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Categoria - Personagens O cartão do Drummond Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 21/10/2013
Desde a juventude, eu passei a ler Carlos Drummond de Andrade. Influenciada por uma prima, a Cidinha, o mineiro de Itabira foi abrindo a minha alma amorosamente e com um leve silêncio para as coisas do mundo. Confesso que, muitas vezes, me senti confabulando com ele, buscando alguma lógica para a arte de viver. Eu era assídua leitora das suas crônicas e o acompanhava também nas suas colunas no Jornal do Brasil. Foi, para mim, um guia cultural, com sentimentos sempre aflorados, deixando a vida viver exuberante, muitas vezes em meio a tormentas.
 
Muito deixei de tomar sorvetes para guardar dinheiro para ir até a Livraria Brasiliense, no Centro, para comprar algum livro novo. Também andei muito a pé com o mesmo propósito. Quando comprei “Reunião” foi o auge da satisfação. Fiz essa brilhante aquisição na antiga Livraria do Povo, na Praça João Mendes. Foi um presente para a minha mãe e até hoje, desgastado e com as folhas até ralas, ele, imponente e singular, se apresenta na estante da sala.
 
Suas reflexões aprofundadas sobre a condição dos cidadãos comuns na época da II Guerra me provocaram empatia gigantesca com aqueles nossos iguais. A sua brilhante “Carta a Stalingrado” me apontou alguma certeza de vitória da vida sobre a morte, quando “A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais”, mas a esperança havia de rebrotar, pois “Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres, a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem”.
 
Drummond foi o meu companheiro necessário, fiel na distância, mesmo nunca sabendo de mim. Foi um homem eterno na caminhada. Na minha estada também.
 
Outras pessoas muito importantes também me ajudaram na formação do caráter, a me tornar sensível, presente, no mundo, tentando apontar algumas alternativas para as barbaridades do cotidiano. Uma delas ainda respira comigo suas inquietações, seus sonhos e projetos. Neusa Barbosa, amiga de quase quatro décadas. Certa feita, ela, então estudante de jornalismo da USP, e outros colegas, me convidou para escrever um livro de poesia. Aceitei de pronto, embora escrever poesia não seja a minha grande paixão. Fui escrevendo movida a vinho licoroso de São Roque. Uma produção coletiva, independente, bancada por nós e trataríamos de vender a nossa grande obra: “Ferramenta de poeta”. Algumas reuniões foram feitas em um boteco em Pinheiros, alguns debates... E pronto: o livro saiu.
 
Eu não me contive. Providencie rapidamente o endereço do Drummond, fui ao correio e, junto de uma pequena carta, o livro foi enviado.
 
Dias depois, eu visitava o meu pai, mais uma vez internado no Hospital Oswaldo Cruz. A minha irmã, garota ainda, ao telefone, querendo notícias frescas do pai. Disse que estava melhorando um pouco, etc. e tal.
 
E ela continuou:
- Chegou “prá” você uma carta lá do Rio.
- Do Rio?
- É.
- Lê o remetente.
- Só está escrito “Andrade” e o endereço.
 
Foi o maior vexame! Eu, no corredor daquele hospital, me pus a gritar e a pular como uma criança em dia de festa surpresa. Eu me transformara em uma síntese de uma pessoa desvairada em plena Pauliceia. Enfermeiras passavam com as suas bandejas repletas de injeções e cápsulas, me olhando, com olhar de susto e interrogação... E eu gritando.
 
Cheguei em casa, abri com cuidado extremo o envelope que veio do Rio.
 
Eis o conteúdo do manuscrito:
 
Vera: comigo “Ferramenta de poeta” e a carta que o acompanhou. Obrigado pela conversa com um mais velho que também já sentia as inquietações e alegrias do começo. O grupo jovem de vocês desperta muitas esperanças. E é lindo o trabalho de conjunto que preserva as fisionomias individuais. Um abraço e votos de plena realização, de Carlos Drummond de Andrade.
 
No dia seguinte, a caravana dos amigos até a minha casa para que todos lessem, pegassem o cartão, passassem os dedos sobre aquela assinatura.
 
Quando, sete anos mais tarde, o poeta maior veio a falecer, chorei copiosamente debruçada sobre a mesa do quarto do meu filho que estava prestes a nascer. Nunca senti tão dolorosa e profundamente o questionamento: “E agora, José?”
 
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Publicado em 25/10/2013

Vera você foi contemplada pelo Drummond de Andrade com um cartão manuscrito por ele, poeta e pessoa ilustre de nossas letras. Parabéns! Mais uma vez, como sempre, um bom texto redigido por você.

Abraço Grassi

Enviado por Roberto Grassi - [email protected]
Publicado em 25/10/2013

Vera, você mereceu este carinho do grande Drummond. Ele não morreu, gente como ele fica encantada no tempo, vira estrela no Céu.

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - [email protected]
Publicado em 22/10/2013

Gostei da narrative, Vera. Você, precocemente, era fã do grande poeta. E teve sua reconpensa, neste histórico bilhete resposta.

E agora, José? Uma inesquecível lembrança para toda a vida. Abraços.

Enviado por Luiz Simões Saidenberg - [email protected]
Publicado em 22/10/2013

Muito bem ! Abração.

Enviado por Asciudeme Joubert - [email protected]
Publicado em 21/10/2013

Vera querida, que momento maravilhoso na sua vida. Meus parabéns pela sua produção e agora.....muito sucesso neste caminhar.Um grande beijo.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - [email protected]
Publicado em 21/10/2013

Ai Vera,estou emocionada com seu texto!

Sendo você sensível como é com certeza teve o poeta como grande amigo.

E sempre terá...

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - [email protected]
Publicado em 21/10/2013

Pois é Vera! Houve um Drummond no meio do caminho, no meio do caminho houve um Drummond. Não me pergunte por que, pois não saberia responder ao questionamento e, nem me chamo José tá?

Parabéns pelo emocionante texto.

Enviado por Miguel S. G. Chammas - [email protected]
Publicado em 21/10/2013

Vera querida, não lamente a morte do grande poeta, ele deixou (não sei se vc percebeu)uma discípula extraordinária, que hoje nos embala com tantas narrativas lindas e apaixonadas: VOCÊ. Parabéns, Verinha.

Laruccia

Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 21/10/2013

Que acontecimento maravilhoso Vera, te invejo, Parabéns

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - [email protected]
Publicado em 21/10/2013

Vera, comentar o que ?, depois do mestre Drummond, confirmou o que já sabíamos, parabéns pela escrita, pelos poemas e só digo,E agora Vera?, só sucesso...Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - [email protected]
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