida depois de um romance mal acabado. Ou, de coração partido, haveria de se mostrar forte. Quem sabe estava tentando começar a se respeitar, a se amar, se dar algum valor?
 
A mulher resolveu pedir para a pessoa errada. Infelizmente! Momento delicado para mim, com uma lista de compromissos imperiosa a me chamar.
 
Se eu pudesse lhe pedir desculpas... Ah! Como isso me faria bem! Se ela aceitasse, se compreendesse a minha situação naquele início dos anos 80! Desemprego, inflação, roubalheira para todo lado, além da desesperança. Não! Eu não poderia lhe dar aquele batom. Definitivamente não.
 
Maria, Edite, Joana ou Elisa... Não importa o seu suposto nome: me perdoe. Mulher como você eu sei o quanto é difícil se recompor de um coração esfrangalhado! Sei que é crucial a gente se arrumar, mostrar ao mundo, como um manifesto de vida, que não morremos, que estamos prontas para o amanhã e que esse amanhã pode ser mais ensolarado e de mar azul.
Que você tenha comprado vários batons, de várias tonalidades e marcas. Que o seu coração esteja inteiro. Que a aprendizado da dor lhe tenha feito mais mulher, saudável emocionalmente e com uma coragem retumbante.
 
Que você esteja linda, arrumada, radiante, exalando brilho e com um coração iluminado, cheio de bênçãos. E muito feliz. E cheia de graça.
 
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Publicado em 06/06/2014

Muito obrigada aos colegas pela gentileza dos comentários. Fico sempre muito feliz com a generosidade com que vocês conversam comigo.

Mas Marquinho, eu estou longe de ser uma pessoa iluminada e sou eu que tenho um imenso orgulho e satisfação de ser uma irmã para você. E você é sim um irmão que eu nunca tive. Um grande abraço.

Enviado por Vera Moratta - [email protected]
Publicado em 06/06/2014

Vera você é uma pessoa iluminada. Tenho o maior orgulho de considerá-la minha irmã. Pensar que até agora isto lhe atormenta. Todos temos nossos fantasmas na vida,irmã. Todos temos...

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - [email protected]
Publicado em 05/06/2014

As vezes nossos colegas de escrita relegam pra um plano secundário, a feitura de um texto, ao se apresentar fatos, aparentemente corriqueiros, porem com sentido direto ao enriquecer o que se pretende contar, com um pouco de lirismo. É o que, costumeiramente ocorre com nossa querida Vera. A poesia em torno do baton e a pedinte, se encerraria no momento da recusa, por vários motivos, do atendimento pela Vera ao pedido da moça. Mas ela, a nossa Moratta, teimozamente, com a sensibilidade que Deus lhe agraciou, entre-viu na lamúria da pedinte e na sua recusa, um momento a ser descrito, descarnado em pequenas porções, a estrutura do pedido dentro de uma igreja, especificando somente um baton.

Com relação a Catedral da Sé, o que guardo como uma das mais fortes lembranças, foi quando o Bob Kennedy, irmão do fatídico John, visitando São Paulo, foi a missa, num domingo ensolarado e eu, subindo as escadarias da Catedral e ele, descendo, nos encontramos e nos cumprimentanos, com um forte aperto de mãos, face a face. Depois de poucos dias, em campanhas por eleições ele, também, foi assassinado.

Parabéns pela preciosa escrita, querida Vera.

Laruccia

Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 05/06/2014

Vera, talvez para aquela senhora o batom fosse a coisa mais importante na vida dela mas nem sempre a gente pode atender a todos, o que vale é que você se desculpou, gesto nobre! parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - [email protected]
Publicado em 04/06/2014

A Catedral da Sé tem muito carisma mesmo, o ambiente nos faz elevar aos céus, ali foi palco das principais atividade pró democracia e cristã, boa lembrança,Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - [email protected]
Publicado em 04/06/2014

Gostaria de citar sobre a referência "marco zero" da cidade de São Paulo: onde realmente deveria estar situado esse padrão de referência, na Catedral da Sé ("sede" do poder eclesiástico de São Paulo) ou no Pátio do Colégio, onde iniciou-se todo o processo da cidade paulistana?

Enviado por Carlos Fatorelli - [email protected]
Publicado em 04/06/2014

Primeiro quero lhe falar que hoje em dia quase ninguém mais sabe o que é crisma até o batismo está sendo estinguido...A Catedral da Sé já foi um templo onde se podia entrar ajoelhar e conversar com Deus era o cartão postal da nossa cidade...hoje eu nem me atrevo a tentar chegar até ela... Mas aprendi uma coisa com minha mãe,da qual eu nunca mais esqueci.Ela dizia:obedeça seu coração quando alguém lhe pedir alguma coisa,sai do coração o aviso para dar ou não,e voce obedeceu seu coração mas as suas posses não permitiram...E se fosse hoje, voce daria com muita satisfação um baton a ela que ficaria feliz, e te faria muito mais feliz por isso...

Enviado por Walquiria - [email protected]
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