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Categoria - Outras histórias A construção Autor(a): Roberto Grassi - Conheça esse autor
História publicada em 15/10/2013

Tia Assumpta teve um sentimento de alegria quando soube que o filho havia comprado um apartamento no Sumaré. E para tranquilidade da família, quando naquela época quase  todas as pessoas ainda andava de bonde, por isso mesmo, comprar um imóvel, naquela altura do campeonato era uma façanha digna de nota. Um apartamento! O Nicolau enfiou a cabeça no travesseiro e dormiu tranquilo sonhando com aquela aquisição. Em tempo oportuno, iria comunicar a Mônica sua noiva, que muito breve podiam oficializar o noivado e mais um pouco de tempo, anunciar o casamento.

O corretor havia garantido que em 30 meses o obra estaria completada. Olhou confiante para a mãe, fez um gesto de assentimento, uma aprovação, um sentimento de responsabilidade quando ela lhe perguntou quanto havia custado tal empreendimento.

- “Dei uma pequena entrada de sete mil cruzeiros, divididos em três parcelas iguais. O restante pagarei conforme o andamento da obra. A construtora garantiu o prazo de entrega 30 meses, a contar da data da aquisição.”

- “Mas meu filho lá só tem a planura do terreno! – Você tem certeza que eles vão cumprir a construção no prazo estipulado?”

- “Claro mamãe! Eu estou animado e a Mônica também! Mas era preciso ter paciência. Quando a obra começar a subir, primeiro o estaqueamento, depois as colunas de sustentação de cimento armado, depois o fechamento dos andares com a alvenaria, o apastilhamento nos quatro lados das paredes externas e finalmente o acabamento externo e interno e pronto!”

- “Como você sabe de tudo isso, meu filho?”

- “O corretor me afirmou, mostrando um traçado da planta do prédio.”

- “Quantos andares tem o empreendimento?”

- “17 andares no bloco dos fundos e dez andares no bloco da frente. Ao todo, 27 andares.”

- “Puxa como é enorme esse prédio! Você consultou o Minervino, o tio de confiança pela sua experiência e vivência na companhia de Seguros Sul América?”

- “Não é preciso mamãe! Está tudo claro. Dentro de 30 meses poderei anunciar o meu casamento com a Mônica. Até lá já terei pagado toda a obra. Além do mais, o bairro é um dos melhores da cidade, próximo de tudo, a um quilometro da famosa Avenida Paulista e da Rua da Consolação. O comércio não é dos melhores, porém, existem duas padarias, um mercadinho, uma tinturaria, uma pequena casa de materiais de construção e uma farmácia da Drogasil. – Como vê, estamos relativamente bem servidos pelo comércio. – Além de tudo, estamos próximos da televisão do canal 4 Tupi e da Rádio Difusora.”

A mãe deu de ombros, desconfiada, como se adivinhasse do empreendimento. Coração de mãe dificilmente se engana, porém, não disse nada, para não desagradar o filho. A noiva se encarregou de espalhar a notícia à noite. Foi um impacto só. O cunhado dela, casado com a irmã mais velha era um esfomeado, um roto, um pé rapado e estava ardendo de inveja. Tinha casado recentemente e pagava aluguel num imóvel no meio das enchentes na várzea do Glicério.

No domingo seguinte, encontrou a irmã na casa da mãe. Tinha vindo filar a bóia do almoço. Mônica estava com um espelhinho rapando a penugenzinha que lhe unia a sobrancelhas e estava arrancando com a pinça o escasso bigodinho. A eterna pergunta:

- “E as obras, como estão? Vocês já foram visitar a construção? Ouvi o Nicácio dizer que esteve por lá durante a semana e não viu nada além dos tapumes de madeira, algumas bandeirolas multicoloridas no topo do pilar esvoaçando ao vento. Ninguém estava trabalhando lá.”

 Mônica ficou irritada com a bisbilhotice da irmã, mandando o marido checar as obras. Aquilo era um atraso de vida, uma secagem, com certeza um olhar gordo, uma inveja. Perdeu a paciência.

- “O Nicácio não tem o que fazer? Ele não trabalha? O que ele tem a ver com isso?”

- “O problema é de meu noivo! Se as obras estão sendo feitas só a ele diz respeito. Vocês não têm nada a ver com a história. Você está ficando maluca, Débora!”

Efetivamente, as obras não estavam andando. Durante uma noite, a mesa, o noivo estava desconsolado. Ouvira dizer que tinha caído num engodo, numa cilada, numa farsa. Outros condôminos que também tinham adquirido uma fração ideal do terreno estavam na construtora pleiteando uma satisfação por parte do engenheiro responsável. A explicação é que não tinham dinheiro suficiente para dar início as obras. Precisavam de um ajuste de 25% por causa dos insumos e da inflação que estava corroendo o orçamento. Afinal aquilo era um empreendimento por preço de custo. Conforme ia entrando o dinheiro, as obras seriam tocadas. Agora restava o único trabalho que tinha a realizar, era fazer parte da comissão eleita de quatro membros condôminos e fiscalizar todos os dias a construção para que não sumisse o material que era propositalmente desviado para outros prédios da mesma construtora.

Dona Assumpta estava mexendo na cozinha quando o filho gritou do corredor:

- “Mamãe, mamãe, venha ver! Estas plantas são da construção. Tenho esta daqui que é de todo o prédio; esta outra é da minha unidade. O engenheiro me deu, para que eu pudesse acompanhar a execução das obras. Este aqui, também, é o cronograma da colocação dos elementos dos encanamentos horizontais e verticais dos apartamentos e do edifício todo. Logo abaixo, também, o da colocação dos caixilhos e dos vitrôs dos apartamentos. – Como à senhora vê, estamos quase no termino da obra. Afinal são sete anos de espera da construção.”

 – “Agora só está faltando a compra dos elevadores do bloco do fundo e do bloco da frente. No total são quatro.  Uma fortuna! Os quatro foram orçados pela OTIS em um milhão de cruzeiros. Vamos vender os 12 apartamentos da massa para arrecadar o dinheiro. Vai ficar faltando dinheiro, mas vamos fazer outra chamada extra de cinco prestações.”

Finalmente as chaves foram entregues. Totalmente pago. Vou avisar a Mônica da data de nosso casamento.

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Publicado em 17/10/2013

Grassi, que sofrimento! Passei também um sufoco na compra do nosso primeiro apartamento. Como doi, né? Um abraço.

Enviado por Vera Moratta - [email protected]
Publicado em 16/10/2013

Grassi, que paciencia , que susto, voce me fez lembrar dos consorcios na época de inflação na década de 80, quando chegou numa época a 3% ao dia, fiz um e era um tal de acrescentar taxas e mais taxas que a mensalidade combinada ficou quase o dobro da inicial, parabéns,Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - [email protected]
Publicado em 16/10/2013

Casos como esse eram corriqueiros em Sào Paulo naquela epoca e os reajustes constantes , mas aida bem que ao fim dos sete anos o sonho se realizou . Parabens pelo texto.Abracos Felix

Enviado por João Felix - [email protected]
Publicado em 16/10/2013

Grassi, comprar apartamento na planta fica mais barato, mas corremos risco. Ainda bem que este saiu depois de tanto esforço, tempo e dinheiro. Um abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - [email protected]
Publicado em 15/10/2013

Que susto, Grassi, pensei que o cunhado, Nicácio estaria gozando o Nicolau pela "rasteira" que ele teria levado da construtora. Demorou mas, saiu. Simpática narrativa, Grassi, parabéns.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
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