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Categoria - Nossos bairros, nossas vidas Malas Autor(a): Luiz Carlos da Silva - Conheça esse autor
História publicada em 21/10/2013
E então quando nascemos a alegria é imensa entre nossos pais, pois lá estamos nós com nossos chorinhos manhosos apreciando papai e mamãe desarrumando a mala para retirar as primeiras roupinhas e tentar colocar na gente, sempre meio atrapalhados pela emoção de apertar aqui ou ajustar acolá. Pronto, já estamos banhados e prontos para irmos para os colos dos visitantes. A mala é abandonada em um canto qualquer e todos os focos são voltados para nossa carinha linda.
 
O tempo vai passando e mamãe resolve nos batizar em Aparecida do Norte e lá estamos nós novamente colocando a mala em cima da cama e delicadamente as roupinhas são colocadas e estamos prontos para partir. 
 
Na ida até a rodoviária, que ficava na Estação da Luz, no centro da cidade de São Paulo, as malas eram arrastadas pelas calçadas com muito esforço de papai e, após estarmos dentro do ônibus, as mesmas eram delicadamente colocadas pelo carregador no compartimento inferior do ônibus e lá permanecia até a chegada ao nosso destino.
 
A vida segue e até entrarmos para o curso primário foram várias as vezes em que presenciei as malas serem feitas e desfeitas por mamãe quando papai ia viajar e confesso que em algumas vezes ficava com o coração aflito e alma pequenininha, imaginando que talvez papai não voltasse mais e entre algumas lágrimas escutava o barulho do zíper fechar-se e eu corria para o quarto para não presenciar a partida que era muito doída. 
 
Mas sempre papai voltava e quando ele chegava eu fazia questão de arrastar a enorme mala pela casa e desfazê-la para ver se encontrava algum presentinho escondido lá no fundo, bem no fundo da mala, e meus olhos brilhavam de alegria quando eu os encontrava e aí corria e dava um abraço bem apertado em papai e abandonava a mala totalmente aberta na sala sob os olhares repreensivos de mamãe.
 
Nas férias escolares, mamãe anunciava que eu iria passar alguns dias na casa da minha avó Duvina e do avô João em Salesópolis, interior de São Paulo, e novamente fazíamos as malas com muita alegria e partíamos para pegar o trem para Mogi das Cruzes e depois um ônibus que deixava a gente em um bairro chamado "Terceira", onde encontrávamos com meu avô que estava nos esperando montado em um belo cavalo e ainda trazia mais dois cavalos para irmos até sua residência na roça.
 
Assim que descíamos do ônibus, a poeira fazia-se presente e entre abraços e beijos as malas eram colocadas em um "balaio" que estava sobre as costas do cavalo e seguíamos viagem até a roça e eu ficava encantado com a paisagem, o abrir e fechar de porteiras, lindos ipês de todas as cores e o cavalo andando vagarosamente e, às vezes, até parando quando encontrava algum pequeno córrego.
 
Nossa visita era aguardada por todo o povoado e assim que chegávamos à casa do meu avô os abraços de carinho e saudades eram indescritíveis. Entrávamos e lá na cozinha existia um belo fogão à lenha que constantemente ficava aceso para manter o café sempre quentinho e alguns pedaços de linguiças e torresmos repousavam em um varalzinho sob o fogão à lenha. Alguns estalos da lenha queimando, mamãe proseando com minha avó e outras vizinhas que vinham nos recepcionar e o barulho do zíper da mala abrindo-se e lá eu ia correndo pegar um velho “shorts” para ir jogar bola em um campinho que existia ao lado da casa da minha avó.
 
E novamente aquele aperto enorme no coração, era hora de voltar para casa e arrumar as malas e então eu pensava: "Acho que não deveria existir malas, pois assim não haveria a necessidade de partir!", mas depois refletia e chegava à conclusão que seria melhor que as mesmas realmente existissem, pois sem elas não seria possível a gente chegar ao nosso destino.
 
Até os dezessete anos de idade nossas malas ficaram repousando em um canto qualquer da casa e então decidi morar no interior e novamente solicitei a permissão de mamãe para arrumar as malas e morar no interior e ela um pouco triste concordou e, enquanto arrumava as minhas malas, via um olhar de apreensão no rosto e algumas lágrimas rolavam no rosto de mamãe e o barulho do zíper fechando-se e logo em seguida um abraço muito apertado em mamãe, no papai e nos meus irmãos e eu saindo com duas enormes malas para o meu destino.
 
Até hoje, quando arrumo as malas para viajar, recordo de vários momentos alegres e tristes. Quantas histórias! Quantas malas arrumadas e desarrumadas aconteceram ao longo desses meus 56 anos! Enquanto existir vida e existirem malas, meus sonhos ficam repousando em um canto da memória e em breve as mesmas serão feitas e poderei esboçar mais um sorriso de felicidade sob o encantador barulho do zíper fechando-se e eu escutando: - Pronto, já estou feita, podemos partir?
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Publicado em 25/10/2013

A mala é sempre uma mala, mas eu, pessoalmente prefiro a mala, que um mala.

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - [email protected]
Publicado em 21/10/2013

Luiz, eu particularmente adoro fazer e desfazer as malas, sinal do movimento da minha vida, quer coisa melhor! Um abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - [email protected]
Publicado em 21/10/2013

Que linda história!

Realmente tem coisas que nos marcam pra sempre.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - [email protected]
Publicado em 21/10/2013

Uma linda e repousante crônica bem elaborada por vc, Lucasi. Realmente as viagens tem essa magia emocional, como poucas ocorrências se equiparam. Gostei dessa narrativa, Luiz, parabéns.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 21/10/2013

Lucasi, Hoje quando abri a Mala, ops digo o Site, e me deparei com esse texto fiquei boa parte do dia pensando nessa sua historia gostosa sobre o abrir e o fechar de malas, que sempre indicam uma chegada ou a partida de alguém, e quantas vezes passamos por isso. Adorei o texto parabéns.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - [email protected]
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