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Categoria - Outras histórias “Música ao longe” Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 24/01/2014
Humildemente, tomo emprestado o título do saudoso e espetacular Érico Veríssimo. Foi esse o escritor notável mais próximo da minha juventude, junto de Drummond, é claro. Tomei conhecimento e paixão pelo Érico, pelo seu humanismo refinado e raro senso de observação, graças ao meu tio Dante, nas suas visitas à nossa casa, no Cambuci, nos anos 70. Conversávamos muito sobre política, Guerra do Vietnã, Guerra Fria, Ditadura, coisas da vida e muita, muita literatura.
 
Muitos anos mais tarde, quase morri de inveja de uma colega: a mesma fora aluna do Érico na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Demonstrando uma infantilidade exagerada e fora de contexto, eu disse a ela:
- “Geni, se eu fosse você, contaria isso para todo mundo. Só para fazer desaforo”. 
 
E rimos no final, da minha tolice tão extravagante e inconsequente.
 
Permita-me, então, meu doce Érico, tomar emprestado o seu título dos anos 30.
 
Eu me refiro à sábia senhora de 460 anos. Uma aniversariante única, carregada de símbolos, graças, sonhos e sofrimento. Sim, São Paulo é uma senhora, de cabelos grisalhos e sem tingimento. Não tinge porque não tem vergonha do tempo. Antes: tem orgulho da sua história de vida, pelo acolhimento de milhares de migrantes e imigrantes, pelas inovações, pelas propostas de mudança que sacudiram o país inteiro... e tantas vezes.
 
Uma senhora que nem pensa em descansar na cadeira de balanço e não tem andador como protetor antiquedas. Simplesmente caminha. Com segurança e com passos firmes e decididos. Também não tem aparelho de surdez. Ela ouve muito bem e até se preocupa com os jovens que colocam no ouvido aquela coisa para só eles ouvirem as suas músicas. Esses, sim, ficarão surdos e não ouvirão os gritos das dores de parto, pois em São Paulo os nascimentos são doloridos. E aos montes acontecem nas ruas, nas ambulâncias, em casas de parteiras, nas casas das comadres.
 
Em São Paulo se nasce a todo instante. Sonhos nascem e morrem nas esquinas, nos sobrados geminados, no Trianon, nas periferias, na solidão dos jardins do Museu do Ipiranga. Retratos de sonhos e de interrogações se exibem às centenas no Museu da Imigração, com olhos puxados, outros de narizes achatados. Homens e mulheres de cabelos loiros ou nem tanto. Gente de todas as raças, crenças e desejos se retratam ali, nos seus medos, saudades e buscas.
 
Foi inebriante a primeira vez que ouvi “Trem das Onze” aqui em Florianópolis. A música ecoava em grandeza em uma unidade da Universidade Federal. Fiquei paralisada, com olhos marejados. Atônita e sem ação. Simplesmente fiquei.
 
À distância, eu ouço a cidade que pulsa incessante. Ouço e vibro diariamente. Seja pela voz do Adoniran, seja pelo silêncio das fotografias. Via internet, eu procuro o “Samba do Arnesto” e aproveito a me deleitar com as imagens do Brás. Contemplo a lata de panetone Di Cunto, estampando a imagem do fundador, Sr. Donato, engravatado, a se exibir triunfante na minha cristaleira. Lendo a Folha, me lembrando dos bairros adorados e de forte presença operária, estou em São Paulo.
 
Eu me orgulho por ter alma paulistana e sentimento “catarina”. E congratulo essa cidade única, imperdível, culturalmente inovadora e ativa.
 
Cidade singular nas suas madrugadas, no samba da vela, na pizzaria que teima eu queimar toneladas de lenha para produzir uma iguaria fina na sua poesia e história.
 
Cidade plural na produção do conhecimento, das criações artísticas, dos avanços da medicina, da acolhida de novas tendências na arquitetura, na moda, na gastronomia.
 
Estou em São Paulo a toda hora: lendo, escrevendo, fotografando, revivendo casos corriqueiros e extraordinários, vivendo, existindo.
 
Ou simplesmente respirando.
 
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Publicado em 27/01/2014

Vera, que forma linda de falar de São Paulo. Li varias vezes e coloco aqui um trecho que mais me chamou a atenção:"Em São Paulo se nasce a todo instante. Sonhos nascem e morrem nas esquinas, nos sobrados...".Sua inspiração foi abençoada, meus parabéns! Um abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - [email protected]
Publicado em 27/01/2014

Mesmo vivendo distante de São Paulo, vc Vera, encanta ao cumprimentar Sampa num gracioso e poético estilo, onde são mencionados nomes de destaques nas letras brasileira. Ao recorrer as metáforas chamando nossa cidade de "senhora". Lembrando Di Cunto, traz doces recordações, o Cambuci, Brás, Trianon, Ipiranga, ouvindo as músicas do Adoniran e saboreando as famosas pizzas de São Paulo.

Com sempre, uma textura enxuta e alegre, a mensagem de aniversário por excelência. Parabéns, querida Moratta.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 27/01/2014

Quanta coisa linda sobre São Paulo, acho que é por isso que mesmo estando morando fora de São Paulo ha trinta e sete anos, quando eu sonho sempre sonho que estou na casa que morei em São Paulo, ou seja meus sonhos apesar de serem atuais, acontecem todos em nossa capital, Será que existe explicação para isso? Parabéns Vera, lendo seu texto eu sonhei mais uma vez, mesmo acordado.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - [email protected]
Publicado em 25/01/2014

VERA,amiga amei todo o seu carinho por nossa SÂOPAULO,na verdade o que mais gostei e peço permissão para usar é quando voçe diz:EU me orgulho por ter alma paulistana; apartir de hoje aniversário de nossa cidade,não esquecerei,minha alma é paulistana,beijosssssssss.

Enviado por Luzia Helena Junqueira - [email protected]
Publicado em 24/01/2014

Vera, parece que lemos os mesmos autores.

Moramos no mesmo bairro.

Seu texto, além de bem escritos,trazem um "quê" de alma.

Gostaria de ir de vez em quando para S.Paulo tenho parentes lá mas o meu gato me prende e muito.

Mas ele é meu amigo verdadeiro, e eu não costumo abandonar os amigos.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - [email protected]
Publicado em 24/01/2014

Vera

Hoje assito ao vivo enchentes,saques em caminhões de cargas,sequestro,trânsito com mais de quinhentos kms de congestionamento,desabamentos de residencias,concentração para o "carna",contrução de estadio para a "maldita Copa" onde serão gastos nesse estadio mais de quatrocentos milhões aqui em Sampa,e não temos médicos no PSF em Parelheiros,etc,etc,ufa! estou cansado...............

Assim é São Paulo,como vc.descreveu-a,com tudo isso amamos-a.

Parabéns,Vera.

Enviado por Vilton Giglio - [email protected]
Publicado em 24/01/2014

É sempre bom termos crônicas enaltecendo a cidade de São Paulo e que seja mostrada em outros rincões do Brasil esta grandeza que assusta e ao mesmo tempo inebria. Parabéns!

Enviado por Carlos Fatorelli - [email protected]
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