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Categoria - Outras histórias Campanha política de outros anos Autor(a): Mario Lopomo - Conheça esse autor
História publicada em 04/12/2012

Nos dias de hoje, a campanha política só é vista pela televisão e aí fica a saudade das campanhas políticas dos anos 1950-60 que eram feitos em Praça Pública com comícios inesquecíveis como os que eram feitos ao final dos anos 1950.

O prefeito de São Paulo era nomeado pelo governador do estado até o ano de 1953, quando o Lucas Nogueira Garcez o governador da época resolveu acabar com esse procedimento realizando eleição para que o povo indicasse o seu prefeito. Sendo assim naquele ano, no mês de Março, o povo foi pela primeira vez votar em seu governante. A novidade dessa eleição era um deputado estadual que já tinha sido, também, vereador. Tratava-se de um pobretão que tinha o bairro de Vila Maria como seu reduto eleitoral, seu nome Jânio da Silva Quadros, era um professor do colégio Dante Alighieri que instigado pelos seus alunos havia se metido na política.

Naquele ano Jânio foi ao bairro que eu morava Itaim Bibi, fazer um comício em um único terreno baldio que tinha na Rua Joaquim Floriano, ao lado da farmácia do seu Brandão, perto da Rua da Ponte onde Mazzaropi, que morava ali perto na Rua Paes Araujo, erguia seu Circo Teatro. O palanque onde Jânio subiu era um caminhão com a carroçaria aberta de onde, ele de cabelos caídos na testa, óculos de aros escuros e grossos, paletó roto, olhos esbugalhados e com cara de louco, falava para um público de mais de cem pessoas. Sua campanha tinha o Slogan do "Tostão contra o Milhão" já que o candidato que concorria com ele era Francisco Antonio Cardoso que era apoiado pelo governador da época Ademar de Barros, considerado um homem rico.

Meu pai, que era janista, queria fazer com que minha mãe também votasse nele. “Eu não”, dizia ela. “Esse homem é louco, sujo, descabelados, paletó cheio de caspas nos ombros, Deus me livre, não sei como dona Eloá, uma moça tão bonita foi se casar com essa figura”. “Que nada Orlinda”, dizia meu pai. É de homens assim que precisamos. Jânio é o tipo de "homem de três culhôes". Naquele comício me lembro que o povo dava muitas risadas, principalmente quando ele parou o discurso, tirou um sanduíche de mortadela e uma banana do bolso e se, pôs a comer, dizendo que até aquela hora não tinha comido nada.

Jânio venceu, assumiu a prefeitura e foi fazendo seu “brilharéco”, ia de madrugada ao mercado municipal (mercadão) aonde poucos trabalhadores que tinha que iniciar os trabalhos às 4h da madrugada chegava na hora marcada. Os que habitualmente chegavam às 9h da manhã eram encostados na parede, seus nomes anotados e eram demitidos. Com isso ele foi fazendo seu nome.

Sua campanha tinha sido a do "Tostão contra o Milhão" que fazia referência: “dele ser pobre contra o rico Ademar de Barros”. Na eleição de 1954, Jânio e Ademar iam se defrontar pela primeira vez, até então Jânio havia vencido um político apoiado por Ademar. Mas na eleição de 1954, Jânio se defrontaria pela primeira vez contra o ex-governador Ademar de Barros (1947-1950). Foi uma eleição disputada “palma a palmo” quando as urnas foram abertas. O interesse do povo era tanto que por onde se passava, principalmente nos Bares, o rádio estava ligado na "marcha da apuração" com muita gente de “ouvido colado” fazendo barulho quando Jânio tinha vantagem em uma urna ou no conjunto de várias urnas. A gritaria foi muito grande quando foi anunciado que na cidade de Pederneiras Ademar não tinha tido nenhum voto em uma urna. Jânio havia ganhado, mas Ademar não se conformou e pediu a recontagem dos votos, o que foi aceito e a nova apuração foi feita no Palácio da Justiça na Praça Clovis Bevilacqua, onde a vitória de Jânio foi confirmada.

Jânio assumiu o cargo no dia 31 de Janeiro de 1955 e fez um governo considerado bom, e em 1957 na eleição para prefeito apoiou Oscar Pedroso Horta que não conseguiu ganhar, perdendo aquela eleição para Wladimir de Toledo Pizza. Na eleição de 1958, para governador, Ademar de Barros era novamente candidato e fez seu primeiro discurso na Vila Olímpia no dia 4 de Julho, poucos dias depois do Brasil ganhar o título de campeão do mundo conquistado na Suécia. Começava ali a campanha política daquele ano, mas Ademar gostava mesmo era de fazer os seus comícios na Praça da Sé. Já Carvalho Pinto, apoiado por Jânio, fazia os comício na Praça Roosevelt atrás da igreja da Consolação, ali era considerado reduto de Janistas.

Na sexta-feira que antecedia a eleição e era o último dia que se podiam fazer comícios, as duas Praças estavam locadas para os dois candidatos com transmissão ao vivo por emissoras de televisão, a TV Record transmitia os comícios de Ademar que era muito amigo de Paulo Machado de Carvalho, o do dono da TV. Já a televisão Paulista canal 5 de Victor Costa, janista assumido, era quem transmitia os comícios de Carvalho Pinto.

Jânio que governava o estado de São Paulo estava apoiando Carvalho Pinto que tinha sido o secretario da fazenda do estado e colocado as finanças em ordem. Jânio que em 1954 havia vencido Ademar em uma das mais renhidas eleições disputadas em São Paulo. A vantagem que era de mais ou menos 10 mil votos a favor de Jânio na recontagem ficou com uma diferença maior. Ao final de quatro anos Jânio apoiou seu secretario da fazenda, o professor Carlos Alberto de Carvalho Pinto, que morava na Rua Veneza, no Jardim Paulista e disputaria contra Ademar de Barros que morava no bairro dos Campos Elíseos, Rua Albuquerque Lins e insistia em disputar todas as eleições. Na famosa sexta-feira, último dia de campanha daquela eleição de 1958, as duas Praças estariam novamente cheias de gente, a Praça da Sé era o reduto de Ademar, já a Praça Roosevelt era o local escolhido por Carvalho Pinto.

Mais uma vez a TV Paulista canal 5 propriedade de Victor Costa estava lá para mostrar e na tela apareceu o deputado Emilio Carlos tirando um sarro do comício de Ademar na Praça da Sé, com muito menos gente do que o comício da Praça Roosevelt. A televisão mostrando uma tomada de lá, fazia Emilio Carlos rir da diferença entre o comício de Carvalho Pinto e o comício do "promessão", apelido de Ademar, fazendo referência ao bandido "Promessinha" que estava na “crista da onda” como o ladrão da época.

Os responsáveis pela campanha de Carvalho Pinto mandaram fazer uma faixas pequenas com o desenho de uma vassoura e um pintinho, também pequenos distintivos de metal que muita gente usava na lapela do paletó. Ademar para não ficar atrás, mandou fazer uma faixa quase do mesmo tamanho da do seu adversário só que mais quadrada com os dizeres "Ele é nosso" que também se via em muitas residências. Ademar, para fazer frente ao distintivo de Carvalho Pinto, que era um pintinho de metal, mandou fazer um galo também de metal um pouco maior do que o pintinho, querendo dizer que no terreiro quem mandava era o galo.

Em um comício de Carvalho Pinto o cantor Osni Silva contratado da Rádio Nacional e Ademarista roxo estava com o galo na lapela, foi intimado a tirar. Mas se recusou dizendo que preferia não se apresentar, mas como o palco estava longe dos olhos do povo e a câmera tinha como não mostrar, ele se apresentou com o galo no peito.

Aquela eleição foi uma das melhores em termos de repercussão, com o povo discutindo o tempo todo. Luiz o açougueiro da Vila Olímpia e Janista roxo, perguntou ao meu pai:
“Seu Ângelo, será que a gente ganhamos essa eleição?”

No último dia de campanha Ademar ia fazer seu comício em seu reduto eleitoral, sendo acompanhadas pela TV Record, e Carvalho Pinto na sua tradicional Praça, a Rooselvet, com as câmeras do Canal 5. Lá o povo se comprimia, mas o que o povo queria mesmo ver não era o candidato e sim quem o apoiava, o governador Jânio Quadros, e quando ele subiu no palanque quase que a praça veio abaixo. Se pudesse, o povo votaria nele para continuar. O barulho era intenso e só terminou quando Jânio começou seu discurso com o seu tradicional, “euuuuu!” Ao final não deixou de dar uma espetada em Ademar dizendo:
"As faixinhas de Carvalho Pinto foram colocadas nas residências, com ordem de seus moradores".
Agora, as faixas que diz "Ele é Nosso" foram colocadas nas residências na calada da madrugada, com pregos de cortiça.

Carvalho Pinto ganhou com mais de 200 mil votos de diferença. Dois anos depois Jânio concorria à presidência da república, contra o general Henrique Dufles Teixeira Lott no dia 3 de outubro de 1960, um dia depois que o estádio Cícero Pompeu de Toledo do São Paulo F.C., tinha sido inaugurado.

Jânio foi eleito com quase 6 milhões de votos. Logo de início como presidente, Jânio não deixou de fazer das suas. Proibiu o uso de biquínis nas praias, Rinhas de brigas de Galo e corridas de Cavalos em dias úteis, e para completar condecorou o líder Cubano Chê Gevara com a ordem do Cruzeiro do Sul. No campo financeiro assinou a instrução 204 da Sumoc, o que aumentou em 100% o custo de vida. Em Março de 1961, Jânio apoiou o deputado federal Emilio Carlos para prefeito da capital, que perdeu para Prestes Maia que por várias vezes havia se candidatado, tanto para prefeito como para governador. Meses depois Emilio Carlos falecia vítima de colapso cardíaco.

Seu governo estava chegando ao final dos seis meses, ele havia dito que tinha muito medo do mês de Agosto. O que estaria pensando ele? Só sei que em um sábado quase ao final daquele mês desembarca no palácio do Planalto de “mala e cuia” Carlos Lacerda, “que diz ao serviçal do palácio, fala para aquele bêbado do Jânio, que eu cheguei”.
“Ao que retrucou o serviçal. Ele pode ser bêbado, mas bebe pinga que é um produto brasileiro, e o senhor é um bêbado inveterado que bebe Uísque, que é uma bebida estrangeira”.

Só sei que em uma sexta-feira dia 25 de agosto de 1961, depois de participar da solenidade do dia do soldado, Jânio surpreende o Brasil renunciando. Em sua carta-renuncia, ele disse ser vencido por forças terríveis e até hoje não se sabe que tipo de forças era aquelas. Jânio tentou no ano seguinte ganhar a eleição para governador do estado, mas perdeu para seu maior rival, o Ademar de Barros. Quando a vitória de Ademar foi consumada, Jânio surpreendeu a todos mandando um telegrama para seu adversário. "Senhor Ademar. Tradicional adversário de vossa senhoria, cumprimento-o pela vitória. desejo felicidade e boa administração".


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Publicado em 14/12/2012 Caro Mário,
vendo seu relato lembrei-me de 2 fatos: o primeiro, a vassourinha que meu pai usava na lapela e da música que tocava incessantemente no rádio: varre, varre vassourinha... E segundo desta memorável história do Jânio quando era prefeito em SP. Recorda-se disso???
Um poema para cobrar uma indenização de CZ$ 70 mil foi a ideia do Dr. Marcelo Toledo, radiologista da Santa Casa de Misericórdia e do Hospital Universitário, para cobrar do prefeito de São Paulo, Jânio Quadros, o pagamento dos prejuízos tidos com a queda de uma árvore sobre o seu carro na véspera de Natal.
E foi também com um poema, que Jânio autorizou o pagamento da indenização, por julgá-la procedente, encaminhando esse seu despacho ao Secretário Municipal de Finanças, Manhães Barreto.

Os dois poemas foram publicados na íntegra no Diário Oficial do Município de São Paulo.

PETIÇÃO
Excelentíssimo Senhor
Jânio da Silva Quadros
Prefeito do Município
Minha história de Natal.
A começar do princípio
vem dum fato trivial:
uma árvore que morreu
nas ruas da capital.
Só que o carro era o meu
o que se vê no postal.
Foi isso que aconteceu
na véspera do meu Natal.
Não ventava, nem chovia
era um dia bem normal
e meu carro, junto à guia
parado, em lugar legal.
Quem vive da Medicina
não pode - como direi? -
se uma árvore cai em cima
substituir um Del Rey.
Não era novo, era usado
do ano oitenta e um
eu já estava acostumado
não trocava por nenhum.
Agora lá na oficina
com os carros remendados
e o orçamento, imagina,
são setenta mil cruzados.
Junto vai meu hollerit
pra mostrar a situação
de quem cura apendicite
na barriga do povão.
Com muita dor,
exercer a Medicina
na função de professor
é algo que desatina o
profissional de valor.
Em qualquer país distante
se ensina só Medicina
mas não cabe numa estante
o ensino que aqui se ensina.
Pois num país como o nosso
cada médico precisa
lembrar-se, ter a certeza
que ao lado da doença,
há também que combater
miséria, atraso e pobreza.
Se assim digo ao senhor
é pra pedir um conselho;
e me diga, por favor,
como fosse caso alheio.
Como devo proceder
para ser indenizado?
Ou o destino assim quis,
sou eu que sou azarado?
Sou homem de estimação
educado com ternura
não quero mover ação,
importunar Prefeitura!
Espero que sua resposta
influa na vida minha.
Ou a vida é sem resposta,
e sem rumo é que caminha?
Na resposta, Jânio manda pagar:

O bom médico Toledo
pediu indenização
e requereu-a sem medo
de receber o meu “não”.
A árvore caiu por cima
do carro de estimação
e ele menciona a sina
que parece maldição.
O vegetal era nosso,
como a prova a petição;
devo pagar, e eu posso,
a pouca indenização.
O remédio, pois, eu acho
é saldar o prejuízo;
assim decido e despacho
ao Manhães que tem juízo.
Grande abraço!
Enviado por olga regina de oliveira - [email protected]
Publicado em 12/12/2012 Mario, bons tempos aqueles. O Janio também fazia comício na Penha e muitas vezes ia de surpresa assistir a missa na Igreja da Penha.Um abraço. Enviado por margarida peramezza - [email protected]
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