Leia as Histórias

Categoria - Nossos bairros, nossas vidas Brincadeiras e jogos de nossas vidas ingênuas Autor(a): Carlos Fatorelli - Conheça esse autor
História publicada em 17/12/2013
Os jogos simples estavam presentes no dia a dia das atividades infantis aqui da cidade, fornecendo o prazer das relações pessoais entre companheiros que disputavam pelejas de certos jogos ingênuos, que fortaleciam a amizade, a relação de tolerância que nos acompanhou através do tempo e fortaleceu nossa identidade e pertencimento com o local.
 
Uma lata de óleo vazia, uma “penca” de meninos e meninas a se esconder daquele que ficasse na cela, onde ficava a lata, indo procurar cada um até se encontrarem todos, se livrando do encargo e passando o bastão, digo, a lata, ao primeiro encontrado, que era lançada bem longe para todos terem tempo de esconderem-se novamente.
 
Uma brincadeira que também era sem distinção para ambos os gêneros era o jogo das cinco pedrinhas, obstáculos a serem vencidos em chicanas. Escolhiam-se cinco pedregulhos de rio bem arredondadinhos e fazia o jogo de lançar uma pedra ao alto e pegar toda na sequência de uma a uma, de duas juntas, depois a do três, e, por último, a do quatro, ou seja, todas pegas de uma vez. Por vezes, pedia-se o capricho da vovó prendada que elaborava saquinhos pequenos de pano cheios de areia em substituição aos pedregulhos.
 
De repente, uma corda velha zunia segurada em ambas as extremidades, fazendo o “bendito” fogo, foguinho, com batidas vigorosas, as quais tínhamos que pular até cair de exaustão ou sair sem enroscar os pés na corda para não se espatifar no chão.
 
Um pião de madeira com um prego de aço afiada em um extremo, sendo do lado oposto uma cabeça saída do corpo de madeira onde se começava a enrolar a fieira, um cordão, também batizado de “cordonet”, que descia até a ponta e era envolto todo o corpo que lançado com a força merecida “zunia” como uma música, zumbindo com a velocidade de um satélite a girar em volta de seu próprio corpo. O pião caído ao chão era logo içado pelo “cordonet” e trazido para a palma da mão, onde “adormecia”, e deste modo exibíamos com deleite o troféu de nossa destreza.
 
Por vezes juntavam meia dúzia de garotos, fazendo um círculo na terra onde o compasso era a fieira, e que chamávamos de “cela”, algo que prendia, e cada qual rodopiava e mostrava toda habilidade do manejo, sendo necessário que o pião tocasse na cela e depois saisse do círculo, pois se isso não acontecesse o pião “morria”; e ficava a mercê das “ducadas” dos adversários, ou seja, o prego da ponta dos piões adversários penetrava na madeira daquele que não conseguia sair a tempo do círculo-cela. Às vezes, a fieira enganchava na ponta do prego e o pião saia para o alto quebrando alguma vidraça da vizinhança.
 
Parece que existia um tempo determinado para cada brincadeira e de repente os piões eram substituídos por bolinhas de vidro, comumente chamadas de “gude” e mudava-se todo o conceito da atividade. Fazia-se quatro cavidades na terra, buracos onde se encaixava a esfera, sendo três em linha reta e uma quarta “birosca ou box” deslocada para a direita ou esquerda das demais.
 
A disputa era iniciada após os competidores disputarem atrás de uma linha riscada no chão quem iniciaria a contenda, ou seja, escolhia uma das biroscas (buracos) e aquele que mais se aproximasse dela ou a acertasse começaria o jogo.
 
Assim, o jogo era iniciado e após três sequências acertando todas as biroscas começava-se a “arriscança” do competidor que mais rápido fez a sequência de acertos, uma espécie de caçada, e por fim era iniciada a matança de todos os adversários sagrando-se campeão aquele que conseguisse acertar (“matar”) todas as bolinhas de gude existentes no jogo.
 
Havia outra disputa que era feita também com as bolinhas de gude, na qual era traçado um triângulo onde se colocavam outras bolinhas de gude para serem miradas e alvejadas para fora do triângulo, não podendo o “franco atirador” ficar com sua bolinha de gude presa no triângulo, pois assim estaria eliminado do jogo e só aguardaria o adversário “rapelar”, ou seja, tirar todas as bolinhas do triângulo deixando-o vazio, ganhando, deste modo, o jogo.
 
Depois, apareciam no tempo dos ventos os papagaios, ou pipas, ou quadrados, vários nomes para uma mesma ação, geralmente na época de férias escolares, e cobriam os céus de um belo colorido, com rabos antes de pano velho e mais tarde apareceram as “rabiolas” feitas de filme de sacos plásticos. Todos compartilhavam um pedaço do céu e não havia cerol!
 
Três “rolimãs” velhas recolhidas em oficinas também podiam fornecer nossos carros de corrida desenfreada por descidas íngremes e “sem fim”, provocando algum hematoma que se curava rapidamente na próxima disputa.
 
Não tínhamos muita coisa, era quase nada, mas tínhamos tudo em nossa ingenuidade.
 
E-mail: c[email protected]
Localização da história
Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 18/12/2013

Ah! Agora entendi qual é a sua Fatorelli e matar a gente de saudades,né?

Voltei a ser criança lendo sua narrativa, valeu Abração.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - [email protected]
Publicado em 18/12/2013

É isso mesmo, Carlos, nossos divertimentos enchiam tempos de lazer, como vc afirma no final, "...mas tínhamos tudo em em nossa ingenuidade". Todas as brincadeiras eram disputadas dentro de restrito código de lisura, pela ingenuidade dos participantes, os jogos tinham sabor de conquista.

Por viver toda minha meninice e juventude num bairro urbanizado e com calçamento em todas as ruas, prescindamos de uma área com terra, onde substituíamos com outros jogos como, "palha-ou-chumbo", "mãe-da-rua", mas mesmo assim, sempre se "adaptava" para calçadas o que era destinado para terra.

Belas e sinceras recordações, Fatorelli, merecem estes jogos serem guardados em nossa memória pois, com o advento da eletrônica, a tendência é caírem no esquecimento.

Tenha um feliz e alegre Natal e um ano novo com todas as expectativas realizadas, Carlos, parabéns pela sua crônica.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 18/12/2013

Fatorelli meu amigo você descreve com brilhantismo as nossas brincadeiras e jamais esqueceremos algumas regras como:

Arrio volta pagão, Muda reta; tacada pára traz entrega o taco, Mudinha e muitas outras.

Como foi bom ser criança.

Enviado por Marcos Falcon - [email protected]
Publicado em 18/12/2013

Antigamente uma corda era um brinquedo, um pião, uma peteca.

Hoje as crianças não tem hematomas , não brincam ao ar livre o passatempo são os jogos eletrônicos.

Tempo bom era o nosso.Ah se era.

Boas festas.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - [email protected]
Publicado em 17/12/2013

Fatorelli, estas brincadeiras fizeram parte da minha vida, era tudo o que tínhamos e a rua era nosso principal cenário. Muito bom recordar o passado, um abraço e um feliz Natal.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - [email protected]
Publicado em 17/12/2013

Um verdadeiro manual das brincadeiras de outrora, vivida pelos cinquentões "no minimo"de plantão nesse site, que o netos podem aprender, boas lembranças ,Estan

Enviado por Estanislau Rybczynski - [email protected]
« Anterior 1 Próxima »