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Categoria - Personagens Memórias de Filomeno Autor(a): Miguel S. G. Chammas - Conheça esse autor
História publicada em 27/07/2012

Eu sou Miguel, nome que me foi dado em homenagem ao tio mais querido e que, por exigências de minha bisa, foi combinado com Salvador (homenageando o meu nono) e Gabriel (para ter a guarda eterna do Arcanjo). Nunca tive problemas com meu nome, a não ser por sua extensão, pois, justificando meu sangue oriental, sempre demando um pouco mais no custo sua grafia - tinta ou grafite em demasia.

Desde tenra idade, comecei a perceber que o Miguel Salvador Gabriel que existia no âmago do meu ser estava um tanto quanto incompleto. Havia outro ser latente dentro de minha figura, só não era fácil de identificá-lo. Um pouco mais velho, lendo as antigas revistas de minha mãe e, consequentemente, os horóscopos nelas existentes foi que descobri o meu signo regente. Eu era de gêmeos, daí, foi só dar trabalho aos meus miolos para concluir que aquele ser indefinido que me acompanhava incognitamente era a outra parte da minha personalidade, era o outro gêmeo.

Como soe acontecer com seres demasiadamente ocupados em sobreviver aos dias intensos de sua idade infanto-juvenil, da mesma forma com que desvendei o mistério de minha existência, a ele não dei maior, ou melhor, atenção. Os dias corriam céleres e eu precisava poupar minhas energias para vivê-los intensamente. E eles foram devidamente vividos. Eis que acordei um belo dia tendo plena consciência de que havia adentrado à minha juventude. Agora se fazia necessário que eu olhasse com maior atenção a tudo que por desídia ou descomprometimento eu havia deixado de analisar. Principalmente, teria de tentar entender melhor a existência daquele "gêmeo" que insistia em participar de minhas atividades rotineiras.

Pensei, pensei, repensei e, subitamente, aconteceu a eclosão. Surgiu a necessidade de colocar para fora meu ego debochado, histriônico e irreverente que, sem ter conhecimento, eu já apresentava nas minhas características pessoais. Constatado o nascimento, coube-me a missão de batizá-lo, e assim o fiz. Nascera, definitivamente, o palhaço Filomeno que durante muitos anos povoou minhas incursões circenses e teatrais. Que arrancou, por algumas décadas, estrondosas gargalhadas infantis e adultas.

Filomeno que um dia, por decisão autoritária, eu voltara a aprisionar no fundo de minha alma, permitindo apenas que seu espírito eivado de comicidade permanecesse presente, convivendo, diurnamente, com a figura indefinida e desinteressante do Miguel Salvador Gabriel. Hoje, do fundo dos meus esquecimentos, Filomeno veio à tona novamente. Mesmo sem exigir a sua caracterização especial, a sua máscara colorida e suas “gagues” irreverentes, ele voltou e tomou conta de seu espaço em minha cabeça.

Foi aí que comecei a alinhavar estas memórias de Filomeno. Memórias dos bastões de tinta para maquiagem que eram adquiridos em uma farmácia localizada no primeiro quarteirão da Avenida Rio Branco, quase esquina com a Avenida Ipiranga. Memórias dos saquinhos de Alvaiade e das latinhas de Pomada Minancora que, nas épocas de grana curta, serviam para pintar os brancos da máscara de palhaço. Da mesma forma que o lápis Crayon preto e o batom vermelho deixavam, surrupiados, o estojo de maquiagem da Da. Tereza para completar a pintura da singela máscara.

Memórias do Circo Irmãos Fernandes que o recebeu carinhosamente até o domingo em que um desalmado alcoólatra ateasse fogo em sua lona, finalizando de forma dantesca a Sessão Matinê e colocando em risco um número enorme de crianças da periferia de Barueri. Circo que nunca mais conseguiu se erguer novamente. Memórias das tardes que devidamente caracterizado foi semear um pouco de alegria e colocar sorriso nas crianças internas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e de algumas Creches e Orfanatos da cidade de pedra. Nome Memórias dos Shows no palco improvisado do Colégio Frederico Ozanan que, invariavelmente ao final, tinham a voz de um negro cantor de Vermelho que se despedia da plateia cantando: "Na carícia de um beijo, que ficou no desejo, boa noite meu grande amor...".

É queridos leitores, esse Filomeno que eu pensei estar enterrado na poeira do passado ressurge e me lembra que devo continuar nesta vida, embora sendo um velho septuagenário a brincar e colocar irreverência em tudo, sempre que possível é claro, e me lembrando mais uma vez que: "Da vida nada se leva, a não ser a vida que a gente leva...".


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Publicado em 31/07/2012 Miguel: que lindo texto. Você nos faz voltar para dentro da nossa existência e lembranças, ainda mais quando você fala do palco do nosso querido Colégio Frederico Ozanam onde eu também tive uma história de vida.
Parabéns.
Heitor
Enviado por heitor iório - [email protected]
Publicado em 31/07/2012 Parabens Miguel por mais essas memorias do Filomeno que demonstra a tua bela alma , que fazia rir sempre os menos favorecidos.Parabens por mais uma estupenda cronica.Abracos Felix Enviado por Joao Felix - [email protected]
Publicado em 30/07/2012 Bacana essa sua confissão, Migué! É sempre bom a gente expor um pouco de nosso interior... não tudo, mas um pouco...
Abraço de seu amigo Ignacio
Enviado por joaquim ignacio de souza netto - [email protected]
Publicado em 30/07/2012 Lindissima historia Sr Chammas. Mais uma vez nos emociona com pequenos retalhos de sua intensa vida
Abraços
Enviado por alexandre ronan da silva - [email protected]
Publicado em 29/07/2012 Que maravilhoso, Miguel! Só posso te dar os parabéns bastante emocionada. Quisera eu, como geminiana também, ter a tua inteligência. Um grande abraço, muito afetuoso e agradecido por partilhar conosco essa sabedoria tão refinada. Enviado por Vera Moratta - [email protected]
Publicado em 28/07/2012 Sr. Miguel ou Filomeno como queira, que história maravilhosa, adorei e vi formar em meus pensamentos enquanto lia, esse palhaço que fazia a alegria das crianças e a sua própria. Toda criança precisa ter um palhaço na sua vida, eu tenho o meu, que foi o palhaço Arrelia que me deixou uma imensa saudades das tardes em que ele me fez feliz com suas brincadeiras na tv. Que bom para nós podermos novamente ler suas histórias contagiantes..grande abraço. Maria Thereza. Enviado por Maria Thereza Marangoni - [email protected]
Publicado em 28/07/2012 Adorei saber deste seu alter ego. Não gostei do velho septuagenário.Um ser feito você representa a criança que está dentro de cada um de nós e que deve sim aflorar e seguir trazendo vida e alegria.Além de tudo escreve muito bem, é culto e talentoso. Enviado por Trini Pantiga - [email protected]
Publicado em 28/07/2012 Caro Miguel. Meu avô paterno chamava-se Michele (miquele) em Italiano e Miguel em Português, como você sabe. É um grande nome para sentir-se orgulhoso. Eu sempre tive uma especial admiração pelos palhaços. Ele foram os primeiros a nos diverter, nos fazer rir com seus gracejos, momices, pilhérias e trejeitos. Ele acaba por ser engraçado pelo fato de revelar o ridículo que todo humano carrega consigo, assim como a capacidade que todos têm de errar e de perder a qualquer momento. Fazer rir requer talento. Talento não se define, não se explica, testifica-se, detecta-se. Filomeno com orgulho. Parabens pelo seu texto original, sem artifícios. Forte abraço ao Filomeno. Anthony. Enviado por Anthony Mennitto - [email protected]
Publicado em 28/07/2012 PARABENS PELO TEXTO,FILOMENO O PALHACO ETERNO.
COMO CANTAVA PAVAROTI, RIDI PALHACO, RIDI PALHAAAACCCOOO.
Enviado por joao claudio capasso - [email protected]
Publicado em 27/07/2012 Miguel é isso aí! Hoje o circo-mór fica em Brasilia e os Filomenos somos todos nós! Parabéns e continue com essa sua juventude irreverente e sadia que você possui. Aquele abraço! Enviado por asciudeme joubert - [email protected]
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