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Categoria - Personagens Um dia na praia com Karen Autor(a): Roberto Grassi - Conheça esse autor
História publicada em 17/10/2013
1959. A poucos passos da Avenida Paulista, esquina com a Avenida Angélica, dir-se-ia que, no conjunto da fachada circular do prédio, se assemelhava a uma rotatória com uma escada coberta por um toldo de lona multicolorido onde ficava a entrada principal pela Avenida Angélica. No alto na caliça da porta de entrada havia um anuncio luminoso em vermelho neon desbotado: a placa dizia: “Boate A Tasca”. A figura do desenho era de um saxofone multifacetado colorido de azul e branco e os contornos do corpo de uma mulher segurando um drink no alto da escada em neon verde, parecia esboçar desenhos fugazes que se juntava com a decoração interna do ambiente.
 
O salão era estreito no início, depois, alongava-se em formas análogas cujos lados angulares retos possuíam dois altos vidros redondos na janela com diversos e variados efeitos de luzes que davam para a Avenida Paulista. Havia mesas de laca escuras com enfeites dourados no topo do encosto, refletindo a luz mortiça de brilho tênue, de cor azulada prata vinda dos cantos do teto. Era ali que em certas ocasiões especiais, de preferência aos sábados, costumava-nos reunir a turminha do Oliveira, da Zélia, do Modesto, a Ulisséia (Uli), o Ismael, a Karen, do João, da Ana Virtz, o Arno Virtz, a Denise, a Muriel e eu.
 
Oh! Que incomparáveis noites de sábados! De onde tinham vindo todos aqueles jovens? Estava ali entre nós a Karen, filha de um importante diretor deutsch (alemão) da parte administrativa e financeira do Conselho Curador e Fiscal da diretoria da Volkswagen; da simpática e alegre Muriel Joe Adms Donald, uma inglesinha agradável, filha de um dos gerentes da inglesa “Cia Deltc” distribuidora de títulos que, durante os anos do governo do presidente Juscelino Kubitschek, a “Deltec Banking” era a maior organização subscritora de valores e títulos e desempenhava no Brasil um importante papel na distribuição e comercialização das ações da Volkswagen, da Mercedes Benz, Scania; era também, diretor presidente da Johnson Controls do Brasil dos acumuladores Heliar.
 
A ânsia de desfrutá-los impelia-me de tal maneira, que frequentemente me munia de uma pequena quantia de dinheiro e costumava degustar uns amanteigados queijinhos cheirando a erva do campo que a Karen costumava trazer. Acho que eram quitutes do artesanato da cozinha alemã, porque a Karen costumava trazer alguns em uma bandeja de alumínio prateada e se servia sem cerimônia.
– Onde os tem comprado, Karen?
– Numa casa de doces, na Rua Augusta!
– Trazes-me alguns? – Aqui está o dinheiro! – disse-lhe.
 
Ela pareceu ofendida. Onde já se viu cobrar por aqueles maravilhosos queijinhos amanteigados?
– Não senhor! Recuso-me aceitar o dinheiro.
 
E costumava trazer-me embrulhados em uma bandejinha colorida envolta em papel celofane, meia dúzia daquela iguaria. E a Ulisséia (Uli) costumava também trazer um delicioso panetone diferente, caseiro, úmido, receita alemã, confeccionado pela mãe. Nós, os rapazes, só entravamos com a boca. Assim decorriam os sábados. Passavam-se outros e os meses também se sucediam até o ano terminar. Certa ocasião, depois das festas de fim de ano, convidei a Karen para um passeio até o litoral sul, nas praias de Santos. Meu espírito engolfava-se inteiramente naquele passeio.
– Vamos até a enseada na praia das vacas.
– Onde fica? – perguntou-me.
– Depois da Ponte Pencíl, em São Vicente, em uma pequena estradinha de terra batida. - O lugar é sossegado, perfeito para um piquenique domingueiro.
 
Como já fazia algum tempo que lá estive, a floresta de arbustos que cercava a praia me pareceu de folhagem mais nova, mais verde; por toda a parte, cheirava a terra úmida misturada com o cheiro peculiar da maresia. Até dos lodaçais, surgiam talos e flores de vários matizes. Um tanto aturdidos, fizemos um longo caminho, sentamos a descansar em uma pedra, debaixo de uma árvore de amoreira com um leve formigamento nas faces por causa do calor do sol. Sacudi a roupa salpicada de picão preto e aventuramo-nos pelo caminho onde tudo me parece conhecido de tempos passados. E a envolvente calmaria da praia, próprio sussurro suave que em vez de perturbar realça os detalhes da paisagem. São 10h30 daquela luminosa manhã de janeiro; não sei se o sol ou o desejo me enganaram; durante quase um pequeno intervalo no tempo andamos em direção do oeste, e devo estar meia hora de diferença, relativamente ao relógio do sol, porque não tinha relógio de pulso. De mãos dadas com a Karen, caminhamos por uma trilha da mata antes de atingirmos a orla da praia.
 
A passo lento apraz-nos ouvir o murmúrio quase vivo das folhas secas dispersas pelo chão e o estalar que produzem sobre os nossos pés. Ao atingirmos um barranco, vejo na baixada entre uma pedra e outra a nesga visão do mar azul esverdeado. Tínhamos levado conosco o Theo, um belo animal de estimação da Karen. Quando chegamos ao fim da trilha, precedidos pelo Theo, o qual, como se soubesse quando para nós era importante não perdermos tempo, me estimulava os passos, passando a minha frente, ofegante, e voltando atrás com a língua de fora e abanando o rabo. Quando chegamos à orla do bosquezinho, lá estava deserto. Talvez seja presunção minha acreditar que possuo o dom especial de ler na alma dos outros, mas, às vezes, sem que isto queira dizer que me suponho uma inteligência excepcional, percebo, no entanto, com clareza o pensamento alheio.
 
Foi o que aconteceu com a Karen. Quando tive a infelicidade de derrubar e quebrar um copo de refrigerante, percebi que ela me olhava com ar de reprovação. É que não possuíamos outro copo e com certeza aquele faria falta para bebermos água da nascente que se esparramava pelo barranco. O copo servia de coletor, sem o qual dificultaria pegarmos a água na nascente. Tivemos que fazer das mãos em conchinha para bebermos.
- Não precisa desculpar-se que o diga logo se vê, o seu ato desastrado.
 
Talvez residisse na morna luminosidade do dia a razão do meu bem-estar, mas é forçoso confessar que Karen me era extremamente agradável e que a curva graciosa das suas sobrancelhas se me afigurava singularmente perfeita. Como nada tinha para oferecer, propus-me assar um pedaço de carne de frango que tinha trazido de casa e que comeríamos à maneira dos caçadores, servindo-nos apenas com os dedos, o que provocou muitos gracejos. No entanto, a Karen rompeu em risos e disse com mortificante ironia.
- Estamos parecendo dois selvagens.
 
Um vago e crescente descontentamento incomodava-me desde que ouvira o riso irônico de Karen. Mas o incidente foi logo contornado pela beleza do lugar. De lá, avistávamos os contornos da orla da praia de São Vicente, um pedaço do mar e os tirantes de sustentação da Ponte Pencíl e, ao fundo, os cimos levemente azulados e transparentes da serra do mar. Enquanto comíamos, Theo ia se instalar no seu canto favorito, perto de uma pedra, enquanto eu me sentava ao lado da Karen. À tarde, pusemo-nos a caminhar pela trilha, observando a paisagem, ouvindo atentamente os mil murmúrios dos pássaros em uma tranquilidade balsâmica.
 
Por uma brusca noção do tempo, tão fugitivo, durante algumas horas, caminhamos por caminhos cheios de pedrinhas que me feriam os pés porque eu estava descalço. Depois de caminhar por atalhos quase na penumbra da noite que se aproximava, levantamos nosso acampamento e pegamos os pertences e pusemo-nos de volta para São Vicente.
 
O sol já desapareceu há pouco, deixando no confim ocidental manchas vermelhas e profundas, como azeite. O céu durante um momento brilhou límpido, até que, com maravilhosa nitidez, as estrelas começaram a viver. Várias vezes, os nossos olhares cruzaram-se e eu senti como se uma suave caricia, precursora da primavera, me envolvesse. Talvez residisse na morna luminosidade do dia a razão do meu bem-estar, mas é forçoso confessar que Karen me era extremamente linda.
 
A noite chegou. Estava agora na hora de voltarmos para São Paulo. E o ronco do motor do automóvel em movimento se pós a caminho de volta para São Paulo, depois daquele maravilhoso dia na praia com Karen.
 

 

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Publicado em 19/10/2013

Um misto de poesia e prosa tão bem estruturado, riquíssimo em detalhes inteligentemente introduzidos na maravilhosa narrativa sobre um belo passeio. Grassi, o Modesto mencionado não era eu, em 1959 já estava casado, com 27 anos. Mas conheci bem a Praia das Vacas, estive lá com meu compadre Jorge pra apanhar ostras nas pedras. Hoje é ocupada pelo exercito.

Gostei de seu passeio e os detalhamentos e descrições que vc faz de tudo. A leitura de um texto seu, tem dupla atração: a história em si e a composição de tudo que vc apresenta, esmiuçando detalhadamente. Parabéns, Roberto, vc merece.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 17/10/2013

Grassi, gostei muito do seu texto. Simpático demais. Consegui viajar um pouco no tempo com você. Um abraço

Enviado por Vera Moratta - [email protected]
Publicado em 17/10/2013

Bela lembrança,e bem relatada, Grassi. Não era a Garota de Ipanema, nem Teresa da Praia, mas assim mesmo foi um passeio praiano maravilhoso. Abraços.

Enviado por Luiz Simões Saidenberg - [email protected]
Publicado em 17/10/2013

Que história emocionante!

Gostei muito.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - [email protected]
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