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Categoria - Outras histórias Tênue luz no cortiço Autor(a): Alvaro Glerean - Conheça esse autor
História publicada em 22/11/2012
Em praticamente todas as cidades de nosso país existiram e ainda existem os chamados cortiços, locais onde vivem pessoas de baixa renda e necessitadas de quase tudo, inclusive imigrantes que vieram de seus países em busca de vida melhor. São Paulo não foge à regra. Creio que todos conhecem pelo menos uma dessas moradias em algum bairro ou pelo menos delas já ouviram falar. O cortiço se diferencia da favela, pois sempre se situa em bairros comuns em casas muito velhas ou em porões.

Dadas as circunstâncias, dificilmente nesses locais ocorrem ou ocorreram histórias felizes, ou apenas ocasionalmente na cerimônia de um casamento, obviamente com comemoração realizada com parcos recursos. Ao contrário, inúmeras são as histórias tristes, dramas de que ninguém toma conhecimento por se tratar de pessoas que praticamente não existem para os demais. Carlos era um rapazinho com sete anos de idade, morador de um desses cortiços, primeiro filho de um casal provindo da Itália. Por desagradáveis circunstâncias seus pais foram enganados por conterrâneos que lhes haviam prometido mundos e fundos e na verdade os abandonaram à própria sorte. Como já acontecera com outros imigrantes, seu destino acabou sendo o cortiço, pois seu emprego vil poucos recursos lhe permitiam. Aqui já haviam nascido mais três filhos, graças à Dona Juvência, parteira do 91.

Seis bocas para alimentar! Pelo fato de seus pais o chamarem por Bambino, Carlos ficou conhecido por esse apelido. Vivaz, forte, alegre era querido por todos. Brincava com seus coleguinhas de cortiço tanto no quintal da casa como também na rua. Adorava jogar futebol e dizia para quem quisesse ouvir que seria, quando grande, jogador e tiraria a família daquele lugar. Mas, nem sempre as coisas caminham como se deseja. Dada as condições de vida e da má alimentação, com a baixa de resistência, adquiriu uma terrível moléstia, dificilmente curável, principalmente na época. Passou a ficar na cama o dia todo com febre altíssima que chá nenhum conseguia debelar. Os vizinhos o olhavam com imensa pena porque já haviam visto em todos os anos de moradia no cortiço, outros belos jovens sendo levados pela morte, sem nada poder ser feito.

Na permanência obrigatória na cama, restava a Bambino apenas recordações de seus dias felizes de brincadeiras com seus coleguinhas e pouca coisa mais na sua vida, que na verdade foi um amontoado de nada. De seus olhos corriam lágrimas constantes, não pela dor, mas sim por ter a certeza de que nunca poderia tirar da miséria seus adorados pais e irmãos. Mas, com o coração pulsando de alegria, como uma compensação, lembrava-se de uma vez em que uma menina de sua idade veio brincar com a turma. Linda, como podia lembrar-se, com cabelos longos, negros e uma fita rósea neles colocada. Ficaram um tempo juntos, quase que sem falar, pois não havia assunto. Mas, em dado momento, Bambina, como ele a chamou, deu-lhe um beijo no rosto e um bombom e desapareceu para sempre. Ao deliciar-se com o doce, lembrava-se que havia ficado todo lambuzado. Nunca havia provado algo tão gostoso e nunca mais o faria. Essas lembranças faziam com que um breve sorriso aflorasse em seus lábios ressequidos, o que dava a todos alguma esperança de cura.

Por várias vezes seus familiares o via abrir os braços, com muito esforço, e dirigi-los para uma imagem de Nossa Senhora colocada em um nicho na parede. Um copo com azeite e um pequeno pavio aceso bruxuleava uma tênue luz no quarto. É que ele tinha a impressão que a santa o olhava com imensa ternura e mais: que tinha o rosto da Bambina. Certo dia acordou, mas não mais estava na cama, e sim em um imenso jardim, brincado com várias crianças, todos limpos, com belas roupas, sem sentir nem fome, nem mais dor e nem mais febre. Percebeu que todas as crianças alegremente vinham sempre até ele para convidá-lo a brincar cada vez mais, sem cansaço. Adultos também ali presentes o tratavam de maneira que nunca havia acontecido em sua vida. Sorrisos e carinhos para todos os lados. Pela primeira vez em sua vida, um talvez... E não o impossível como sempre. Nesse momento sentiu que agora sim podia pensar em ser um grande jogador.


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Publicado em 23/11/2012 É Alvaro - Sem palavras. Uma linda e comovente história. Parabéns e um forte abraço ... Enviado por José Aureliano Oliveira - [email protected]
Publicado em 23/11/2012 Álvaro, eu me emocionoei profundamente com o seu texto. Suas palavras foram tão incisivas, tão marcantes, que eu me senti junto do Bambino, com a expectativa, insegurança e sonhos perdidos. Parabéns, meu amigo. Um notável escritor. Um grande abraço. Enviado por Vera Moratta - [email protected]
Publicado em 23/11/2012 Alvaro, excelente narrativa que retrata uma realidade, que creio, poucos conhecem. Parabéns e um abraço. Enviado por asciudeme joubert - [email protected]
Publicado em 23/11/2012 Conheço esta vida de cortiço tanto quanto o Luiz e muitos colaboradores deste site, e esta e muito mais historias tristes eram corriqueiras em nossa época,não tínhamos maturidade para entender o ocorrido,hoje ao lembrar de algumas me dá um grande aperto no coração. Enviado por walquiria rocha machado - [email protected]
Publicado em 23/11/2012 linda historia meu caro Alvaro, me fez lembrar minha mama Angelina que sempre mantinha uma lamparina de azeite e agua acesa no oratorio....abraço, Beira Enviado por Jose Camargo Beira - [email protected]
Publicado em 23/11/2012 Ainda resistem os cortiços e as malocas. Pelo menos em alguns bairros como o Bixiga, Bráz, Moóca, que são bem próximos do centro da cidade. Essa é uma cultura que dificilmente se extinguirá, mesmo com os projetos das casas populares. Enviado por nelson de assis - nel,[email protected]
Publicado em 22/11/2012 Alvaro:
Passei boa parte de minha infância num enorme cortiço, que existia e provavelmente ainda exista, no Ipiranga.
As marcas daquele tempo permanecem formigando na memória, e lembro-me perfeitamente dos amigos de infância, de nossas brincadeiras, onde conseguíamos transformar simples brinquedos em preciosidades, que o modernismo hoje desconhece.
Aquelas pessoas, possuiam pouco ou quase nada; mas lutavam tenazmente para dar a seus filhos algo mais, alem de sua maior virtude: Dignidade.
Luiz
Enviado por luiz - [email protected]
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