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Categoria - Personagens A morte anunciada Autor(a): Samuel de Leonardo - Conheça esse autor
História publicada em 22/10/2013

Órfão desde muito cedo, Lupicínio foi criado pelos tios que moravam em frente ao cemitério numa pequena cidade do interior de Minas. Desde criança nutria um encanto mórbido por velórios, frequentemente, comparecia a todos, conhecesse ou não o falecido. Seus tutores nunca deram importância ao comportamento do menino.

Ao invés de jogar bola, empinar pipa ou rodar peão, como à época faziam outros meninos da sua idade, preferia acompanhar as cerimônias desde o início até a consumação do sepultamento. Tornou-se um rapaz de pouca conversa, cresceu sem nunca ter amigos na concepção da palavra e muito menos uma namorada.

A vida no seu modorrento mundinho se resumia à escola, trabalho, casa e velórios. Não perdia uma oportunidade em que houvesse algum defunto sendo velado, comparecia sempre trajando vestimentas pretas, demonstrando respeito ao morto e aos familiares. Não importava se o falecido era jovem ou idoso, chegava, cumprimentava a todos e permanecia o tempo possível velando o corpo.

Adulto, prestou concurso e ingressou no serviço público, transferindo-se então para a capital paulista, fixando residência em um pequeno apartamento na Rua da Consolação, defronte ao cemitério de mesmo nome, onde pela janela do quarto tinha ampla visão de todo o campo santo.

Mantinha o mesmo hábito, porém como cidade grande oferece mais ofertas, Lupicínio diariamente consultava a seção de anúncios fúnebres dos jornais para escolher em qual velório passaria as noites de terças, quintas e sábados. Nas datas em vigília voltava para casa ainda ao amanhecer, dormia um pouco e depois seguia para a repartição, sem antes consultar os jornais e recortar os anúncios.

Em função da sua estranha atividade, pode conhecer os principais cemitérios da cidade. Desde a sua chegada a São Paulo não quebrava a programação da agenda, exceto nos dias de finados, uma vez que desde criança nessa data preferia permanecer em casa.

Apesar da mórbida mania, levava uma vida discreta, aparentava ser uma pessoa normal e nunca teve problemas no trabalho e nem com a vizinhança. No escritório esquiva-se de convites para encontros, festas e outras atividades sociais. No edifício onde morava nunca recebeu uma visita sequer. Sua rotina não se alterava, casa, trabalho, velórios e assim durante anos, até que num determinado dia redige um anúncio fúnebre comunicando a própria morte e o publica em todos os jornais da cidade:

“Lamentamos comunicar o passamento do Senhor Lupicínio Eustáquio, aos 63 anos, ocorrido hoje, sábado, nesta capital. O corpo está sendo velado na Capela do Cemitério da Consolação”.

Na noite, na qual anunciara o seu próprio velório, comparece como sempre comparecera, desta vez trajando um terno novo para a ocasião. Chegou cedo à capela, antes do anoitecer, onde apenas duas senhoras idosas estavam de saída, todavia não tinha nenhuma movimentação que indicasse um evento daquela natureza.

Acomodou-se no último banco do recinto vazio. Permaneceu sentado, imóvel, concentrado em seus pensamentos, onde o único movimento eram suas reminiscências:

- “dedicara parte de sua vida em tantas cerimônias, prestigiando as mais diversas personalidades sem distinção e nesta noite não compareceu um ser sequer para render-lhe homenagens. Vivera só toda a sua vida. Agora, como nunca fizera antes, reflete sobre a própria existência e percebe então que nunca teve um amigo para compartilhar as alegrias, as frustrações e as angústias, nunca soube o verdadeiro significado da palavra cumplicidade. Prometeu a si mesmo uma mudança e que a partir de amanhã viveria outra vida.”

A noite conquista o espaço, rapidamente, em toda a sua plenitude. As luzes artificiais se apagam permitindo que as trevas dominem todo o ambiente.

O domingo amanhece chuvoso e a capela recebe o primeiro visitante que se depara estupefato com um corpo de um homem estendido sobre o último banco, inerte, gelado.

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Publicado em 22/10/2013

Samuel, muito intensa a sua narrativa. Apesar da temática triste, um grande texto. Meus parabéns.

Enviado por Vera Moratta - [email protected]
Publicado em 22/10/2013

Amém...

Enviado por Asciudeme Joubert - [email protected]
Publicado em 22/10/2013

Samuel, conheço essa história como piada, não posso contar por respeito a vc e aos demais leitores. Se isso ocorreu, de fato, (acredito pois, vc está contando), nunca ouvi a história de uma pessoa ter essa mania. Agora, se for ficção, é um conto bem bolado. Qualquer que seja a intenção, gostei muito, brilhante conto de mistério. Parabéns,

de Leonardo.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 22/10/2013

Um conto digno de louvores.

Li com atenção como a um conto de Machado de Assis.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - [email protected]com
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