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Categoria - Outras histórias Um príncipe na Mooca Autor(a): Modesto Laruccia - Conheça esse autor
História publicada em 22/10/2013
Em uma recaída saudosa de recordações e ocorrências e passando pela Av. Presidente Wilson, na Mooca, bairro irmão do Braz e adjacências, lembrei-me de fatos que, na época, não dei a importância devida, mesmo porque não era muito apropriada a menção desses fatos em qualquer redação ou menção em papos de esquinas. As ocorrências no continente africano com a queda de reinados existentes há vários séculos...
 
Pelos jornais e revistas aqui em São Paulo, pode-se sentir a enorme diferença nas publicações entre aquela época (1940\ 1950\ 1960) e atual, a recorrência de termos que, outrora, por tabus ou receios da opinião pública, não havia abuso. Simplesmente o redator recorria a um sinônimo ou eufemisticamente mencionava em um texto qualquer, rebuscava toda a sequência da crônica a fim de fugir da palavra correta, mas ofensiva aos leitores alheios a esta “ousadia”.
 
Com a permissão dos amigos leitores, vou recorrer ao tempo verbal presente o que pretendo contar. Todos os nomes citados são fictícios, por motivos óbvios e para que eu tenha um pouco mais de liberdade.
 
Pois bem, por volta dos anos da década de 1950, na eminência de casar, trabalho em uma empresa de embalagens, Shellmar, empresa americana que está localizada na Rua Pres. Batista Pereira, travessa da Av. Presidente Wilson, entre a Mooca e a Vila Prudente, conhecida como “ilha do sapo”, na função de desenhista. 
 
Como vizinhos, temos uma indústria relativamente nova, a Kibon, fabricante e distribuidora de picolés, popularizando a venda em carrinhos, como fazem atualmente os ambulantes de guloseimas destinadas às crianças.
 
Temos, também, a Lorenzetti, Arno, Cia Antarctica e outras empresas de porte, todas localizadas em uma São Paulo em franco progresso, agasalhando iniciativas de porte, como essa grande metrópole exige.
 
Na Shellmar, no setor de desenho, somos três funcionários, com a grande artista Anna, alemã que relata a nós as atrocidades sofridas na Alemanha, perseguida que foi por ser judia. Muito simpática, mas enérgica nas atividades correlatas, como chefe da seção. O setor de gravação de cilindros tem como chefe o gravador suíço Sr. Henri, altamente técnico, favorecido pelo empirismo, adquiridos em seu país.
 
O ambiente é sempre bem amistoso, há bons papos e boas situações irônicas, como o que aconteceu com um porteiro, Benedito, alto, quase dois metros de altura, mas de uma simpatia quase infantil, tanto é sua inexperiência dos fatos da vida atual. Um dia, passo por ele e noto que está com uma lâmina apontando o que parecia ser um lápis. Ele me pergunta: “Seu Mudesto, meu lápis num escreve mais, acabou a ponta e não encontro mais o grafite, por mais que tento cortar essa madeira tão dura... o senhor pode ver se consegue?”
 
Logo vi que o que ele tem em mãos é a recém-lançada caneta esferográfica Bic, sem gozação, conto a ele e ele fica admirado.
 
Um dia desses, soubemos que foi contratado mais um gravador, de nome Waldemar Costa, moço de uns 27 ou 28 anos, afro-brasileiro.
 
Fomos apresentados, o Waldemar é muito simpático, educado tem, nas palavras proferidas, algo que foge um pouco do português comum. Exprime bem termos poucos usuais, delicada e corretamente, sem fugir de uma conversa sobre qualquer assunto. É elegante nos gestos, nobre nas atitudes, de uma bondade sem igual, sempre pronto a servir quem dele precisasse.
 
Como fanático leitor de contos policiais e de mistério, minhas eternas suspeitas de haver algo de, não errado, mas diferente nos dias que seguem, vou a fundo. Converso com Waldemar e ele se abre comigo:
 
“Modesto, não sou brasileiro, sou africano, meu nome, Waldemar, é o que recebi na pia batismal da igreja católica da Mooca, onde moro. Meu nome é Faissal, sou um... príncipe, descendo de família imperial. Meu pai, preso pelo rei Farouk, está sendo julgado por posse indevida do protetorado de sua responsabilidade.
 
Meu tio, irmão do meu pai, foi fuzilado, perdemos nossos bens e fugimos, eu e minha mãe viemos para o Brasil. Minha mãe, não resistiu à separação, faleceu algum tempo atrás. Estou sozinho aqui, aprendi a gravação graças a minha mãe que gozava de boas amizades, não quis ser mais muçulmana, para mudar meu nome fui batizado com o nome cristão, Waldemar.”
 
Poucos meses ele trabalhou na empresa, saiu e nunca mais soube dele.
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Publicado em 25/10/2013

Caro Modesto estou tendo um pouco de dificuldade na leitura dos textos, porque a letra do site e meio transparente. Com a idade a vista começa falhar. De qualquer forma, muito bom o seu relato. Sua vivência nos trás fatos interessantes, acontecimentos especiais de pessoas que conviveram no trabalho, como o Faissal ou Waldemar um príncipe africano. Como sempre, amigo Modesto, você é um mestre na narrativa. Um abraço Grassi

Enviado por Roberto Grassi - [email protected]
Publicado em 25/10/2013

As nuances que ocorreram nas empresas dariam muitas histórias engraçadas, por exemplo, comparando a da esferográfica citada houve certa feita um caso numa empresa em que uma pessoa “muda” persuadiu o vigia a entrar na empresa e requerer algum dinheiro para sua deficiência. Entrou na fábrica e apresentando um papel onde explicava ser “mudo” e muitos colaboravam. Quando o “mudo” saiu na portaria ele não viu o porteiro e então contava o dinheiro arrecadado em voz alta. O “mudo” era falso e então proibiram, a partir de então, a entrada sem se apresentar na recepção e dizer o motivo da “visita”!!!Parabéns pela crônica.

Enviado por Carlos Fatorelli - [email protected]
Publicado em 25/10/2013

Grande amigo Modesto. Texto aprovado e publicado.

Por onde andará nosso príncipe?

Enviado por Marcos Falcon - [email protected]
Publicado em 24/10/2013

Meu querido,imagino o quanto que este principe se camuflou para poder ser livre...

Minha filha ministrava aulas no maternal em um colégio de Alphaville,onde estudavam filhos de famosos como o Gugú,Carlos Alberto de Nóbrega etc...e eles também estudavam camuflados por ordem da direção.Ninguém podia comentar quem eles eram, para que eles pudessem pelo menos até os 4 anos ser igual a todos as outras crianças,até eles mesmos terem entendimento de quem eram.

Enviado por Walquiria Rocha Machado - [email protected]
Publicado em 23/10/2013

Um texto que prova que todo principe tem seu dia de mendigo, ou quase todos, depende da politica interna desses paises imperialista sem tradição, sem poder bélico,mas quem foi principe nunca perde o principado e a Moóca conheceu um, bem contada como sempre pelo Modesto, parabéns, Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - [email protected]
Publicado em 23/10/2013

A vida é inusitada mesmo. Um príncipe que encontrou outro príncipe. Para mim você é um príncipe.

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - [email protected]
Publicado em 23/10/2013

Modesto muito interessante esta cronica ! quem iria imaginar que tivemos um Principe na nossa cidade ! pelo menos e o que ele dizia não e mesmo ? Mas porque razão ele iria inventar , realmente naquela epoca a America do Sul em paises como Brasil , Argentina por serem paise populosos eram os escolhidos sempre para refugiados de guerra ou regimes autoritarios como por exemplo os do regime nazista , que ate pouco tempo foram cassados por todos os cantos.Me lembro coincidentemente daquela zona donde estas industrias estavam localizadas e justamente na Shellmar .que ficava na Presidente Batista Pereira 199 trabalhava um primo meu , que voce deveria conhecer o Valter Stanzik , gente boa e sempre que passava naquela area parava para tomar um cafe com ele no bar da esquina.Me encantou tambem a simplicidade do Benedito apontando a caneta esferografica .Muito bom texto relembrando mais uma vez o passado não tão distante . Parabens Modesto .Abracos Felix

Enviado por João Felix - [email protected]
Publicado em 22/10/2013

Parabéns Modesto, merecida lembranças e amizades ai do querido Waldemar. O cara quando tira pra ser bom, sai de baixo!!!Valeu.

Enviado por Carijó (apelido no futebol) - [email protected]
Publicado em 22/10/2013

Meu querido Modesto, essa crônica interessante eu já havia lido no Memórias de Sampa e tinha gostado muito. Simplesmente genial, como é da sua natureza, escrever sobre situações inusitadas, inteligentes e oportunas. Parabéns, meu amigo. Bom demais. Receba o meu abraço.

Enviado por Vera Moratta - [email protected]
Publicado em 22/10/2013

coitado do principe, esse eo O VERDADEIRO, PRINCIPE MENDIGO,

Enviado por João Cláudio Capasso - [email protected]
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