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Categoria - Paisagens e lugares Vila Prudente - O progresso Autor(a): Sergio Liblik - Conheça esse autor
História publicada em 18/10/2013

A Vila foi, desde os primórdios do século 20, uma região de grande progresso.

Creditava-se isto ao fato de ter uma localização impar quanto aos acessos e meios de transporte e por se ter tornado um centro de fixação de imigrantes.

Italianos, espanhóis, lituanos, letos, estonianos, alemães e russos se mesclavam entre os fins da Av. Paes de Barros, nas colinas da Vila Zelina, Vila Ema e altos da Rua do Orfanato, na baixada da Rua Amparo e Maria Daffré, indo até a bordejar o Tamanduateí, na divisa com São Caetano do Sul.

Dizia-se que a vila era muito bem localizada, que além das inúmeras indústrias localizadas no bairro, como Cerâmica Zappi, Indústria de Papel e Papelão Búfalo, Chocolates Falchi, com a família Piacentini, com seus estojos e acessórios de beleza Piace, inúmeras pequenas metalúrgicas, gráficas e muitas mais empresas familiares, que proporcionavam possibilidade de trabalho. Havia ainda a privilegiada proximidade com a Estação Ipiranga da São Paulo “Railway”, que disponibilizava o trem no principal corredor de fábricas e negócios de São Paulo da época, indo das Indústrias Matarazzo em São Caetano do Sul, passando pelo conglomerado do Ipiranga, com suas metalúrgicas e indústrias de papel das famílias Jafet e Racy, seguindo pela Mooca, onde a Antártica fabricava suas bebidas e os Crespi e outros imigrantes já tinham suas tecelagens, o Braz, com vocação comercial, a Estação da Luz, centro de acesso a São Paulo de então, e chegando na Lapa, onde distintas indústrias Matarazzo, entre inúmeras outras, se localizavam.

Havia uma estratégica empresa de ônibus, a Companhia Transportadora Paulista, que unia a Mooca à Vila Zelina, passando pela Vila Prudente.

Saindo da Mooca, da esquina da Olímpio Portugal com a Av. Paes de Barros, os simpáticos e potentes “International Diesel” seguiam pela avenida, serpenteando “qual camundongos cinzentos”, que era a cor da empresa, tolhidos pela estreita faixa de paralelepípedos, nas proximidades da Mooca e em seguida, no chão batido na direção do alto da Mooca, passavam pela caixa d'água, despencavam morro abaixo pelo Parque da Mooca, até atingir, após algumas quebradas, o largo de Vila Prudente, na época nominada de Praça Jequitahy, seguiam então pela Ibitirama até a Av. Zelina por onde corcoveavam morro acima até, finalmente, resfolegar no largo de Vila Zelina, onde recebiam água fresca para refrigério dos motores.

O ponto inicial na Mooca não distava muito do centro de recepção e triagem de imigrantes, o que permitia aos imigrantes que eram recebidos no centro de hospedagem, localizado pelas bandas da Visconde de Parnaíba, na procura de um trabalho ou local para morar, se dirigissem para a Vila Prudente.

Por sua vez, o bonde, o famoso 32, saia da Vila pela Capela Pacheco Chaves, atingia a Rua dos Patriotas e aí girava para a direita na Silva Bueno, seguia avante até a Rua dos Sorocabanos.

Seguia per aí até atingir a Rua Bom Pastor, onde no meio de uma pequena descida, que era o tradicional horror dos motorneiros e ao mesmo tempo era o passatempo dos desocupados garotos da época, que tinham como diversão, na calada das noites de chuva, jogar óleo nos trilhos, o que fazia com que o apavorado motorneiro do bonde tivesse que soltar areia sobre os trilhos lisos, para permitir a freagem assim impedindo que o bonde não desembestasse ladeira abaixo, mesmo assim era comum o descarrilamento de bondes na área.

Após o sufoco, o bonde passava em frente ao monumento do Ipiranga e dobrava à direita pela Av. D. Pedro I.

Aí era o êxtase pleno dos jovens. A longa reta permitia o bonde deslanchar e era onde os motorneiros costumavam tirar o atraso nos horários. Aquele bonde aberto, e velocidade, oito (máxima), o vento lambendo as faces, a emoção de se ficar em pé nos estribos, os cabelos tremendo, impedidos de esvoaçar pela “Brilhantina ou Gumex”, as gravatas como bandeiras num frenesi bailando impelidas pelo vento sobre os obrigatórios paletós.

As moçoilas desfrutando, discretas, o prazer de mostrar os tornozelos, devido ao vento atrevido que teimava em tremular as saias.

O bom dura pouco, pois que logo, após os curtos momentos de indômita alegria, se atingia a esquina da Rua da Independência, onde, quando chovia, um alagamento paralisava os bondes em longa espera, até as águas baixarem.

Seguia-se em ligeira rampa, até o Largo do Cambuci, após o qual, a mesma rua, agora rebatizada de Rua do Lavapés. Seguia-se então um maçante e interminável ziguezaguear, até que por mais uma vez a rua é resacramentada com novo nome, passando a ser a Rua da Glória por onde seguia o valente 32 até aflorar nos fundos da Catedral Metropolitana de São Paulo, na época em construção, onde se localizava o ponto final.

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Publicado em 19/10/2013

Belíssima e formosa narrativa enaltecendo o simpático e progressista bairro da Vila Prudente. Parágrafos bem distribuídos, com detalhes sobre seu contínuo desenvolvimento. Parabéns, Liblik.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 18/10/2013

Gostei muito de voltar ao passado nessa sua viagem pelo tempo e pelos lugares.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - [email protected]
Publicado em 18/10/2013

Sérgio, que viagem maravilhosa você me proporcionou. Muito agradecida mesmo. Um tempo que, infelizmente, não conheci. Parabéns pelo magnífico relato. Um grande abraço.

Enviado por Vera Moratta - [email protected]
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