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Categoria - Outras histórias Jogar poker com o Vicente Mateos... Autor(a): Anthony Mennitto - Conheça esse autor
História publicada em 30/07/2012

Éramos recém-casados e morávamos, singelamente, em um sobrado no bairro da Aclimação, em São Paulo. Minha sogra havia adquirido um pequeno apartamento no Condomínio Quisisana, na cidade de Poços de Caldas, MG. Em 1911 foi construído o "Quisisana Hotel" que em 1940 foi cognominado de "ouro dos cassinos" chegando a ser considerado também o maior e mais luxuoso hotel da América do Sul. Em 1963, o Hotel foi vendido para os frequentadores e outros interessados em manter a enorme e belíssima infraestrutura existente, garantindo definitivamente a preservação daquele lugar de rara beleza cercado por lago, árvores, fontes e muitas flores.

Não tenho dúvidas de que a maioria dos leitores conhece esse magnífico lugar ou já ouviu falar dele. Minha sogra nos convenceu a passar um fim de semana prolongado de três dias naquele local. Ela encarregou-se dos arranjos para que eu pudesse alugar um pequeno apartamento pertencente a um dos seus amigos condôminos. E assim foi. Antes do amanhecer da sexta-feira, coloquei a "matula" no carro e pé na estrada. Uma viagem agradável de cerca de 250 km. O lugar era mesmo esplêndido, suntuoso, bem conservado, mas velho.

Subimos direto para o apartamento que, em realidade, era muito menor do que a imaginação, mas cômodo. Ou seja: que se presta ao uso que é destinado. Depois daquela lavada no rosto, fomos explorar o lugar. Famintos, almoçamos no restaurante do condomínio, que por sinal estava lotado. Minha mulher foi ter comigo e com sua mãe, com a raquete de tênis embaixo do braço, rumamos para as duas quadras de saibro. Acabei por enturmar e jogar com bons parceiros. Estava calor e o suor persistia em deslizar brandamente pelo rosto. Era hora de parar. Depois do jogo, exausto, fui convidado por um dos parceiros a fazer parte de uma mesa “poker” após o jantar.

Descobri que o Quisisana é um lugar em que as mulheres vão para um lado e os homens para outro. No final do dia se encontram e trocam informações. Embaixo do chuveiro, minha mulher contou-me que havia participado de um grupo altamente divertido e alegre. Disse-me que uma delas era a esposa do Vicente Mateos, digno presidente do Sport Club Corinthians Paulista. Fiquei extremamente curioso, pois não havia visto ainda tal celebridade. Descemos para jantar. Esperamos por vaga em uma das mesas. Vi, ao longe, o Vicente Mateos jantando com amigos e sua esposa Marlene Mateos. Em meio ao nosso jantar, ela veio até nós. Dona de um sorriso inigualável e jubilosa. Minha mulher, mais que depressa, fez-me apresentar. Esta é a Marlene Mateos... Levantei-me, de um trato, para um aperto de mão. Eu acho que fiquei levemente rubro.

Marlene é uma mulher encantadora a qual incendeia as pessoas ao seu redor pelo seu charme, encanto e sua arrebatadora personalidade. Apesar de ser nitidamente mais jovem que ele, Vicente e ela formavam um casal perfeito que, aliás, eram também recém-casados. No térreo, ao lado do restaurante, havia um salão repleto de mesas redondas cobertas com feltro verde. Muitos jogavam buraco. Meu amigo do tênis chegou-se e puxou-me pelo braço. Sentamos para jogar. Ele sentou-se ao meu lado direito; era gerente de um grande banco em São Paulo. Do meu lado esquerdo, um dono de uma fábrica de cosméticos no Brás. E, sentado bem em frente, nada mais nada menos que o Sr. Presidente do Corinthians! Vicente, como eles o chamavam, e queria ser chamado. Bonachão e sorridente. Eu havia sido informado de que com o Vicente se poderia conversar de tudo menos falar sobre o Corinthians. Começamos a jogar. Poker fechado de cinco cartas. Fiquei pensando, com os meus botões, onde eu fui "amarrar meu burro". Bem, se o jogo for muito quente sempre se tem uma saída. Nunca fui jogador de poker na acepção da palavra, aliás considerava-me medíocre dessa arte. Sabia que os bons jogadores demonstravam uma cara especial (poker face). Pensava qual a "cara" a ser usada. Mas, para minha maior surpresa, o jogo corria serenamente. O Vicente, assim como os outros dois, era extremamente cuidadoso em suas apostas.

Cheguei à conclusão de que nenhum de nós estava disposto a tirar dinheiro de ninguém. Sosseguei e até mesmo comecei a sorrir. O Vicente Mateos, não fazia questão de esconder o seu jeitão simplório. Usava um linguajar até mesmo ingênuo. Trocava palavras nas frases (alguns diziam ser proposital, o que não seria difícil de ocorrer). Porém, todos nós sabíamos que ele era detentor de uma grande fortuna acumulada na construção civil pesada, mineração de pedreiras (extração de pedras e areia para construção civil). O jogo terminou. Batemos papo e ficou acertado para jogarmos novamente na noite seguinte. Na manhã seguinte não pude conter-me e telefonei ao meu pai contando tudo. Papai, corinthiano mais que roxo, quase teve um ataque de alegria. Obrigou-me a contar tudo o que eu sabia.

No dia seguinte, as coisas se repetiram; tênis, almoço, risadas e finalmente na mesa de poker. Eu agora, muito mais descontraído. Antes de partirmos a Marlene nos convidou para um churrasco na casa deles. Duas semanas depois estávamos na casa dos Mateos, perto do Parque São Jorge. Os amigos do tênis e do poker também estavam presentes. Foi uma das noites encantadoras. Voltamos ao Quisisana mais algumas vezes, mas não tivemos a oportunidade de encontrá-los. Marlene e Vicente Mateos Bathe, mais conhecido como Vicente Mattheus, são figuras inesquecíveis. Fico pensando quantas oportunidades eu já tive de encontrar e relacionar-me com pessoas muito mais importantes e interessantes que eu. Sou grato à vida.


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Publicado em 16/11/2012 Mennitto fiquei muito feliz em ler sua história porque morei no Tatuapé, mas precisamente na Rua Maria Eugenia, muito próximo a casa desse grande homem, Vicente Matheus e sua esposa a querida Marlene. Como voce escreveu com tanta propriedade eram pessoas, que apesar da riqueza e morando naquela mansão na rua Maria Eleonora, recebiam as crianças com muita alegria e até ingresso para o carnaval do Corinthias ele nos deram. Parabéns pela história que só enriquece o meu passado no Tatuapé. Enviado por Renato Ferro - [email protected]
Publicado em 01/08/2012 Menitto, você relembrou acho que o maior corinthiano do mundo, o saudoso Vicente Matheus. Era muito boa gente, várias vezes conversei com ele, gente fina era o sr Vicente Matheus, costumeiramente dava atenção a todos, era humilde, atencioso, educado, gente fina mesmo. - texto bacana - abraços = Pedro Luiz Enviado por Pedro Luiz Boscato - [email protected]
Publicado em 31/07/2012 E depois Mennitto : voce ficou corinthiano ! nao e mesmo? Pois e, estava aguardando este texto com ansiedade pois sou um dos loucos por esse time, e tudo o que se refere ao Timao chama sempre a minha atencao. Alias falando nele (Vicente Matteus)em 1980 tive a honra de ser recebido por ele na sala da presidencia no Parque Sao Jorge , levado por uma amigo da velha guarda o Osvaldo Tosini que era conselheiro do clube , pois em 1977 depois daquela longa espera enviei um telegrama em nome do presidente congratulando meu Timao pelo campeonato , e esse telegrama pelo que ele me afirmou estava arquivado com tantos outros que eles receberam na ocasiao. Ai ele ordenou seu secretario a me presentear com uma colecao da revista RACA com 13 columes que tenho guardo ate hoje. Esse foi um dos melhores presidentes que meu clube ja teve.Grande homem ,simplorio, mas um grande vencedor.Parabens ! Abracos Felix Enviado por Joao Felix - [email protected]
Publicado em 31/07/2012 Muito interessante sua estória.Meu pai foi amigo do Baby Pignatari, que voçe deve ter conhecido pois ele só jogava lá e era nosso vizinho aqui no Morumbi.Muito bem escrito. Parabens.Basófia. Enviado por Basófia de Castro Lima - [email protected]
Publicado em 31/07/2012 Mennitto, não importa pra que time vc torce, o importante nessa gostosa narrativa é sua educação e respeito por uma figura tão popular e querida pela torcida corintiana. Tratando-se de vc, não poderiamos esperar outro tipo de atenção. Parabéns, Anthony.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 30/07/2012 Menitto,os seus textos são sempre tão bem escritos que uma releitura é obrigatória. Meus parabéns! Interessante esse seu convívio com o Vicente Mateos! Mas a tua sogra estava sempre presente, né? Que coisa, meu amigo!!! Um abraço. Enviado por Vera Moratta - [email protected]
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