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Categoria - Personagens Sogra Autor(a): Anthony Mennitto - Conheça esse autor
História publicada em 18/07/2012

Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Igreja quase lotada. Flores brancas em abundância decoravam a passarela carpetada de vermelho. Os padrinhos em gala, estagnados no altar em compasso de espera. Dois casais para a noiva e mais dois casais de padrinhos para o noivo. Foi difícil entender o porquê de dois casais de padrinhos para cada lado, mas minha futura sogra foi perita em convencer-me dessa assombrosa necessidade.

O burburinho inquieto dos convivas começara a ganhar volume. O "grande" evento estava prestes a acontecer. Tudo pronto para o casamento. A fé ignora a pressa. Então vamos esperar. Para completar a cena no altar lá estava eu, olhando aos quatro ventos, impaciente, trajando um fraque alugado e simplesmente ridículo, mas foi escolhido e aprovado pela futura sogra.

Eu era o noivo... A noiva, como costuma acontecer, estava atrasada. Os olhares dos presentes pareciam estar assistindo a uma partida de tênis; conferiam o altar e a porta da Igreja. Afinal, vamos ou não vamos? Os dedos dos organistas, no ar, esperavam o sinal para atacar na marcha nupcial.

Eis que, na porta da Igreja, surge a noiva acompanhada de seu pai. Vestido longo, branco, imponente. O véu impedia seu belo rosto à vista dos convidados. Depois de alguns minutos ali na espera, os olhares se concentraram para o altar a procura do padre. Foi uma grande fermata. Se existissem moscas poderíamos ouvir seu bater das asas. Silêncio. Alguns minutos mais e fez-se ouvir o “zum-zum” dos presentes. A cena tornou-se séria, mas logo em seguida pequenos risos começaram a espocar tomando conta do recinto. Mas cadê o padre? Comecei a sentir o meu fraque ficar mais apertado no corpo. Minhas mãos começaram a suar. Um dos padrinhos fez-me um gesto com os ombros. Não tive dúvidas. Segui para a sacristia. Lá estava o padre conversando com alguém. Ele não gostou da minha cara. Trocamos algumas palavras não tanto sociais. Apesar de parte da minha educação ter sido ministrada por salesianos, nunca tive sorte com padres. Juntou sua branca indumentária e seguiu para o altar.

A noiva, ao som de Mendelssohn, começou a caminhar em direção ao altar. Dez minutos mais tarde estávamos casados. Foi ofertado bolo e champagne aos 520 convidados no salão de festas anexo à Igreja. Marca da champagne, qualidade do bolo e demais salgadinhos; tudo foi detalhadamente escolhido e aprovado pela sogra. Até como cortar o grande bolo teve a produção e direção da sogra. O champgne foi servido na conformidade e ordem, pré-programada pela sogra. Em dado momento, ouviu-se um forte tilintar em um dos cristais. Era a sogra que chamara à atenção dos convidados para agradecer a presença de todos. Se eu fosse avestruz, aquele seria o momento para eu enfiar a cabeça na areia.

Um Ford-Galaxy branco de um dos padrinhos nos levou para casa. Trocamos de roupa para seguir para lua-de-mel. Procurei pelas chaves do meu carro. Não encontramos. Depois de muitas horas, ficamos sabendo que as chaves estavam na bolsa da sogra. Ela deveria ser a primeira a se despedir. Retendo as chaves do carro ela teria certeza disso. Infelizmente, não havia celular e a comunicação seguia ao compasso da época.

Quatro anos mais tarde, a contar daquela tarde na Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, nos divorciamos. Tivemos um casal de filhos. A única coisa que a sogra não participou ou dirigiu foi na concepção dos filhos. Isso se deve à minha acurada atenção na hora de dormir. Toda separação, eu assumo, é terrível e não há ganhadores com exceção da minha sogra. Ela venceu todas.


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Publicado em 23/07/2012 Crõnica da vida muito bem relatada e de forma até bem humorada.A sogra realmente teve papel decisivo antes,durante e depois do casamento.De qualquer forma,parabéns pelo relato interessante,curioso e real.UM ABRAÇO Enviado por Ana Maris de Figueiredo Ribeiro - [email protected]
Publicado em 23/07/2012 Caro amigo, infelizmente nem tudo são flores em nossa vida, a princípio a minha não queria que eu namorasse com meu marido, hoje ela quando vem a São Paulo, fica em minha casa mesmo tendo a filha morando perto de mim. As vezes ela é sistemática e quer tudo o que lhe é de direito, mas graças a Deus meu marido faz o que é melhor para nós.Hoje estou completando 40 anos de casada e ela nunca influenciou as nossas decisões.Abraços Sônia. Enviado por Sonia Maria de Paula - [email protected]
Publicado em 19/07/2012 Mennitto, o seu texto está bem elaborado-como sempre- mas que coisa triste, meu amigo!
Que pena! Uma vida a dois tem que ser especial,mágica, com sinceridade... e sem essa coisahorrorosa da atitude da sua sogra. Felizmente,a minha foi ótima e até hoje sinto muito a sua falta.Ela soube nos respeitar e recebeu,da minha parte, um carinho imenso. Um abraço, meu querido.
Enviado por Vera Moratta - [email protected]
Publicado em 19/07/2012 Pois e Mennitto voce nao pode se queixar pois se essa sua sogra fosse como a sogra do Mario (aquela sogra do conto do Arthur Miranda postada na semana passada)alem de tomar pontos na carteira de habilitacao, poderia ate ser encarcerado.E so para matar minha curiosidade essa foi a lua de mel em que voce se tornou corintiano? quando jogou poker com o Vicente Mateus que tambem estava em lua de mel? historia que voce prometeu contar aqui no Site .Como pertencentes ao bando de loucos corintianos,estamos esperando com ansiedade a sua publicacao .RsRsRs .Abracos Felix Enviado por Joao Felix - [email protected]
Publicado em 18/07/2012 Anthony, pelo menos ela deve ter pago a festa de casamento, assim penso. Brinco, mas tive uma sogra maravilhosa em tudo dava-me razão. Tenho um amigo que se separou por causa da sogra, ele chegou a pegá-la pelo pescoço ameaçando matá-la de tanta raiva que ele tinha. A espôsa só defendia a mãe e não a deixava ir morar sozinha. Ele não teve dúvidas. Divórcio. Se for se casar de novo, veja se a sogra não se chama Esperança... a última que morre... Abraço. Enviado por asciudeme joubert - [email protected]
Publicado em 18/07/2012 Anthony, sua bem humorada narrativa nos dá conta do quanto sua sogra fazia questão de ser "sogra"! Que pena que o casamento não deu certo! Pena? Talvez, sorte!
Nem todos tem a sorte de ter uma boa sogra, ou melhor, ótima como eu tive! Agradeço sempre a Deus por isso, pois, sua bondade, sensibilidade, amor e carinho fez dos seus três filhos homens muito bons e queridos por todos! Conheço algumas sogras muito boas também, mas conheço algumas que se encaixam perfeitamente no estereótipo criado para elas!
Não deve ter sido fácil para você tê-la por perto, não? Mas acabou logo!
Parabéns, como sempre, pelo excelente texto e um grande abraço Célia
Enviado por Regina Célia de Carvalho Simonato - [email protected]
Publicado em 18/07/2012 Mas que sogrinha danada Enviado por Alexandre Ronan da Silva - [email protected]
Publicado em 18/07/2012 Seu casamento foi declaradamente patrocinado pela figura onipresente (quase), da sogra. Como não sei a razão, (e nem quero), espero que ela não tenha colaborado para o desenlace. Gostei da sua crônica, Mennitto, parabéns.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 18/07/2012 Se o começo foi assim,imagine o que veio depois (abafa o caso)As pessoas mais maduras tem obrigação de respeitar as diferenças do outro e se calar perante o que não achamos certo do nosso ponto de vista.Talvez faltou maturidade para voce e a sua mulher tocar em frente sózinhos.Acho que este erro voce não comete mais,sogra é bom na sua casa e como vizita,as exeções de boa amizade entre genros ou noras e sogras são poucas... Enviado por walquiria rocha machado - [email protected]
Publicado em 18/07/2012 Puxa Mennitto! Sua sogra era bem pior que a do meu amigo Mario Luiz. Cruuuuuzes. Parabéns pelo como sempre, ótimo texto. Enviado por Arthur Miranda - [email protected]
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