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Categoria - Paisagens e lugares Cine Sabesp e os cines de rua Autor(a): Luiz Simões Saidenberg - Conheça esse autor
História publicada em 05/12/2013

Só pode ser nostalgia. Mas, nostalgia boa, para mim, que frequentei tanto cine de rua. Lá estava ele, bem à vista, com seus cartazes, as portas abertas e a bilheteria quase sempre na rua mesmo, com suas filas. Depois, só subir as escadinhas e eis a sala de espera.

Em outros tempos, era uma recepção magnífica. Lembro-me do Marrocos com sua fonte “almudéjar”, da imponência do Ipiranga, das escadarias do Olido. Muitos detalhes me escapam; eu era jovem e mais ocupado com o filme em projeção, ou com a namorada ao lado.

Um dos que mais me marcaram foi o Santa Cecília, logo após a Praça Marechal. Recordava-me bem da recepção, com maciça mesa retangular de pés elefantinos e os paquidérmicos bancos laterais, dupla face como os dos jardins parisienses, com cabeças de elefantes entalhadas como descansa braços.

Lá dentro, demônios tailandeses nos recebiam em alas laterais, e seus olhos fosforescentes eram a última coisa a se apagar, no início das projeções. Ainda assim, prestando atenção, podia-se ver resquícios de brilho na abóbada, toda estrelada como uma enlouquecida noite de Van Gogh.

Mas tudo isto se foi, ou quase tudo. Até pouco, íamos ao ótimo Lumiére, na Rua Joaquim Floriano. Grandes filmes do grupo Playarte, simples, barato, antigo. Nem estacionamento pagava; era só parar em uma ruazinha próxima. Pois até este fechou, para nosso desgosto.

O que sobrou? O belo Majestic foi reaberto, mas não me animo a ir até lá, por causa do triste entorno. O mesmo em relação ao Olido. O Cinesesc resiste e muito bem, bons programas e bem amparado financeiramente. Como a Reserva Cultural, passando “La créme de la creme”, principalmente do cinema francês.

E o cineminha da Fradique Coutinho, que passou por várias fases, mas agora, adotado pela Sabesp, é bom como pão, simples como o Lumiére e com igualmente boa programação. Tende assim a perpetuar a tradição do bom cine de rua, contrapondo-se aos passadores de blockbusters, mega produções comerciais hollywoodianas. Grandes, cada vez maiores- e mais luxuosos- shoppings, onde até estacionar é um tormento. Cada vez mais numerosos e lotados, cada vez mais impessoais, cada vez inacessíveis.

Sempre que volto, como na juventude, ao humilde e honesto cine de rua. Ao se cerrarem as cortinas do espetáculo, saímos da escuridão à luz do dia, ao ar livre, ao cenário de pessoas reais passeando, ao fluir da humanidade.

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Publicado em 16/12/2013

Muito obrigado, amigos. E meu caro Grassi, realmente devia haver um belo tapete no Sta. Cecilia, para compor com a estupenda mobília elefantina. Quanto à Mansão Mormano, do outro lado, parece que tb era incrível, e da mesma familia dos proprietarios do Sta. Cecilia. Infelizmente, talvez muito focado no "Santa", quase não lembro nada dessa mansão. Abraços.

Enviado por Luiz Simões Saidenberg - [email protected]
Publicado em 10/12/2013

Caro LUIZ SAIDENBERG desculpe a minha imperdoável falha ao comentar a sua brilhante história e ter trocado o seu nome. DESCULPE A MINHA DISTRAÇÃO!!

Um grande abraço Grassi

Enviado por Roberto Grassi - [email protected]
Publicado em 09/12/2013

Crônica resistente nas suas recordações, Luiz falar daqueles cinemas, traz um misto de curiosidades e encantamento. Vc diz, no último parágrafo, que... "Ao cerrarem as cortinas do espetáculo, saímos da escuridão..." e eu, com sua permissão, emendo "...de pessoas singulares, complexas, diferentes, reagindo segundo o que o mundo impõe em suas vidas. Ótimas lembranças, Saidenberg, parabéns.

Laruccia

Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 06/12/2013

Muito bom, Luiz. Cinema com percepção, ruas e cenários verdadeiros. Eu também vivo nessa busca, fugindo das grandes produções, das multidões. Parabéns. Ótimo, como sempre. Um abraço.

Enviado por Vera Moratta - [email protected]
Publicado em 06/12/2013

Caro Miguel, gostei como você descreve nos mínimos detalhes as salas de projeção, principalmente do cine Santa Cecilia, que ficava na esquinas da Rua Conselheiro Brotero, onde algumas vezes, eu cheguei a frequentar. Só que eu não sou muito detalhista, porém, você me fez lembrar de alguns dos elefantinhos, se não estou enganado, logo na entrada, onde tinha um bonito tapete cobrindo todo o chão. Lembro-me também, de uma casa ao lado do cinema, que tinha um leão de pedra com um chafariz enfeitando o jardim. Bons tempos aqueles! Um grande abraço Grassi

Enviado por Roberto Grassi - [email protected]
Publicado em 05/12/2013

Cinema tema infinito, só quem viveu sabe o que o Luiz escreveu, que diferença da época de glamour para os de hoje em dia, saudades, parabéns, Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - [email protected]
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