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Categoria - Nossos bairros, nossas vidas Achados e Perdidos Autor(a): Anthony Mennitto - Conheça esse autor
História publicada em 25/06/2012

Eu me lembro, voltando do cinema e tendo assistido a última sessão, da meia-noite, caminhando pelo Viaduto do Chá, esgueirando-me das águas que jorravam do caminhão pipa da prefeitura. Na madrugada eles lavavam as principais ruas do centro. Acreditem ou não.

Às vezes, eu perdia o último ônibus e o jeito era voltar a pé. Era divertido ver a cidade quase adormecida. Podia-se caminhar despreocupado, sem temer coisa alguma. Não era raro encontrar um cachorro "de rua". Tomava-se cuidado para não ser mordido.

Como era maravilhoso jantar na boate do último andar do Hotel Excelsior. Boa música, boa comida e excelente vinho. No térreo, ao lado da entrada do cinema, havia uma loja de artigos de pintura. Eu perdia, ali, no mínimo uma boa meia-hora admirando as pinturas e todos os artigos de desenhos.

Quando papai nos levava para jantar fora, o que era raro, mamãe ostentava suas melhores joias. Era seguro. Eu comprei, com muito esforço financeiro, um relógio (Universal Geneve) na loja Bento Loeb na Rua Boa Vista. Sua pulseira era de ouro. Paguei os “olhos da cara”, mas valeu a pena para meu ego. Podia exibir-me. Assaltante, nem pensar.

A cidade tinha sotaque paulistano e a música era da melhor qualidade. Sem contar que os cantores (as), quase todos, eram acompanhados por orquestras. Longe dos cavaquinhos de hoje. Aonde foram parar todos eles? As orquestras? Os concertos? E os shows internacionais do Paramount?

Eu tinha uma namorada na Aclimação. Ficávamos, no mais das vezes, até altas horas conversando e namorando. Para pegar o elétrico de volta eu caminhava até o Largo da Aclimação. Eu esperava quase uma hora até ele chegar. Ficava ali, sozinho, em pé encostado, na árvore. Não tinha alma viva nas ruas. Era seguro e tranquilo. Apenas os morcegos a esvoaçar ao redor.

Existia uma loja na Av. Ipiranga quase na esquina com a Barão, especializada em tecidos para ternos. Uma vez, enfiei a mão no bolso, sem piedade, e comprei um corte de casimira Inglesa. Mandei fazer um terno com colete e tudo mais. Alfaiate. Alguém se lembra disso?

Estou à procura da cidade romântica, pacífica, segura, limpa, sem grades, sem assaltos, sem quadrilha de arrastão, saudosa e encantadora de nome: São Paulo. Se alguém souber do seu paradeiro, por favor, informe. Obrigado.


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Publicado em 24/11/2012 Essa cidade, Sr.Mennitto, mora dentro do meu coração. Enviado por Paulo Giordano Neto - [email protected]
Publicado em 28/06/2012 Uma bela crônica de saudades da antiga e tranquila São Paulo de idos tempos.Tempos de música que marcaram época,dos bailes orquestrados,da segurança para sair às ruas,das recordações que saltam aos nossos olhos.Um abraço e parabéns por mais esta encantadora história.Ana Enviado por Ana Maris de Figueiredo Ribeiro - [email protected]
Publicado em 28/06/2012 O senhor nos brindou com mais um excelente e brilhante texto! A riqueza de detalhes, a variedade de informações, tudo nos leva a passear com o sr. por esses lugares que deviam ser incríveis!
Essa cidade idealizada e romântica poderá ser encontrada em seu íntimo, em suas belas lembranças...Sempre digo que saudade é bom porque nos leva de volta às coisas boas do passado (pois não temos saudades de coisas ruins). Dizem que não devemos reviver lembranças dolorosas, ruins porque sofremos tudo novamente então, se recordarmos coisas boas concluímos que seremos felizes de novo!
Abraço Célia
Enviado por Regina Célia de Carvalho Simonato - [email protected]
Publicado em 26/06/2012 Sr. Mennitto, o meu pai também contava essas experiências, das delícias de São Paulo, do centro, do Ipiranga. Eu ficava imaginando quão prazerosa devia ser a vida naquela situação. Mas, felizmente, o meu querido colega das letras conheceu e viveu intensamente essa experiênia. Parabéns, meu amigo. O seu texto, as suas emoções me fizeram ver uma beleza muito especial da minha cidade, que os problemas fizeram questão de apagar. Um abraço e meus parabéns pelo texto exemplar. Enviado por Vera Moratta - [email protected]
Publicado em 26/06/2012 Pois e Sr Mennitto a gente realmente vive de lembrancas , mas esses eram outros tempos quando a populacao de Sao Paulo era diminuta comparando com a de hoje.Essa cidade que o Sr procura nunca mais vai existir,portanto ninguem vai lhe informar sobre o seu paradeiro.Naquela epoca em que o Sr. andava despreocupadamente,pelas ruas nao existia ainda a droga barata chamada crack que qualquer menino de rua tem poder aquisitivo para comprar.
Essa e uma realidade do novo seculo.O seculo que nos trouxe a nova tecnologia chamada Internet que
chegou e todos nos sabemos usar alguns para o bem outros para o mal, como os pedofilos que vivem atras de inocentes criancas.Fazendo uma comparacao com uma capital da europa (Madrid) eu andava com uma corrente de ouro no pescoso quando uma senhora de uma loja me advertiu dizendo Sr.isso se ve muito bonito mas qualquer um lhe arranca esse cordao e lhe vai machucar o pescoso.Isso a nao muito tempo.A violencia esta em todo lugar.Abracos Felix
Enviado por Joao Felix - [email protected]
Publicado em 25/06/2012 Acho que essa cidade não existe mais infelizmente Enviado por Alexandre Ronan da Silva - [email protected]
Publicado em 25/06/2012 Mennitto, por favor pare de cutucar essa mesma saudades dentro do meu peito. Como é bom ler seus textos. parabéns. Enviado por Arthur Miranda - [email protected]
Publicado em 25/06/2012 Parecia filme preto e branco. Gostei. Enviado por Pedro Cardoso - [email protected]
Publicado em 25/06/2012 Ai meu Deus!
Que mania de atiçar minhas saudades com essas suas lembranças.
A loja de tecidos que lhe vendeu o "pano" para o terno era, nada mais, nada menos, que a
R. Monteiro.
Que tempos bons eram aqueles!
Enviado por Miguel S. G. Chammas - [email protected]
Publicado em 25/06/2012 Anthony. Eu sou mais jovem que essa época. Mas, lembro-me de muitas das coisas que ainda estavam em seu lugar e descomprometidas com a violência. Papai ainda me conta sobre a nossa São Paulo de antigamente. Li seu texto para ele. Ficou muito feliz pois disse conhecer os lugares mencionados por você. Alias, ele comprou algumas jóias para Mamãe na Bento Loeb. Sr. Alexandre Ronan da Silva, você escreveu: "Acho que essa cidade não existe mais infelizmente" (sic). Na realidade, eu acho que você te razão, mas acho também que a cidade descrita pelo Anthony ainda existe e muito forte dentro dos nossos corações; em nossa memória e bem lá no fundo da nossa alma. Adoro ler seus textos todos cheios de vida e bem escritos. Parabéns e um forte e carinhoso abraço. Cassandra. Enviado por Cassandra Pierotti - [email protected]
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