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Categoria - Outras histórias Amigo da Onça Autor(a): Anthony Mennitto - Conheça esse autor
História publicada em 05/07/2012

Não sei quantos de vocês sabem a respeito da revista “O Cruzeiro” que, na época, era uma espécie de Fantástico. O famoso personagem o "Amigo da Onça" foi criado pelo cartunista pernambucano Péricles de Andrade Maranhão em 1943. Péricles e suas charges foram o carro chefe da revista “O Cruzeiro”.

Satírico, irônico e crítico de costumes, o "Amigo da Onça" aparece em diversas ocasiões desmascarando seus interlocutores ou colocando-os nas mais embaraçosas situações. A frase: “Mas afinal, você é meu amigo ou amigo da onça?” Ficou famosa nas edições da revista. Apesar da nossa vida não ser muita farta, os anos 60 foram incomparáveis. Papai tinha um Ford 1936, V-8, 60 HP, Sedan, duas portas e de cor preta como “sói” acontecer. Era um carro ultrapassado, mas ele não queria trocá-lo, pois achava que era um clássico. Afinal, era o nosso meio de transporte particular e deveríamos nos contentar com ele. Seus assentos, forrados com a casimira original, ainda estavam impecáveis. Apesar de velho e cansado, o fordéco caminhava bem, mas, nem sempre. Era temperamental. Era difícil prever o seu comportamento. O carro tinha um crônico defeito na ignição que papai nunca pode estirpar aquele pequeno “câncer mecânico”.

Isto posto, nunca se poderia adivinhar quando ele deixaria de funcionar no meio do trânsito! Parava simplemente. Empacava como um jumento. Portanto, com esse tipo de comportamento, nós o apelidamos de "Empaca". O apelido pegou forte e todos meus amigos sabiam a respeito do Empaca. Até mamãe atribuia ao carro chamando-o de Empaca.

Havia um baile formatura no Clube Pinheiros. Reunimos a "tropinha" constituída de rapazes e moças, todos amigos quase da mesma idade. Eramos nove. Três garotas e seis rapazes. Todos moradores da região de Santana. Baile de formatura era o que poderia existir de melhor, pois dançar significava abraçar as garotas. Portanto, o evento era imperdível. Porém, tinhamos apenas dois convites. O pai de uma das garotas, por coincidência, tinha uma gráfica e, por mais forte concidência ainda, sua firma era encarregada de imprimir os convites para o clube. Assim sendo, convites não foram o problema. Todos bem arrumados. Os garotos dentro dos seus "smokings" e sapatos lustrosos. As garotas, perfumadas, e bem arrumadas. Todos preparados para embarcarem no empaca, é claro. Nós, rapazes, fazíamos concorrência a um bando de pinguins, na sua aparência.

A nossa sorte era que éramos “esquios” e sem gordura, longe de se afigurar do que somos hoje. Desta forma, começamos a nos empacotar dentro do Empaca. Para a acomodação no banco traseiro usamos o sistema "sanfona". As três garotas, sentadas no banco da frente, uma no colo da outra. Eu ao volante. Uma posição até mesmo confortável, mas de grande responsabilidade em manter o empaca funcionando. Todos alegres, sorridentes, entusiasmados afoitos para chegar ao clube.

Parei em um cruzamento a espera do sinal verde. O Empaca imediatamente imitou-me: parou, empacou. Dei na partida e nada. Os rapazes já sabiam e pularam fora para empurrar. Aos socos, o Empaca resolveu funcionar, mas o carro deveria seguir andando, do contrário, iria parar novamente. Quatro dos rapazes, usando-se do estribo do carro conseguiram entrar, mas um deles ainda continuava do lado de fora correndo, tentando alcançar a mesma velocidade do impaca. Com a porta aberta, nós todos gritavamos para que ele pulasse para dentro.

Finalmente, com grande esforço, ele jogou-se para dentro do carro. Foi só gargalhada. Alguns se queixavam de estarem amarrotados. Continuamos em direção ao Clube. Estávamos perto. A nossa sorte era que, naquele tempo, o trânsito de São Paulo era outro: muito mais calmo. Quatro quadras antes de chegar, o Empaca resolveu empacar. O drama se repetiu ainda, por incrível que pareça, por mais duas vezes antes de chegarmos. Foi quando um dos amigos disse em voz alta e plena: “Mas afinal, este carro é nosso amigo ou amigo da onça?” O baile foi ótimo ao som do Sylvio Mazzuca. Alguém poderá me perguntar como foi a nossa volta às quatro da manhã. O Empaca comportou-se como gente grande: não empacou, sequer, nenhuma vez.

Para concluir, Péricles morreu de forma trágica. Na noite de 31 de dezembro de 1961, ele escreveu dois bilhetes reclamando da solidão, fechou todas as portas do seu apartamento e ligou o gás. Antes, do último gesto do criador do "amigo da onça" foi colocar um aviso na porta, à mão, "não risquem fósforos".


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Publicado em 12/12/2012 Caro Anthony, você escreveu um texto memorável, pena que tenha sido trágico. Quantas coisas você poderia nos contar, lembrando sempre que o objetivo do nosso site, entre outros é resgatar a auto-estima dos paulistanos e você tem muito a contribuir, com suas historias de vida. Mãos à obra. Aguardamos novos textos. Enviado por Clesio de Luca - [email protected]
Publicado em 08/08/2012 Cheguei por aqui por suas crônicas sobre o Dick. Queria saber se Zean havia sido a última esposa. Já li umas 6... Paro por enquanto nesta, pois lembrar da morte de Péricles sempre me emociona. Que delícia ler seus textos, volto no tempo, em minha infância. Comprávamos Cruzeiro e Manchete. A primeira página a ser lida era a do Amigo da Onça. Um abraço, voltarei sempre... Enviado por Lucia Helena Marques da Silva - [email protected]
Publicado em 07/07/2012 Bela e bem elaborada crônica partindo do trabalho do genial Péricles,o "Amigo da Onça",da Revista:O Cruzeiro.A partir dali toda a vida e aventura de um FORD.Parabéns pelo humor do texto e sua impecável estruturação.Grande abraço! Ana Enviado por Ana Maris de Figueiredo Ribeiro - [email protected]
Publicado em 06/07/2012 Mennitto,os seus textos são gratificantes, simples e profundos, ao mesmo tempo. Você retrarou muito bem o como funcionavam as famílias daquele tempo: o meu pai também teve um fusquinha que dava trabalho. O bonito foi o retrato dos seus amigos, as risadas , essa coisa maravilhosa chamada vida. Quanto ao fim do "amigo da onça".. infelizmente a escolha foi péssima, mas que esteja em bom lugar. Um grande abraço, meu amigo. O seu texto foi lindo demais. Enviado por Vera Moratta - [email protected]
Publicado em 06/07/2012 Conheci Péricles Maranhão, meses antes de sua morte. Veio com uma turma de desenhistas do Rio, para um programa que faríamos na TV Excelsior, Brasil 61, com Bibi Ferreira. Muito calado e melancólico, já prenunciava seu fim. Enviado por Luiz Saidenberg - [email protected]
Publicado em 06/07/2012 Ótimo, texto Mennitto, e que bom recordarmos do grande Péricles e sua grande criação O AMIGO DA ONÇA, em casa o pessoal comprava o Cruzeiro, principalmente pelo interesse de todos por personagem. E o que vocês fizeram com o Empaca da Onça. rsrsrs. Enviado por Arthur Miranda - [email protected]
Publicado em 05/07/2012 Anthony, meu Pai chamava-se Péricles, adorava ver as piadas e também teve um fordeco 36 ou 37, não sei ao certo, mas não empacava, não! risos. Agora essa de imprimir convites... foi boa...vc entendeu...risos. Um grande abraço e parabéns pela excelente narrativa. Enviado por asciudeme joubert - [email protected]
Publicado em 05/07/2012 Parabéns pelo texto! É gostoso ler textos bem humorados, não?
A minha sogra comentava sempre sobre o Amigo da Onça, dizendo que, no seu último ato, provou que não o era!
Esses bailes de formatura eram o máximo! A preparação era o mais interessante! As meninas se encontravam na casa de uma delas e alá se arrumavam! Era uma farra só!
Abraço Célia
Enviado por Regina Célia de Carvalho Simonato - [email protected]
Publicado em 05/07/2012 Mennitto, eu também tive um "Ford V-8" nos anos 50...somente que o meu era "um 46"...porém tinha o mesmo defeito, desse do seu Pai...O "problema" dos "Fords" era o Distribuidor...tinham um "tal de platinado" que esquentava e então, de fato os mesmos "empacavam" e só voltavam a "funcionar", quando esfriavam...o segredo era sempre andar com um pano molhado em cima deles...quando eu saia de casa, levava sempre "pedras de gêlo" em uma vasilha, juntamente com mais um pedaço de pano, para a eventualidade do aquecimento do tal distribuidor...e dava sempre certo. Saudades dos bailes de formatura, especialmente no Club Homs. onde no início dos anos 50, íamos de automovel e estacionavamos, na "própria av.Paulista" (que ainda não estava alargada) aliás, esse "alargamento" acabou com todo aquele jardim da entrada do Club Homs...para quem não lembra ou conheceu, a entrada do Club Homs, era pelo palacête onde depois se instalou um "Mcdonalds" da vida...e a entrada do Homs, passou a ser pelo predio ao lado porém, o salão de baile continuou (e continúa)sendo o mesmo... Abraços "santanenses" - Flavio Rocha Enviado por Flavio Rocha - [email protected]
Publicado em 05/07/2012 Anthony. O que para alguns e com referência aos modelos da Ford, possa parecer uma 'sídrome', comigo nunca aconteceu. Tive vários modelos Ford e nenhum 'empacou'. Deve ser pela 'jovial' idade dos modelos que possui. Já, meu pai, sofreu com um certo Fiat 'Topolino' que apelidamos de 'Maestro' pois, a cada esquina ou cruzamento era um 'consêrto', com certeza. Abraços. Enviado por Nelson de Assis - [email protected]
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