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Categoria - Personagens O Mário Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 14/10/2013
Confesso que foi meio casual a minha entrada como aluna num curso de terapias naturais. Início de 1984 e eu querendo continuar crescendo, fazendo vida nova, buscando outros saberes. Numa conversa com um colega, numa reunião nos tempos de plantonista numa entidade de prevenção do suicídio, ele me falou de um curso de massagem que tinha feito. Colega simpático, educado, o Renato, mas jamais voltei a saber notícias suas. Desejo que a vida lhe tenha sido amorosa, acolhedora. Você era uma pessoa fina.
 
Eu estava com um ano de casada e resolvi me matricular no curso de massoterapia chinesa numa escola tradicional em Pinheiros. Coisa complicada: recém-casada, dinheiro contado, o apartamento nem estava pronto e muito menos quitado e morando num cubículo na Vila Sônia. Mas eu tinha um pavor único, monumental e indecifrável de me transformar numa pessoa menor depois de casada. Eu via, ainda naquela época, muitas mulheres definhando intelectualmente após o casamento. Eu me pelava de medo de ficar igual e então eu não fazia bolo, não copiava receita e corria com a determinação de um atleta de São Silvestre de qualquer programa ou conversa sobre culinária. Medo do atraso. Isso mesmo. Nem olhava para batedeira de bolo, para as baixelas e outros presentes que havia ganho tal o pavor de virar uma pacata dona de casa, como uma rosa de Hiroshima, sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada.
 
Acabei levando quase 30 anos para descobrir o quão bom é preparar uma comida, um strogonoff ou mesmo um simples pão de banana. Eu compreendi que fazer comida é mágico porque agrega pessoas, a boa conversa brota espontaneamente e nada tem a ver com uma suposta “rosa de Hiroshima”.
 
Em Pinheiros, a rua era elegantíssima. De fronte à escola, uma igreja que eu entrava todas as manhãs antes das aulas. Lugar de uma paz muito especial, deixando o ruído do trânsito lá fora, na Faria Lima, com os seus poluentes corrosivos e as pessoas sendo arrastadas pelos seus relógios de todas as marcas e modelos. Ali era lugar de uma tranquilidade visceral. Igreja sempre vazia, esperando ouvidos limpos, sem cera, para ouvir um pouco da profundeza do Eterno.
 
Ali eu conheci o Mário. Um japonês ímpar na educação e no bom trato. Sabia muito e eu, nada. Eu nunca tinha ouvido falar em canais energéticos, seus aspectos emocionais, o ato de se produzir algum tipo de patologia e passei a estudar como nunca. Ciência e filosofia tão próximas a entrar na nossa carne, nas vísceras, na alma.
 
Mas o Mário até cuidava de mim. Era um senhor que, antes, havia sobrevivido graças ao conserto de relógios e nunca perdera as tradições culturais.
 
O seu rosto era uma síntese do bairro da Liberdade. Uma história de vida construída em São Paulo com o após-guerra e tinha tudo misturado na alma e na maneira de ser: esforço, educação, singeleza, leitura, disposição para o trabalho e estudo, muito estudo.
 
Foi com ele que aprendi que cada pessoa é exclusivamente responsável pela sua vida. Até então eu jamais ouvira falar disso. Eu sofria demais com o estado constantemente debilitado do meu pai. Numa aula prática, o senhor japonês passou a mão pelo meu rosto, analisou a minha pele e disse que eu sofria muito.
 
Instantaneamente eu falei do meu pai.
 
Ele apenas retrucou:
 
– “Mas o sofrimento é dele e não seu”.
 
No momento fiquei chocada, mas o tempo me mostrou que, realmente, cada um é responsável pelos seus sentimentos, pela sua vida e pensamentos.
 
Eu nunca mais soube do Mário. Um dos melhores companheiros de estudo que tive, que soube ensinar de uma forma despretensiosa, humildemente espalhando sabedoria numa fala bem articulada, mansa e objetiva.
 
Foi ali, em Pinheiros, que comecei a compreender um pouco de terapia humanista. E comecei a me esforçar enormemente para me tornar pessoa.
 
Obrigada, Renato, pela dica.
 
E a você, Mário, os meus mais sinceros agradecimentos. Nunca mais soube do seu paradeiro. Espero que tenha sido muito feliz. Você foi uma lanterna providencial em tempos, para mim, sombrios.
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Publicado em 20/10/2013

Amiga Vera todos nós temos um Mário em nossas vidas, basta escutá-los.

Grande abrço

Enviado por Marcos Falcon - [email protected]
Publicado em 16/10/2013

Vera muito bela a sua homenagem ao Sr Mario um homem que tinha muito a ensinar , e parabens pela garra por querer sempre aprender . Quanto a culinaria eu levei muito menos tempo para aprender a cozinhar pois a necessidade me obrigou a isso , eu que era o unico homem no meio de quatro mulheres 3 irmãs e minha mãe , não sabia nem fazer cafe , e quando imigrei para esta terra fiquei 11 meses sozinho era aprender ou comer o que destestava (tudo muito acucarado) , então aprendi e hoje faco qualquer prato inclusive sobremesas e minha esposa aprova tudo o que me proponho a fazer. Parabens pelo texto .Abracos Felix

Enviado por João Felix - [email protected]
Publicado em 15/10/2013

Vera, tenho certeza que você descobriu que vida de dona de casa não tem nada de pacata e hoje sabe valorizar esse tempo privilegiado para até experimentar a "Arte Culinária".

Quanto ao sofrimento de nossos entes queridos, nós entendemos que o maior sofrimento é vivenciado pela pessoa. Mas invariavelmente irá nos afetar.Lemos em Romanos 12:15 : "Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram." DEUS nos fez seres com sentimentos.

Beijocas.

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - [email protected]
Publicado em 15/10/2013

É sempre bom partilhar das ocorrências contadas pela querida Vera. O conhecimento humano adquerido por vc, Moratta, permite essa introspecção na alma de um ser que, na simplicidade de seus requisitos, vc consegue arrancar exemplos enternecedores, saboreando o néctar da sabedoria de um homem. Formidável sua crônica, Vera, parabéns.

Laruccia

Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 15/10/2013

Voce já nasceu querendo saber sempre mais...Admiro muito mulheres que não se contaminaram com os afazeres de casada e dos filhos e conseguiram as duras penas é logico não estacionar no tempo e seguir seus ideais.Eu só consegui os meus,depois que meus filhos cresceram e eu optei voltar ao mercado de trabalho e desatar os nós que me enclausuravam durante anos...Vera,que voce foi eleita a nossa Mestra por todos os amigos do site voce já sabe,mas a sua essência,humanidade e sabedoria...só os que leem suas histórias ou convivem com voce podem enchergar...

Enviado por Walquiria Rocha Machado - [email protected]
Publicado em 15/10/2013

Vera, nesse texto você falou de tanta coisa da alma...

Realmente o Mário tinha uma grande sabedoria e humildade.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - [email protected]
Publicado em 14/10/2013

Vera querida amiga, mais um vez você arrasou!Os anjos perambulam entre a gente, veja os que você encontrou e as mudanças que ocorreram na sua vida. Realmente o sofrimento é de cada um, mas infelizmente não conseguimos nos libertar da dor do outro principalmente quando esta dor é de alguém próximo.Porém sabemos que nossa dor é em vão e não ameniza a dor do outro.Um grande abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - [email protected]
Publicado em 14/10/2013

Sempre temos algo a aprender, e o povo do Sol Nascente tem a virtude de resignação diante das adversidades. Fui criado no meio desse povo, tenho amigos desse tempo como Hiromi, Kasuo, Teruo, Takeo, muitos da família Watanabe, Furukawa, Mori, que mesmo diferenciando em cultura sempre tivemos bom relacionamento e troca de experiências. Parabéns pelo texto e pela gratidão com aqueles que doaram um pouco de si para ser parte de nossas recordações.

Enviado por Carlos Fatorelli - [email protected]
Publicado em 14/10/2013

Vera, bela homenagem a quem mostrou o caminho da vida, só estranho a filosofia dele quanto a relação de sofrimento de uma pessoa em relação a outra, podemos sofrer sim com o pesar da outra porem não se deixar abater, e lembre-se culinária também é cultura e é bom, parabéns ,Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - [email protected]
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