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Categoria - Personagens Caso do velhinho "sem noção" Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 08/04/2014
Desde menina aprendi a apreciar e respeitar os mais velhos. Foi através da convivência com a minha avó que passei a entrar nesse universo de imensa riqueza e saber refinado. Eu amava profundamente a minha avó. Foi um amor construído com alguma lentidão.
 
Eu admirava nos mais velhos a gentileza, a educação, o respeito para com os outros e para com as coisas da vida. Alguns falavam sobre as dificuldades da infância. Da saída do interior para uma São Paulo de ainda poucos automóveis. Outros relatavam algumas memórias da guerra. Dos tempos dos veículos movidos a gasogênio, das dificuldades em comprar o pão, o açúcar, a carne, as filas infinitas para se comprar um quilo de qualquer coisa. E sempre o trabalho exaustivo para que os filhos pudessem estudar. Isso é glorioso!
 
Com amor, eu via o tio Pedro, com o seu chapéu um tanto puído e as roupas desgastadas pelo tempo. Nunca o vi de mau humor e sempre disposto a jogar sua canastra. Impossível dizer o quanto aprendi com todos eles, mas a persistência para o trabalho, o distanciamento da preguiça, o respeito ao próximo, a valorização de tudo o que se tem, o cuidado com as palavras e com o sentimento alheio, tenho certeza, aprendi com eles.
 
Tive o privilégio de raramente conviver com alguma pessoa idosa de humor duvidoso, de pouco saber ou de angústia encravada nas retinas fatigadas. E aprendi também a dar-lhes atenção, a tentar compreender seus pensamentos, suas filosofias de vida, suas limitações, as saudades.
 
Certamente, é cada vez mais difícil se tornar idoso. Com a liquidez das relações, com o apego desmesurado à tecnologia pelas novas gerações, o deslumbre pelas coisas do mercado, os interesses mais imediatos acabam deixando a conversa, a empatia e o entendimento para depois. Pior: banalizando-se qualquer possibilidade de algum diálogo enriquecedor.
 
Dói na alma perceber de quem quer que seja um ar de desprezo ou mesmo de desatenção a quem tem uma longa história. A vida passa, inevitavelmente, pela história construída por eles.
E dói também – e muito – quando as decepções acontecem. Para mim é como se um velhinho não pudesse errar, dada a sabedoria acumulada ao longo de décadas.
 
E eu subia, a pé, a Rua Manoel Jacinto, na minha Vila Sônia. Rua íngreme e longa aquela e que muitos esperam pelo ônibus que, segundo vários antigos moradores , demora muito a passar.
No alto da rua, um senhor aparentando uns 80 e tantos anos, sentado num banquinho defronte uma casa para alugar. Ele era o vigilante do imóvel. Cansada pela subida, parei para conversar com ele por alguns minutos. Resolvi dar-lhe um pouco de atenção. Imaginei que não era nada cômoda aquela situação, sentado em um banco sem encosto, em um calor abrasador. Mas eu não percebi a malícia quando ele perguntou se eu era casada.
 
No dia seguinte, saindo da padaria, dei de cara com o velhinho. Sorri e disse que já estaria de volta para Florianópolis. Com um sorriso, disse um “até logo” ou coisa parecida. Eu jamais iria imaginar o que estava para vir: uma cantada muito da sem-vergonha e me pediu um beijo na boca.
 
De súbito, virei as costas sem dizer palavra e confesso que a minha raiva transbordou.
Eu nunca admiti galanteios vulgares! Principalmente porque não dou motivos. Eu somente havia lhe dado alguns minutos de atenção em uma conversa trivial. Também jamais admiti que alguém viesse, mesmo indiretamente, humilhar o meu marido que, aliás, é uma das mais íntegras e respeitáveis pessoas que eu conheço.
 
Posteriormente fiquei muito envergonhada da minha reação. Resolvi me vingar com categoria, em uma crueldade inimaginável. No dia seguinte, passei propositalmente defronte ao seu banquinho. Ele me chamou. Eu respondi:
- O Sr. conhece a Vera? Eu sou a irmã gêmea dela.
- É? Onde ela está?
- Eu não queria lhe dizer senhor, mas ontem ela chegou em casa muito contente.
- É?
- É que ela tem um hábito muito estranho. Ela adora matar velhinhos e ontem ela disse que escolheu um por aqui, nessa rua mesmo, e que iria entrar em ação hoje a tarde. Nós resolvemos interná-la de novo, porque ela já foi presa várias vezes por esses assassinatos...
 
Não sei por que, mas nunca mais vi o velhinho da Manoel Jacinto...
 
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Publicado em 14/04/2014

Vera Moratta a nova serial killer da Vila Sonia rs...rs...rs .Muito bom teu troco nesse velho sem vergonha , e a gente nem imagina como uma pessoa depois de uma vida inteira vivida talvez honestamente se torne um trampo . Tiro por exemplo o caso contado abaixo pelo Arthur Miranda nosso amigo , pois conheci o Sr Roberto Pascoa ele tinha uma metalurgica la no Braz donde eu nasci conheci toda a familia e nunca iria imaginar que ele antes de morrer chegaria a essa baixaria , realmente acredito em algum transtorno mental ,pois como digo ele sempre foi uma pessoa exemplar. Parabens pelo texto Abracos Felix

Enviado por João Felix - [email protected]
Publicado em 11/04/2014

A idade não cura a idiotice, às vezes só piora.

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - [email protected]
Publicado em 10/04/2014

Entender o comportamento humano é bem difícil e dar o troco com medida homeopática foi o melhor modo de agir! Parabéns.

Enviado por Carlos Fatorelli - [email protected]
Publicado em 09/04/2014

Vera, conheci um velho que vivia cantando as mocinhas lá em Campos do Jordão onde por 26 eu morei, Um dia eu soube que ele ofereceu, carona para minha filha mais nova que na época tinha 13 anos e uma colega dela da mesma idade, na saída, da escola onde elas estudavam, elas vendo aquele senhor bem vestido, aceitaram, e ele pelo trajeto veio cantando as meninas. Resolvi denunciar e na delegacia me informaram que já havia varias queixas de mulheres da cidade contara essa figura,dei queixa, e consegui o telefone da residencia dele em São Paulo, liguei fui educadamente atendido por uma mulher que apresentou como filha dele, que me disse que ele estava senil e em tratamento em um hospital especializado, Ele foi presidente do Corinthians Paulista, duas semanas depois faleceu chamava-se Roberto Pascoa. Essas coisas acontecem com idosos não é a primeira vez, conheci também alguns anos passados, uma senhora chamado Rosa que vivia pedindo para todo mundo para arranjar-lhe um namorado. Acredito que esse mesmo problema, foi vivido pelo seu desconhecido e conquistador velhinho. Parabéns pelo texto- Espero que o mesmo jamais aconteça comigo, ou seja de no futuro tornar-me um velho assim, e vir ser ameaçado de morte por alguma irmã gemeá de alguém. (risos). Tou Fora. Não tenho nada com isso. Mas tenho quase certeza que ele não era sem vergonha não.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - [email protected]
Publicado em 09/04/2014

É muito difícil,cumprir o ditado"Fazer o bem sem olhar a quem" eu vivo me policiando para não entrar em fria,pois tenho a mania de depois de ver por algum tempo o pedinte ou mendigo ou garotos nos faróis cumprimentar ou dar algo como bolachas,um lanche ou até mesmo dinheiro...depois de algum tempo as figuras ficam meia familiares a gente e é difícil não comprimentar ou dar algo...

Enviado por Walquiria - [email protected]
Publicado em 09/04/2014

KKKKKKKKKKKKKKK.

E Verinha, aposto que nem vai ver, depois dessa o velho tomou chá de sumiço.

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - [email protected]
Publicado em 08/04/2014

Vera! Que maldade! você quase matou o velho de susto! mas ele com certeza mereceu, parabéns pelo seu hilariante texto.

Enviado por Nelinho - [email protected]
Publicado em 08/04/2014

Quem diria Vera ter uma irmã Serial Killer. Vou colocar minhas barba de molho. Mas que nono sem vergonha Vera. Bem merecia um corretivo. Muito bom - risos - Forte abraço ...

Enviado por José Aureliano Oliveira - [email protected]
Publicado em 08/04/2014

Vera, como não rir desse acontecimento inesperado.Bem que ele merceia uma dura, aliás tem muito velhinho assanhado por aí assim como tem muitos senhores educados também, mas temos que ficar espertas sempre.Muito gostoso ler sei texto, um abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - [email protected]
Publicado em 08/04/2014

Mas que velhinho sem vergonha, Vera.

Realmente tem pessoas que não se enxergam.

Fez bem em amedrontar a criatura indecente.

Abraço

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - [email protected]
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