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Categoria - Personagens A posse do Vieira Autor(a): Roberto Grassi - Conheça esse autor
História publicada em 24/10/2013

O barbeiro Luigi Ruggiero da Rua Venâncio Aires, número 217, entre um corte e outro de cabelo, costumava ir até a porta da barbearia e olhar por cima dos óculos de aro de tartaruga ao longo dos dois lados da rua, como se estivesse a procura do Francisco Carmenieri para fazer o costumeiro jogo do bicho no chalé do Giussepe Metello. Tinha acabado de receber o jornal o Correio Paulistano e, na terceira página de dentro do caderno de esportes, trazia impresso o resultado do jogo do bicho do dia anterior.

Memorável dia, na primeira página do jornal, no alto da folha, no canto esquerdo, trazia o título, em letras garrafais, a nomeação do Doutor Tribúrcio Vieira para o cargo de desembargador da Justiça Federal. O Luigi Ruggiero estava emocionado, porque tinha conhecido aquele cidadão quando ainda criança e a mãe costumava mandá-lo para cortar o cabelo na forma americana, ou seja, a cabeça toda raspada, deixando apenas um tufo de cabelo na parte da frente, como se fosse um pequeno topete.

Aquilo era verdadeiramente um fato singular, notório mesmo, por sua expressão social, para ser efetivamente comemorado. Nesse dia memorável, diante dos fregueses assustados, o Luigi usava da navalha como se fosse espada. Ele estava emocionado, porque tinha conhecido o Vieira molequinho ainda, de calça curta, quando brincava com outros moleques da rua de frente ao cimentado da calçada da barbearia na Rua Venâncio Aires, na Vila Pompeia. O sapateiro Sebastião da Silva, um nordestino de Alagoas, vizinho do número 217, também estava compartilhando festivamente com aquele episódio da nomeação do Doutor Vieira, porque fora seu inquilino na sapataria “O Solado de Couro”, no porão do sobradinho da Rua Venâncio Aires, de propriedade do futuro desembargador federal. Ele tinha consertado muita sola de sapato da família.

Aquela noite era toda de gala, inesquecível, até memorável mesmo. Em casa, depois de cortar o cabelo na barbearia do Luigi Ruggiero, agora já vestido para a cerimônia de posse, perfilou-se diante do espelho do banheiro, perfumou-se todo, ajeitou os punhos da manga da camisa de linho branco de colarinho alto, fechou as abotoaduras douradas que tinha ganhado da Filomena no seu aniversário, guardou dentro do bolso superior do paletó a carteira de dinheiro, o maço de cigarros na lateral da frente do bolso interno do paletó, ajeitou o relógio de corrente dourada com enfeites de berloques que saia do colete, uma lembrança preciosa do avô italiano; sacudiu a casaca, colocou o lenço bordado de quatro pontas no bolsinho na lapela do paletó e seguiu balançando levemente o corpo para a sala de visita, onde o aguardava a mulher Filomena, sua dedicada esposa.

Antes de sair para a cerimônia de posse, leu a correspondência sobre a mesinha na antessala do escritório. Quando terminou a leitura, o Vieira pegou um calhamaço de processos que tinha levado para casa no dia anterior, para estudá-los, folheou rapidamente os papéis, garatujou algumas notas nos rodapés dos processos com um lápis preto, e pousando tudo de lado, começou a tomar o cafezinho, ao mesmo tempo em que olhava para a manchete da primeira página do jornal “O Correio Paulistano” e viu o seu nome impresso no canto esquerdo, no topo da primeira página: “O doutor Tribúrcio de Castro Vieira será empossado no cargo de desembargador no Supremo Tribunal Federal da região de São Paulo”.

- “Apresse-se Filó. Já são 8h da noite e temos que estar lá às 9h em ponto.”

Deixará a mulher no limiar da porta do quarto do casal, entusiasmada com a companhia do estojo da maquiagem que tinha ganhado da Sandra Maria Albuquerque Fortunato esposa do amigo do marido, o José Agripino Fortunato. Aquilo era uma maravilha. Várias tonalidades de cores, que viera diretamente de Paris, quando o casal por lá esteve, em passeio pela Europa. Na parede havia também um quadro com a figura de Santo Antonio di Padova, com “Gesù bambino”, que a avó trouxe da Itália e tinha lhe dado de presente de casamento.

O Tribúrcio Vieira ajeitou sobre o casaco azul-marinho a peça da roupa negra de origem etrusca, o manto de linho, o traje dos antigos romanos, a tradicional toga. Estava perfeito para a cerimônia de posse como o mais novo desembargador. Naquele momento recordou com orgulho de seu tempo de estudante na escola pública no bairro de Vila Pompeia. Menino ainda, inspirado na figura do primogênito, o Doutor Nicanor de Castro Vieira, neto de Dona Clementina, mãe de sua mãe, o filho mais velho da Rosinha, irmã mais nova da mãe que, na época, já era desembargador aposentado, resolveu estudar direito, para quando fosse mais velho seguir os passos do primo.

No salão nobre para onde se dirigiu no Tribunal Federal, atrás da mesa da cerimônia, havia a figura histórica de Têmis, a esfinge grega da divindade pagã como deusa da justiça e das leis, empunhando uma balança como equilíbrio, segurando a espada com os olhos vendados, guardiã das leis e da justiça. O Doutor Tribúrcio Vieira já havia demonstrado as suas qualidades de magistrado de primeira instância pelas suas qualidades, pela retidão de conduta, integridade de caráter e de sua ilibada honestidade pessoal. Havia na sua personalidade um sentimento de equidade, da verdade e da igualdade imparcial na avaliação embasada na moral, na ética da verdade, invocados na justiça.

Os seus princípios de probidade administrativa e jurídica, a boa fé sempre encontraram abrigo na própria essência do seu comportamento humano. Fora uma ótima escolha pelos seus pares, os arcanos juízes federais, ao indicá-lo como desembargador. Depois das formalidades, dos discursos de praxe, da aprovação dos pares da justiça, recebeu das mãos dos superiores o título representativo, nosso nobre desembargador Tribúrcio Castro Vieira. Que felicidade! Havia já percorrido metade do caminho para quem sabe, um dia, pelas suas excepcionais qualidades de homem público, ser reconhecido pelo Presidente da República e ser escolhido para o Supremo Tribunal Federal.

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Publicado em 25/10/2013

Grassi, como é bom conhecer alguém criança e depois saber que foi bem sucedido. Aconteceu com amigos meus do tempo da escola, uma sentimento bom acaba nos envolvendo.Ótimo seu texto.Um abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - [email protected]
Publicado em 25/10/2013

Grassi, interessante essa lembrança, homenagem a alguem que se conheceu criança e depois ver essa pessoa escalar os mais altos e importantes postos na sociedade, deve acontecer com muitas crianças, o dificil é lembrar o nome depois de tantos anos e ainda mais a coincidencia de ler um jornal e ver a noticia, parabéns pelo texto, Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - [email protected]
Publicado em 25/10/2013

Grassi, pena que hoje no Brasil, a Têmis não seja tão cega, a balança não tão equilibrada, e ela esteja um pouquinho preguiçosa e distante do povo.

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - [email protected]
Publicado em 24/10/2013

Minuciosamente detalhada, essa lembrança, estabelecendo sua data na década de 1940\50, pela menção do jornal "Correio Paulistano", é um documento generoso, onde, merecidamente são rasgados elogios a figura impoluta do dr. Tribúrcio Castro Vieira.

A facilidade que tens em dominar nosso idioma, Grassi, nos enche de orgulho ao constatarmos, que todos são incluídos como seus parceiros em busca de novas emoções. Os conceitos emitidos ao dr. Vieira, são preciosos e raros termos que, hoje em dia, dificilmente vamos encontrar alguém, com méritos para tal. Parabéns, Grassi, vc merece.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
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