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Categoria - Outras histórias O Brás e o futebol Autor(a): Dorival Bertaglia - Conheça esse autor
História publicada em 25/09/2012
Mundial interclubes - a chegada

O personagem desta história não sou eu; é meu nono - o velho Chico - a quem quero render aqui minhas homenagens por tudo que fez por mim e pelo fato de ter me tornado palmeirense. O outro personagem é o Palmeiras, claro!

Corria o ano de 1951. Eu tinha 11 anos. O Palmeiras já tinha vencido o campeonato paulista de 1950 - o Ano Santo - e estava embalado por essa conquista, com um excelente plantel. Esclareço que não existia à época campeonato brasileiro; então a conquista do paulista era o píncaro.

O cenário em que vivia era o Brás, próximo ao Largo da Concórdia, onde residia com meus pais e meus avós; lá, na época, contado um a um, de cada cem colegas, 90 eram palmeirenses, alguns corinthianos e dois são paulinos.

Famílias de operários que acordavam muito cedo, jantavam pelas 18h, mas que não dispensavam a conversa entre os vizinhos após o jantar; longos papos sentados em cadeiras colocadas nas calçadas e sempre acompanhadas com alguma música. Flautas e bandolins enchiam de melodias nossos ouvidos.

O desastre da Copa do Mundo de 1950 ainda estava machucando todos os brasileiros, ainda mais que não tínhamos nenhuma grande conquista em qualquer esporte até aquela época. A Copa Rio ia ser disputada e os oitos clubes representavam o que havia de melhor no futebol mundial; seriam duas chaves - uma em São Paulo e outra no Rio de Janeiro. O Palmeiras, como campeão paulista, faria parte da sede paulista junto com a Juventus da Itália, o Estrela Vermelha da Iuguslavia e o Olimpic da França. No Rio ficariam Vasco da Gama - como campeão carioca de 1950 - o Sporting de Portugal, o Áustria Viena e o Nacional, que representava o país campeão do mundo do ano anterior - o Uruguai.

O Palmeiras, depois de duas vitórias caiu frente a Juventus, potência mundial, considerado por todos o favorito para ganhar a Copa. Mesmo assim fomos para o Rio, classificados em segundo na chave paulista para a disputa da fase final da competição. Teríamos que enfrentar O Vasco da Gama - primeiro da outra chave. Parênteses - o Vasco era a própria seleção brasileira. Dos 11 jogadores, nove eram do Vasco.

Ganhamos a primeira partida por 2x1, empatamos a segunda - 0x0 e fomos para a final. Contra quem? A Juventus da Itália; ele mesmo! A que nos tinha sapecado de 4x0 na primeira fase e no Pacaembu. Tínhamos que disputar dois jogos contra a Juventus. No Maracanã! Resultado: ganhamos a primeira de 1x0 em 18 de julho e empatamos a segunda quatro dias depois- 2x2 - gols de Rodrigues - o Tatu e de Liminha - este gol quase matou o nono Chico....e a mim.

Estávamos ouvindo a Rádio Panamericana na sala de casa. Palmeiras - campeão mundial interclubes - o primeiro! Lavamos a honra dos brasileiros. Gostaria de fazer alguns comentários sobre o público que assistia a final no Maracanã. Foram 100933 pagantes, dos quais mais de 40000 palmeirenses que se dirigiram para o Rio; foram de todo o Brasil, mas principalmente de São Paulo. Esta sim foi a maior invasão que o Rio de Janeiro assistiu. Muito maior que a invasão Corinthiana! Por quê? Porque a população era muito menor que na década de 70; porque não existia a indústria automobilística no Brasil; porque raras pessoas possuíam veículos e os meios de transporte eram muito mais precários que à época da festejada invasão Corinthiana. De resto fica o agradecimento eterno aos vascaínos que derem todo o apoio depois de terem sido derrotados pelo próprio Palmeiras...

A chegada dos jogadores palmeirenses - Fabio - Salvador - Juvenal e Dema - Túlio e Luis Villa - Lima, Ponde de Leon, (Canhotinho), Liminha, Jair e Rodrigues, mais os seus reservas se deu na Estação Roosevelt, também conhecida como Estação do Norte, próximo ao Largo da Concórdia, muito próximo de onde eu morava.

Anoitecia no dia da chegada quando o velho Chico me pegou pela mão e lá fomos nós ver a chegada dos campeões do mundo. E o que vimos? Milhares e milhares de pessoas emocionadas, cada uma com uma folha de palmeira acenando - parecia uma procissão de ramos, no domingo que antecede a Páscoa. Como nosso símbolo é o periquito, muitos pegaram galos e os pintaram de verde, levantando-os sobre a multidão e dizendo que o periquito tinha virado galo. Muitos fogos! Raros deixaram de verter lágrimas.

Como o velho Chico era muito “entrão” - ele já tinha se jogado em cima do vagão do trem quando o Sacadura Cabral tinha vindo a São Paulo para ser homenageado - depois de cruzar o Atlântico - eu e ele, ou melhor, ele e eu fomos ”varando” a multidão e consegui ficar na frente do Lima e do Luis Villa. Quase morri de emoção de novo. Dali seguimos a carreata e a “andata” por inúmeras ruas de São Paulo até o Parque Antártica e por onde a delegação passava era só festa, folhas de palmeiras, galos pintado de verde, papel picado e muitos fogos. Um verdadeiro carnaval em julho.

Bem, para finalizar, devo dizer que aquela noite eu não consegui dormir. Mas valeu! E valeu muito!


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Publicado em 10/10/2012 Felizmente em 1951 eu estava completando 6 anos de idade e nao me lembro dessa Copa Rio, mas acredito no relato do Dorival, apenas achando que 90 pct dos amigos eram Palmeirenses e uns poucos corinthianos e sao paulinos é um pouco dificil de acreditar pois eu nasci no Brás e lá me criei e no meu pedaço havia uma divisao praticamente igual de crinthianos e palmeirenses,isto no meu pedaço de ruas carneiro Leao, Caetano Pinto, rua Piratininga, etc...quanto ao comentário do amigo Pedro Luis sobre o primeiro campeonato Mundial Interclubes organizado pela Fifa, houve sim o mesmo critério que é usado hoje com a participação dos campeões continentais e o campeão do país sede que era o Corinthians campeao de 98 e 99...o Vasco era sim o campeão da Libertadores de 1998 e como fizeram/organizaram o torneio antes da decisao da Libertadores de 1999 quando o Palmeiras se sagrou campeão, colocaram o Vasco que já era um campeao conhecido para a confecção da tabela. Achei errado terem feito isso mas fizeram e entendemos que isso foi feito buscando resultados financeiros pois teriamos uma sede em Sao Paulo e outra no Rio de Janeiro...acontece que até hoje os anti corinthianos usam desse argumento da nao colocacao do Palmeiras e sim do Vasco para dizerem que o Mundial Interclubes de 2000 nao valeu nada...risos Enviado por Durval Tirol - [email protected]
Publicado em 28/09/2012 Caro Dorival Bertaglia, a grande verdade é que antes de entrarem os demais continentes na competição, acho que deveria ser respeitado o título de Campeão do Mundo nos confrontos entre os Campeões dos dois Continentes que sempre praticaram o melhor futebol, ou seja, americano e europeu, os demais continentes nem tinham futebol a altura para participar. Mas já que a FIFA entendeu em não reconhecer, quando ela resolveu fazer, que fizesse bem feito e não palhaçada como ela fez e que acabou não tendo continuidade e depois ela abraçou a chamada Copa Toyota que moralmente apontava o Campeão Mundial. Não deu certo, por que, o Mundial que ela organizou e cujo primeiro foi aqui no Brasil em 2000? Pela palhaçada, pelos acordos de bastidores. Por exemplo, naquele Mundial de 2000, vencido pelo Corinthians que tinha um senhor time, já começou tudo errado ali. Já que a sede do mesmo foi o Brasil, óbvio, o Corinthians, legítimo Campeão Brasileiro, tinha que representar o país sede, não há como negar, o país sede tinha que ser representado pelo seu Campeão. Problema é que tinha que entrar o Palmeiras no lugar do Vasco da Gama, Vasco não era nada na ocasião, Palmeiras era o Campeão da Libertadores, correto seria entrar o Corinthians que era o Campeão Brasileiro e os Campeões Continentais. Porém, naqueles célebres acordos de bastidores, o Vasco foi colocado e o Palmeiras entraria como convidado no segundo que seria realizado na Espanha, não passando de um jogo de compadres, quer dizer, o Palmeiras deu lugar para o Vasco e fechou acordo para entrar no de 2001 na Espanha. Entrando o Palmeiras no próximo, o Campeão do primeiro, no caso o Corinthians, ficaria de fora. Não foi uma autêntica palhaçada isso, o Campeão não ter participação automática no seguinte, quebrando uma norma em competições promovidas pela própria FIFA? Óbvio, como foi palhaçada, parou por aí, não teve patrocinador e o mesmo não teve seqüência, até então, fato inédito, um Campeão não ter participação garantida no próximo, só podia não arrumar patrocinador mesmo e parar, quem se dispusesse a patrocinar, claro, iria querer patrocinar jogo limpo e não palhaçada, é futebol e não circo. O que a distinta entre aspas FIFA, então, decidiu, para justificar, justificar não, tentar justificar a palhaçada? Tirou o direito do Campeão da Copa do Mundo disputar próxima, um direito adquirido desde que existiu Copa do Mundo e, no caso, o Brasil, Campeão em 2002, teve que disputar as Eliminatórias da Copa de 2006 e daí em diante ficar assim. o país que ganhar a Copa do Mundo que se prepare para disputar as eliminatórias da próxima, direito extinguido de participação automática, fim do direito adquirido. Mas, só com a FIFA, isso, ela é inigualável!!! Enviado por Pedro Luiz Boscato - [email protected]
Publicado em 27/09/2012 Na verdade, a Copa Rio de 1951 repercutiu moralmente como um Campeonato Mundial de Clubes, Palmeiras assim foi chamado, o próprio jornal A Gazeta Esportiva, tido como o maior e mais completo Jornal de Esportes do Continente, destacou o fato em letras garrafais, apontando o Palmeiras como Campeão do Mundo. Agora, o fato da FIFA reconhecer ou não, pela moral que tem aquela entidade, cada pouco aparece um escândalo, não significa absolutamente nada, ela considerar ou não, o que valeu foi a repercussão moral, o Palmeiras conquistando o título e ser proclamado Campeão do Mundo. O Secretário da FIFA, na época, inclusive, Diretor do Juventus, esteve no Maracanã representando a mesma. A FIFA tem tanta moral que o Mundial de Clubes que ela organizou aqui e não teve continuidade e que com amplos méritos o Corinthins, com um senhor time que tinha, ganhou, até hoje é contestado, a grande maioria não aceita, fato que ocorreria ao contrário, com certeza, fosse a FIFA uma entidade respeitável fizesse tudo como deveria, não a palhaçada que ela fez, o Palmeiras entraria no segundo na Espanha e o Corinthians, legítimo Campeão do primeiro, não participaria. Pra querer justificar, o que foi como querer tapar o sol com a peneira, alterou até o Regulamento da Copa do Mundo, o Brasil, campeão em 2002, teve que disputar as Elimintórias para disputar a de 2006, nunca isso havia ocorrido antes, sempre o Campeão, a exemplo da Libertadores, tinha presença garantida na próxima. Se também for dado valor ao que a FIFA proclama, o São Paulo em 92 e 93, o Santos em 62 e 63 não são considerados Campeões do Mundo, o que é um desrespeito pelas conquistas, a "distinta FIFA", distinta entre aspas, não considera. Nem por isso o São Paulo tirou do Morumbi o título de Tri Campeão Mundial, o que significa que, moralmente, a FIFA não está com nada. Aliás, no que concerne a Mundial de Clubes, tudo ia muitíssimo bem, até a FIFA não por o bico nele. Bastou ela entrar para só ter confusão, o que, aliás, com ela, só isso mesmo. Enviado por Pedro Luiz Boscato - [email protected]
Publicado em 27/09/2012 Caro Luis Boscato


Muitíssimo obrigado!
Você conseguiu ler o meu pensamento. Escreveu tudo o que eu queria escrever. A FIFA não vale o que custa. A FIFA não vale nada.
Vou acrescentar somente mais duas observações: Todas as disputas destes confrontos entre um clube da Europa e outro da América do Sul realizados no século XX que somente no Brasil é chamado de mundial, no resto do mundo sempre foi chamado de INTERCONTINENTAL. É só entrar num site de um clube que ganhou, seja Argentino, seja uruguaio, seja europeu vamos encontrar como Copa INTERCONTINENTAL.
A segunda é para anotar outrea besteira que a FIFA fez quando tentou regulamentar o tal mundial interclubes: o esquema correto seria o mesmo esquema usado no mundial de 1.951: oito clubes, três europeus, três americanos, um africano e mais um que sairia de disputas preliminares entre clubes da Ásia e Oceânia. Dois grupos de quatro clubes seriam formados e o resto igual à disputa de 1.951.
Seria muito mais representativo de um campeonato mundial interclubes. Novamente o FIFA errou e feio.
Enviado por Dorival Bertaglia - [email protected]
Publicado em 26/09/2012 Bertaglia, Sou corintiano, mas com doze anos nessa época lembro-me, muito bem de todo os acontecimentos de sua narração, e como Corintiano muito frustrado de ver o velho rival Palmeiras ostentar as cinco coroas de campeão, e o meu Corinthians a onze anos na fila sem ganhar campeonatos,(tabu que foi quebrado nesse mesmo ano
de 1951 com o nosso titulo do Campeonato Paulista)
naqueles onze anos nos os corintianos vivíamos mais ou menos as mesmas amarguras dos Palmeirenses dos dias atuais. Parabéns pelo texto, foi muito bom reviver aqueles momentos de alegria dos Palmeirenses e do futebol paulista, depois das tristezas da Copa de 50. rsrs.
Enviado por Arthur Miranda - [email protected]
Publicado em 26/09/2012 O Santos em 62/63, O S.Paulo em 92/93 e 2005, e o Corinthians em 2000 foram campeões mundiais. Agora, que o Palmeiras foi em 1951, eu desconhecia. O que sei é que a FIFA negou pedido do Palmeiras que pretendia ser reconhecido como tal por ter ganho um octogonal internacional que não contava com o maior time do mundo que era o honved da Hungria, entre outras potencias da epoca. Enviado por xico lemmi sãopaulino - [email protected]
Publicado em 26/09/2012 Dorival, eu era bem garoto, lembro bem, meu saudoso pai, inclusive, foi na Estação do Brás para ver a chegada. Mas, pelo que me consta, devido a grande rivalidade no Rio entre Vasco e Flamengo, quem torceu muito para o Palmeiras foram os flamenguistas, o Palmeiras eliminando o Vasco e conquistando o título, para eles não podia ser melhor. Inclusive, lembro bem, quando o Palmeiras foi disputar no Uruguai a decisão da Libertadores em 1968 frente o Estudiantes, não lembro se A Gazeta Esportiva ou qual outro jornal que publicou, eu li, uma ala da torcida do Flamengo lotou um ônibus e foi a Montevidéu torcer pelo Palmeiras. A torcida do Flamengo sempre teve simpatia e bem pelo Palmeiras, pode ter mudado isso depois das criações das uniformizadas, pela união das do Palmeiras com as do Vasco. Porém, antes disso, acredito que motivado e bem pelo ocorrido na Copa Rio em função da rivalidade com o Vasco, a torcida do Flamengo sempre simpatizou e bem com o Palmeiras. Seu texto foi muito bacana, trouxe, inclusive, gratas recordações. Parabéns e obrigado – abraços – Pedro Luiz Enviado por Pedro Luiz Boscato - [email protected]
Publicado em 25/09/2012 DORIVAL,o meu pai era palmeirense roxo,e levou me a ver a chegada do time com a taça rio ,foi na praca marechal deodoro,lembro do zagueiro MEXICANO, segurando a taça em cima do caminhao. Enviado por joa claudio capasso - [email protected]
Publicado em 25/09/2012 Dorival, seja muito benvindo ao site. É difícil abandoná-lo , saiba disso, porque escrver sobre São Palo e dialogar com o resto do mundo. Parabens pelo texto. O Brás, sempre o Brás, com as suas histórias, casos, mistérios, beleza/. Gostei muito do seu texto. Meus parabéns e escreva mais sobre o bairro, emoções e sobre o nosso Palestra. Um abraço. Enviado por Vera Moratta - [email protected]
Publicado em 25/09/2012 Parabéns Dorival – Temos que enaltecer a quem amamos – Linda lembraças da época do seu Palestra
Abraços ....
Enviado por José Aureliano Oliveira - [email protected]
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