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Categoria - Outras histórias Invencionices protestantes Autor(a): Alexandre Pereira Alves - Conheça esse autor
História publicada em 23/09/2013

Muito tem se falado sobre os cartazes, faixas e palavras de ordem que circulam em meio aos protestos que tomaram as ruas das cidades em todo o país, a espontaneidade e o caráter viral dos manifestos estimularam a criatividade popular que pouco atenta-se às normas cultas da língua, padrões por muitas vezes castradores e excludentes que sempre nos sugere um debate a respeito do dinamismo linguístico.

No movimento Diretas Já! Eu tinha apenas quatro anos de idade, mas me recordo de ver pela TV uma multidão de gente gritando alguma coisa, no Fora Collor! Estava com 13 anos e meus pais acharam que eu ainda era muito novo para pintar a cara e sair às ruas pedindo o impeachment do então presidente, agora já barbado e com mais de 30 anos me juntei à multidão para lutar por um país melhor o que de fato é possível apesar de todas as suas mazelas.

Na cidade onde moro, Taboão da Serra, uma das manifestações reuniu cerca de cinco mil pessoas que interditaram a rodovia Régis Bittencourt, importante ligação entre São Paulo e o Sul do país. Em meio ao “anda-para-pula-senta-grita” pude recolher algumas frases que revelam o perfil dos manifestantes, bem como de suas reclamações.

Uma pauta reincidente era a tarifa abusiva do transporte coletivo da cidade, uma das mais caras no país, para circular dentro do município com pouco mais de 20km² o passageiro desembolsa R$ 3, da crítica bem-humorada "Meu cartaz tá amassado porque o busão tava lotado", passando pela apologia às drogas "Olha que vergonha o busão tá mais caro que a maconha" e até mesmo pelo rebate ecoado por jovens contrários ao uso da erva "Que patifaria o busão tá mais caro que a coxinha", o transporte público era a força motriz do movimento. Quando o cansaço parecia cercar a passeata, a euforia adolescente buscou animar os manifestantes gritando: "Quem não pula quer tarifa", criando um momento micareta que foi embalado por "Quem apoia pisca a luz", pedido de apoio aos moradores dos prédios marginais à rodovia.

Reclamações de escala nacional também chegaram às terras “taboanenses”, como a PEC 37 - Projeto de Emenda Constituição de autoria do Deputado Lourival Mendes PT do B/ MA que retira o poder de investigação do Ministério Público - a frase escrita em um cartaz era: "Cala boca piriguete diga não a PEC 37", não sei a "piriguete" (risos). Não sabia a quem procurar, mesmo porque não sei qual a forma correta de escrever, periguete ou piriguete, a Academia ainda não registrou o termo, mas o rapaz que sustentava o “cartazete” não soube me explicar o que era PEC 37, fato contraditório à palavra de ordem que fora repetida a exaustão "Ei, você, manifesto não é rolê" tentativa de conferir ao evento um ar, digamos, sério.

O Governo e seus investimentos bilionários nos campeonatos mundiais de futebol não saíram ilesos em meio ao protesto uníssono "... educação, saúde e trabalho" e até mesmo a soberana Fifa foi lembrada "Fifa paga minha tarifa". Ações truculentas da polícia em outras partes do país foram lembradas com irreverência "Spray de pimenta no olho de baiano é refresco" e com orgulho "Que coincidência não teve polícia e nem violência", poucos eram os policiais no local. Sabendo da possibilidade de atos vândalos, entre muitos havia um cartaz emblemático "Se algo der errado não me levem para o Antena", uma crítica ao precário sistema de saúde da cidade e alusivo ao posto de saúde mais midiático da região e convém explicar que sua exposição nos veículos de notícia não são em virtude de excelência em atendimento.

Depois de tanto “anda-para-pula-senta-grita”, como dizem, bateu a "larica" aí o melhor cartaz para ilustrar o sentimento dos manifestantes era "Mãe, prepara a comida porque mudar o Brasil da fome". Diferente da Praça Tahrir, no Egito, onde o povo tomou um poema por hino e o cantavam a plenos pulmões: "Oh, Egito, está perto", em Taboão da Serra não se sabia ao certo o quê, muito menos se estava perto, mas a população enviou seu recado, um pouco desconexo, ao governo que mesmo após ser achincalhado permanece em silêncio, fato que tem provocado a população a qual já conclamou a todos para um novo protesto. Parece-me que um grupo pequeno, mas bastante coeso, sabe aonde quer chegar.

Esperamos a concretização do lema de campanha do atual prefeito "Dias melhores virão", assim acreditamos.

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Publicado em 24/09/2013

Alexandre, os dias melhores so virao no dia em que o povo deixar de eleger farsantes e maus politicos, parabens pelo texto.

Enviado por Nelinho - [email protected]
Publicado em 24/09/2013

É isso mesmo, Alexandre, as passeatas, pelo menos pra mim, não sairão dos esquema preparatório, onde políticas e políticos "administram" tão bem que tudo vai terminar no local em que começou: num bar. Sua descrição é sempre bem apresentada, bem concatenado com o tema e não despreza nenhum detalhe, até os humorísticos assentados de forma a se fazer valer na compreensão. Parabéns, Pereira.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 24/09/2013

Alexandre, Acho que todos nós estamos a muitos anos esperando por dias melhores, eu já estou esperando desde que o Jânio Quadros ganhou e renunciou a presidência. Parabéns pela narrativa.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - [email protected]
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