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Categoria - Personagens Morreu ninguém Autor(a): Mario Lopomo - Conheça esse autor
História publicada em 21/01/2013

Maria fumaça era uma mulher negra que ficava sentada na calçada do cemitério do Araçá, Rua Dr. Arnaldo. Era uma mulher comportada que não falava palavrão, não mexia com ninguem, apesar de praticamente morar na Rua, tinha os dentes perfeitos e alvos, seu sorriso era encantador, segundo meu pai que trabalhava na marmoraria Cagiano, propriedade de Nicola Cagiano, naquele pedaço da cidade de São Paulo.

"Maria" era muito bem-quista por todos os que ali habitavam ou trabalhavam e até mesmo passantes momentâneos a cumprimentavam. Maria não passava fome, sempre tinha alguém pagando almoço ou jantar mesmo sem ela pedir. Aliás, ela não era pedinte, tinha um jeito envergonhado para isso, talvez por se sentir bastante querida tinha sempre quem a auxiliava pelo menos na refeição, ninguém sabia onde ficava sua residência, e nem se ela realmente tinha. Maria era uma mulher comportada e conversava muito bem, tinha correção nas palavras que pronunciava, não se sabia como ou por que chegou naquela vida sem destino formado.

Em uma segunda-feira quando os trabalhadores chegavam para o “ganha pão” diário notaram a ausência dela. Por onde andará Maria? Como era o início da semana de trabalho e no domingo os habitues dos dias de semana estavam ausentes, ninguém sabia de seu paradeiro. Quem primeiro descobriu onde ela estava foi meu pai que trabalhava de marmorista naquela rua. Quando ele foi ao necrotério para levar uma placa de epitáfio um cliente da firma, como sempre fazia, deu uma olhada na geladeira do necrotério com paredes de vidro e lá viu que estava o corpo de Maria Fumaça.

A Rua Dr. Arnaldo ficou um pouco mais triste sem o sorriso branco da mulher negra que ali "residia", ela era bem-quista por nunca perturbar ninguém e se portar mais educada do que muita gente que tinha uma família e um lar tido como "perfeito".

No Itaim Bibi tinha outro personagem que foi um símbolo de como não se devia viver. Era Mario Brisa, membro de uma família de classe media que comia mortadela e arrotava peru, Mario Brisa era um trabalhador cartorário que andava sempre bem vestido e de repente passou usar roupa bastante surrada. Um dia roubou a calça do seu cunhado Dondoca, e foi no barranco do córrego sapateiro e trocou de roupa "ficando bonito", só que ficou por pouco tempo já que o "janota" do seu cunhado, sentindo falta de sua roupa de Gabardine Inglês, logo imaginou quem tinha furtado. E não deu outra, foi só sair de casa ali na travessa do Porto e ver o cunhado com ela.

Pronto. Formou-se o sururu, filho disso e daquilo, Mario foi pego pelo braço e desceu as barracas do córrego, e ali foi feita a devolução da roupa. Mario Brisa era respeitado por todos os que moravam no bairro e também por aqueles que o viam momentaneamente, só não era pela família que tinha vergonha, quando alguém falava dele.

Um dia Mario Brisa estava no seu local preferido, que era a calçada da fábrica de chocolates Kopenhagen, Rua Joaquim Floriano, esquina com a Rua Tapera (Bandeira Paulista), já meio moribundo, e uma ambulância do Sandu (hoje Samu) foi chamada, e quando os enfermeiros chegaram para levá-lo ao Hospital das Clínicas se recusaram a pegá-lo, tinham nojo daquele homem sujo e com feridas aparentes. Muita gente parou para ver no que ia dar. A coisa foi resolvida quando naquele momento apareceu Vicente, o batateiro do Itaim, que ao ver o que estava acontecendo se prontificou a pegá-lo, perguntou se alguém o ajudava, um taxista se prontificou.

Mas Vicente não se contentou em pegá-lo sem antes fazer seu discurso: "Eis aqui um brasileiro que nem próximo da morte é respeitado". Não durou muito e logo veio a notícia que Mario Brisa havia falecido. Quando a notícia veio ao Itaim, alguém disse: Morreu ninguém!


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Publicado em 09/11/2014

que triste,mas também uma boa historia!!!

que nos sirva de exemplo!!!

parabéns!!!

Enviado por verinha - [email protected]
Publicado em 22/11/2013

Estava procurando esta história e achei.

Parabéns.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - [email protected]
Publicado em 26/01/2013 Hoje ainda temos esses andarilhos. Aqui há um que ficou depois da família mudar de bairro e vive perambulando pelas ruas. Hoje são invisíveis para quase todos porque vivemos encurralados, em carros com vidros escuros, e perdemos o hábito de caminhar e conhecer nossa rua, nosso quarteirão, nosso bairro. Nestes locais estão os " ninguém" ... Enviado por Trini Pantigai - [email protected]
Publicado em 23/01/2013 Lopomo, bons tempos em que esses tipos eram notados pelo povo, hoje, ninguém faz compras no armazém da esquina e todos correm para suas casas com medo de assalto ou para não perder a novela da (grobo)...Um abraço Rossi. Enviado por antoniorossidossantos - [email protected]
Publicado em 21/01/2013 Tristes historias de pessoas que por algum motivo ou acontecimento se perdem na trilha da vida Enviado por alexandre ronan da silva - [email protected]
Publicado em 21/01/2013 É meu caro Mario eu nunca vou conseguir entender estas histórias verdadeiras de milhares de sêres que se transformam em mendigos pacatos
e solitários,eles não roubam e não fazem mal a ninguém apenas a si próprio.
Enviado por walquiria rocha machado - [email protected]
Publicado em 21/01/2013 Velho e bom Lopomo. Histórias humanas muito especiais como as de Maria e de Mário, Fumaça e Brisa. Gente sem destino formado, como muitas que vemos nas ruas, cada uma com um jeito próprio. Gosto quando conta histórias do Itaim Bibi aonde crescí nos anos 60 e 70... Futebol de rua, balão, bicicleta, rolimã, bolinha de gude, estilingue, quadrado, bomba de $50,oo em lata de tomate, soprar zarabatana com canudinho de papel, futebol de várzea, botão, bailinhos, Beatles e Colégio Costa Manso! Abraços! Enviado por Claudio Bertoni - [email protected]
Publicado em 21/01/2013 tive varios amigos e conheçidos, que morreram na maior miseria,infelizmente assim e a vida, Enviado por joao claudio capasso - [email protected]
Publicado em 21/01/2013 Mário Lopomo, o grande cronista da cidade. Enviado por Abilio Macêdo - [email protected]
Publicado em 21/01/2013 Maria Fumaça e Mario Brisa - Em cada bairro tinha esse "ninguem". Lá no Tatuapé era o "Jacare" Ninguem deu a minima na sua morte, alias nós os garotos que sempre estávamos azucrinando ele é que sintimos a sua falta. Abraços Mario ... Enviado por José Aureliano Oliveira - [email protected]
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