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Categoria - Outras histórias Bola ao rio! Autor(a): Antonio Cardoso - Conheça esse autor
História publicada em 23/11/2012
Confesso que até os meus nove anos de idade eu não tinha o menor interesse por futebol, até que em um belo dia resolveram transformar um terreno baldio atrás de casa em um campinho. O campinho ficava às margens de um córrego junto à Av. Hélio Lobo com a Rua Laércio Neves, no Jabaquara. Por causa da localização do campo, o mesmo foi batizado de Beira-Córrego (talvez uma alusão ao Estádio Colorado, quem sabe?).

Pois bem, aos poucos fui dando meus primeiros passos no futebol e me enturmando com os frequentadores do local. Os mais assíduos eram os irmãos Claudinho e Rico, filhos da Dona Cida. Os outros eram Colorido, Charlô e Marquinhos Moura, irmãos. Claudião, Adilson, Mutuca e Giba (e mais irmãos!), Luí e Joãozinho, Coruja, Ari e Birrocho (chega, já tem irmãos demais nessa história!).

Aos poucos fui mostrando habilidade com a pelota e comecei a cair nas graças da molecada, porém eu tinha uma deficiência que deixava meus amigos loucos: meus lançamentos!Eles eram simplesmente horríveis!
Eu via o Rico ou o Claudião mandar a bola no peito de um moleque como se fosse por telepatia e queria fazer o mesmo e aí quem sofria era a bola que, não rara, tomava banho no córrego. A partir daí nasceu o grito: “Bola ao rio!” Quando não era no córrego, era nas casas vizinhas, mas o riozinho era mais frequente.

Quando meu time atacava sentido rio, a molecada já soltava um "não lança, não lança". Eu tentava jogar curtinho, bola no chão, mas aí eu via um companheiro mais avançando e arriscava, porém... “Bola ao rio!” O Giba, como era um dos menores da turma e não jogava muito bem, ficava a maioria das vezes de fora e maioria das vezes também resgatava a bola no rio. Às vezes, não tinha como salvá-la e lá ia ela dar um passeio sem volta no Rio Pinheiros.

O Claudião era o irmão mais velho do Giba e já não gostando muito de ver a mesma cena me disse que se eu lançasse a bola no rio novamente eu teria que buscá-la e isso foi estendido a todos. O Ari aproveitou para soltar essa:

- Kéco, de que é feita a bola?
- De couro, Ari.
- Legal. E couro vem de onde?
- Da vaca, do boi.
- Esses bichos comem o quê?
- Capim, certo?
-Então cara, deixe-a rolar no capim, não lança mais não.

E assim parei de lançar. O tempo foi passando, nós fomos crescendo e o campinho diminuindo. Muitos se mudaram, assim como eu que hoje resido em São Bernardo do Campo, e outros que lançavam a bola com maestria não tiveram a mesma habilidade na vida e se lançaram por caminhos que não tiveram volta, tais como as bolas que desceram o rio. Hoje, o campinho é um depósito para caçamba de entulhos, com muros altos e pichados. O córrego está canalizado, mais fundo e largo, bem diferente no começo dos anos 80, quando conseguíamos pular em alguns pontos de uma margem a outra.

É estranho você olhar para um lugar e ver que nem se quer um palmo de chão permaneceu intacto com o passar do tempo. Mas a nossa mente é fantástica e hora ou outra nos proporciona viajar por lembranças que não se esvaecem. Ah, se eu aprendi a lançar? Bom, essa é outra história. Abraços.


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Publicado em 29/11/2012 Meu campinho de moleque é o que chamava de "ranca toco" e a base do nosso time éra: Mimi, Coco e
Ranheta. Talho, Retalho e Caralho.
E essa ai do Ari, não é do Ari e do grande técnico (filosofo) Gentil Cardoso que dizia assim:
A bola é de couro, o couro vem da vaca, a vaca come grama; então, faz a bola rolar na grama meu filho e não ficar dando bicão!
Enviado por juvenal cardoso - [email protected]
Publicado em 26/11/2012 Antonio, vc me fez recordar as "peladas"na rua de paralelepipedos (ou qualquer coisa parecida), no Braz, em que todos jogavam descalços, menos o Waldemar Belini, (já falecido), acho que nem pra dormir ele tirava os sapatos. Boa sua história, Cardoso, parabéns.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 24/11/2012 Tunico o apelido dele era "PELIN" não me pergunte porque. Tinha um dedo do pé, aquele que fica ao lado do dedão fora do normal, muito grande. Jogávamos descalço numa rua de terra lá no tatuapé na rua André Soares. Ao contrário de você, quando o "pelin" chutava a bola, coitada da vidraça das senhoras solteiras. Não falhava uma. Perna para que te quero. Abraços Tunico ... Enviado por Jose Aureliano Oliveira - [email protected]
Publicado em 23/11/2012 Antonio, que legal sua historia. Um campinho é tudo de bom para a molecada, mesmo começando mais tarde desfrute destes momentos só trouxe lembranças boas e tomara que tenha conseguido lançar. Um abraço. Enviado por margarida peramezza - [email protected]
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