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Categoria - Outras histórias O andarilho da fé... Autor(a): Airton Irineu dos Santos - Conheça esse autor
História publicada em 22/03/2013

Tinha eu na época, anos 60, 17 anos incompletos, nós, minha família, em número de quatro, morávamos no bairro de Santana - SP; a casa modesta abrigava: eu, minha mãe, meu padrasto e sua mãe Dona Gilda, a qual era considerada para mim, minha vovó postiça italiana; apesar das dificuldades vivíamos em plena harmonia. Dona Gilda era uma pessoa de idade avançada, diga-se de passagem, era uma excelente cozinheira, suas massas italianas eram deliciosas e as bracholas então, eu não via a hora de chegar os domingos para saborear tudo o que ela prepararia, aliás com esmero e carinho; certo dia, porém, ela adoeceria com certa gravidade, inspiraria muitos cuidados, deixando a todos nós preocupados, principalmente a mim, que praticamente fora criado por ela desde a minha tenra idade, minha mãe para reforçar o orçamento doméstico sujeitar-se-ia a trabalhar como doméstica em várias casas de família e ficava vários dias fora de casa. Dona Gilda era uma criatura encantadora e admirável, como não podia de ser, uma companheira fiel das idas às missas, como também aos cinemas do bairro...

No meu íntimo então decidira fazer uma promessa visando o seu pronto restabelecimento, iria fazer uma peregrinação, um trajeto a pé visitando várias igrejas ao longo de um caminho determinado, começando pelo bairro de Santa Terezinha, alto de Santana, terminando na Igreja da Consolação no centro... Este rapaz está ficando louco, diria meu padrasto, sabedor do motivo da promessa, mas estava convicto em cumprir a risca o meu propósito, tinha condição atlética da realização.

Era uma certa manhã, 08h de uma segunda-feira, estava de férias de meu emprego como datilógrafo em uma renomada companhia de seguros, precisamente já na porta da Igreja de Santa estaria para iniciar esta trajetória de fé; uma chuva torrencial me pegaria e todo ensopado nela entraria, isso para espanto do vigário que gentilmente abriria o templo ciente do propósito para que fizesse as minhas preces e intenções, o altar principal me acolheria, a minha vovó mereceria toda a atenção.

Saindo então do templo após as orações daria tempo para deslumbrar na parte baixa do local a conhecida chácara dos padres onde vários campos varzeanos lá existiam para o deleite dos craques que todos os domingos davam um show a parte, muitos poderiam ser profissionais, mas era o amadorismo que imperava naquela paixão do disputado retângulo; uma equipe "courvert" do SPFC deslumbraria a plateia que o São Paulinho de Santa Terezinha que fazia fama na região, foi um Deus nos acuda quando nosso time formado em nossa rua enfrentou esta equipe tricolor, uma goleada acachapante aconteceria, aconteceriam as gozações...

Bem, tinha que continuar a minha trajetória e gastar a sola do meu sapato vulcabras tamanho 4l; quilômetros a pé teriam que ser vencidos, veio então uma recordação, estava entrando na Rua Conselheiro Moreira de Barros, lá, esquina com uma praça, anos atrás trabalharia como engraxate sendo que as notas de cruzeiro eram gastos na matinê do então deslumbrante cine Colonial, tempos inesquecíveis dos filmes épicos, das sessões dos duros onde passavam vários filmes e seriados, recordaria também dos flertes no escurinho do cinema quase sempre reprimidos pelos lanterninhas, tanto tempo se passou, até esqueci os nomes das garotas preferidas, você ficaria até "corado" tal a timidez nos comportamentos.

Seguindo em frente já estaria na capela do Colégio Santana, aconteceria um encanto, lembraria dos encontros escondido nas escadarias com uma tal de Ana Maria de belas recordações, muitas paixões aconteceriam ao longo da vida...

Após as orações de praxe desceria então a ladeira e ao longe vislumbraria a bucólica, calma Santana e sua artéria principal, a Voluntários da Pátria, a Igreja Matriz me esperaria, antes daria tempo para divisar as lojas modestas, os bazares escolares, os cines Hollywood e Vogue que eram suplantados, recordasse com carinho as deliciosas matinês de todos os domingos.

Já estamos no interior da Igreja Santana, templo este que foi palco da minha primeira comunhão, o encontro oficial com Deus, eram importantes as orações. Depois da saída do templo daria tempo para parar na Padaria Polar para tomar um guaraná, as energias tinham que ser revigoradas. A Padaria Polar era o local predileto da juventude da época.

Ao lado da igreja de Santana não passaria despercebido o saudoso e imponente Grupo Escolar Buenos Aires aonde aprenderia as primeiras letras, as professoras eram severas, mas valeria a pena pois a obediência e a disciplina faria parte da minha personalidade por toda vida.

A Voluntários da Pátria seria vencida e a Ponte Pequena, o Rio Tietê pouco poluído eram obstáculos a serem ultrapassados; a Luz seria logo alcançada, antes a igreja Nossa Senhora Auxiliadora seria visitada para as preces orquestradas anteriormente, ali o bairro do Bom Retiro daria as suas cartas, predominando a colônia israelita; eram os Feldman, Bergman, muitos descendentes dos que sofreram na Segunda Guerra, optaram para viver felizes em solo brasileiro.

Seguindo em frente, a Estação da Luz seria vencida, logo a Igreja de Santa Ifigênia apareceria logo em frente, as orações tinham que serem feitas, o que ocorreu, feito isso o viaduto do mesmo nome da Santa foi vencido e no Largo de São Bento, o mosteiro me receberia de braços abertos, a sua paz reinante aliada aos cânticos gregorianos se faziam sentir, o meu dever estava sendo cumprido.

Atravessaria então a Rua Direita, a Igreja da Sé, Catedral Monumental me receberia, nos seus degraus já deslumbraria o vistoso altar, as orações aconteceriam. Na saída olhando para o lado, perguntaria cadê o cine Santa Helena, a demolição daria espaço para a união a outra praça. Foram demolidos sonhos originados da fantasia.

Passavam das 19h naquele dia, ainda estava claro, era o epílogo desta jornada, estava ajoelhado no interior da Igreja da Consolação, a promessa estava cumprida. Pensei então na volta ao meu lar, aconteceria um milagre, nesta igreja encontrava-se um vizinho que gentilmente me traria de volta.

Valeu a pena pois logo esta vovó postiça italiana se recuperaria para a alegria de todos nós. Tornar-me-ia na época o que seria hoje um Forest Grump, um andarilho da fé...


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Publicado em 27/03/2013 Nossa, gastou muita sola de sapato.rs
E alcançou o milagre.
Enviado por Benedita Alves dos Anjos - [email protected]
Publicado em 25/03/2013 Bonita demonstração de carinho pela sua vovó do coração! Que roteiro você fez! Abraço Célia Enviado por Regina Célia de Carvalho Simonato - [email protected]
Publicado em 25/03/2013 Muito bonita a sua atitude, Airton. A fé nos apresenta nos momentos tão delicados como o que você tão bem relatou. Parabéns pela atitude, ainda tão jovem, e com uma força imbatível. Parabéns também pelo belo relato. Um abraço. Enviado por Vera Moratta - [email protected]
Publicado em 25/03/2013 Quando oramos pelos outros, a luz de Jesus nos ilumina e Deus envia anjos para nos ajudar. Depois de todo o percurso, um anjo deu-lhe a carona enviada por Deus. Apesar de não conhecer Santana seu relato me levou por aquelas paragens. Gostei muito. Enviado por Trini Pantiga - [email protected]
Publicado em 25/03/2013 Que lindo este amor que você demonstrou pela sua avó postiça. Tem um canto que diz: Se a gente colocar a nossa fé em ação, vai dar tudo certo. É tudo uma questão de FÉ. Enviado por Solange Ernesto da Silva Costa - [email protected]
Publicado em 22/03/2013 Tudo, mas tudo mesmo que é feito por fé e por amor vale a pena. Você é testemunha disso. Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - [email protected]
Publicado em 22/03/2013 Quando a fé se torna parte de tua vida, tudo flui em paz.Um abraço. Enviado por margarida peramezza - [email protected]
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