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Categoria - Nossos bairros, nossas vidas Memórias de uma dedeira vermelha Autor(a): Miguel S. G. Chammas - Conheça esse autor
História publicada em 21/06/2012

Minhas memórias pareciam ter se extinguido. Nenhuma inspiração vinha me fazer voltar a escrever. A melancolia literária me abatia sobremaneira. Comecei a pressentir o fim de minha curta carreira de escritor. Não havia nada que pudesse me ajudar a impedir esse fim que me surgia. Que pena!

Outro dia, buscando a recuperação de estressantes momentos, fui com minha fiel e dedicada companheira respirar os ares das terras montanhosas de Minas Gerais. Não busquei paragens longínquas, fui pertinho, no encontro das terras paulistas com as mineiras. Extrema foi meu destino. Já devidamente instalado, num momento de paz, lancei meu olhar pela janela e reconheci, no primeiro plano da vista panorâmica, uns mamoeiros de quintal, devidamente carregados de frutos em fase de maturação.

A cena, por demais tranquila, ativou meus sentimentos e me remeteu ao passado distante que eu pensava já estar morto e esquecido. Fechei os olhos buscando prender na retina a imagem aparecida e obtive sucesso na empreitada, a imagem se fixou na minha memória. Percebi que estava no quintal da minha casa, na Rua Augusta.

Fixei o olhar e vi que olhava de frente, no patamar das escadas que ligavam a cozinha ao quintal. Vi, do lado direito, a velha goiabeira que estava sem frutos e me entristeci, pois gostaria de saboreá-los. Do lado direito vi o canteiro de ervas de minha tia e de minha mãe, com a salsinha, os coentros, a hortelã verdinha, para ser usada nos deliciosos kibes que ela fazia. Vi o buraco no muro que ligava nosso quintal ao quintal do Dr. Manfredo e que servia de passagem para o Veludo (nosso gato de estimação). Vi, por toda extensão do quintal o fio de arame que servia de varal para as roupas lavadas, bem como a grande taquara que servia para alçar o varal quando carregado de roupas. Vi, ao fundo, em primeiro plano o gramadinho onde minha mãe e minha tia, quaravam, ao sol, as roupas brancas por elas esfregadas e lavadas, ao final desse gramado, deparei-me com a touceira de hortênsias carregadinha de flores azuis e, ao lado dessa touceira, uns poucos pés de mamoeiros com seus frutos pendurados, aguardando para serem colhidos.

Vi três meninos que se aproximavam dos mamoeiros. Fixei melhor o olhar e reconheci. Eram eles o Miguel, o Carlinhos e o Robertinho, vinham em surdina para, possivelmente, aprontarem mais uma de suas traquinagens. Eis que o Miguel pega a taquara do varal e se aproxima dos mamoeiros, quase lá chegando quando foi paralisado por um grito bem grave: -“Miguelzinio" larga essi bambu habibe, num fais isso qui ta pensado!”. Enquanto fala, o Sr. José Chammas, o avô "Gido" dos moleques, se aproxima, retira a taquara das mãos do Miguel e complementa: “- Essas frutas são minhas e só depois de colhidas vão ser de vocês!”

Aproxima-se do mamoeiro que ostenta a maior fruta e balança o tronco para derrubar a fruta. O mamão, que estava pendurado, se solta e vem em vertiginosa velocidade ao encontro das mãos do Sr. José. Um pequeno vacilo e pronto, o mamão para nas mãos do Sr. José, ou melhor, para encravado no dedo polegar direito do Sr. José.

“-Ai!” Grita ele balançando a mão para se livrar da fruta. Livra-se dela e percebe que com ela foi-se também a unha do dedo polegar. Do quintal para a farmácia não foram gastos mais de 10 minutos, a família Chamas foi em comitiva, o ferido, a Tia Neide e o Miguel, grande companheiro do avô Gido.

Curativo feito, serviço pago, ouve-se do farmacêutico: “- Seu José, nada mais posso fazer, temos de aguarda que uma nova unha cresça em substituição à unha arrancada. Recomendo cuidado e muita higiene para evitar contaminações. Para facilitar recomendo que use esta dedeira de borracha.”

Foi falando e calçando no Sr. José uma dedeira de borracha vermelha. Abri os olhos e percebi que tinha um sorriso maroto contornando meus lábios, sorriso este motivado por um pensamento um tanto quanto malicioso pela constatação admitida. A tal dedeira, da forma com que o farmacêutico aplicara em meu avô era a primeira e horripilante versão dos atuais preservativos (camisinhas), provando de forma absoluta que tudo pode ser modificado e melhorado.


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Publicado em 25/06/2012 Caro Miguel, sempre achamos novas histórias motivadas pela imaginação fecunda da mente. É o seu caso, um relato muito bem descrito com uma pitadas de muito bom humor. Abraço Grassi Enviado por J Grassi - [email protected]
Publicado em 22/06/2012 Miguel, a gente nunca perde o jeito, só fica um pouco sem saber bem, como vai falar. Ainda bem que hoje, as "dedeiras" servem para fins mais prazeirosos, digamos assim.... Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - [email protected]
Publicado em 22/06/2012 Que bela crônica com bastante humor.
Parabéns
Enviado por Luiz Carlos MArques- Luigy - [email protected]
Publicado em 21/06/2012 Amei sua história.
Continue escrevendo...
Enviado por Benedita Alves dos Anjos - [email protected]
Publicado em 21/06/2012 Tá vendo, Miguel? Vc estava só com falta de motivação; isto tb acontece comigo. Foi só ver mamões no pé e lá vem uma lembrança de infância: seu avô Gido num momento de quase tragédia, ou mais para comédia. E a dedeira, relíquia de tempos idos, surge para complicar a cena. Abs. Enviado por Luiz Saidenberg - [email protected]
Publicado em 21/06/2012 Suas estórias são sempre bem humoradas! Parabéns! Abraço Célia Enviado por Regina Célia de Carvalho Simonato - [email protected]
Publicado em 21/06/2012 Bela historia Miguel, com um sensual final, afinal. Li a mesma com carinho muito especial, e ainda muito eufórico com o resultado do jogo entre meu time e o Santos.kkkk Parabéns. Enviado por Arthur Miranda - [email protected]
Publicado em 21/06/2012 Viajei maravilhosamente em suas lembranças...Sua veia artistica aflorou novamente. Tá vendo, é só aguçar a lembrança.
Parabéns
MC.
Enviado por mary clair peron - [email protected]
Publicado em 21/06/2012 Viajei maravilhosamente em suas lembranças...Sua veia artistica aflorou novamente. Tá vendo, é só aguçar a lembrança.
Parabéns
MC.
Enviado por mary clair peron - [email protected]
Publicado em 21/06/2012 Ótima crônica,uma viagem ao passado através do presente.Lembranças das brincadeiras e cenários inspiradores da infância.Registro dos momentos marcantes em família e da dedeira do avô.Belo registro! Enviado por Ana Maris de Figueiredo Ribeiro - [email protected]
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