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Categoria - Outras histórias Festa "Joanina" Autor(a): Mario Lopomo - Conheça esse autor
História publicada em 18/06/2012

Era assim que falavam muitas pessoas quando chegava o tempo das festas juninas, a partir do início do mês de Junho próximos aos dias de Santo Antônio, São João e São Pedro.

Era um tempo gostoso em que se podia soltar balão sem que nada de ruim acontecesse. Era um tempo em que não havia tantas habitações e nem se pensava que uma residência pudesse ser incendiada por uma tocha de balão. Era o início dos anos 1950 e o céu ficava forrado de balões logo no começo do mês de Junho quando eram erguidos mastros de uns 10 metros de altura formando um triângulo, contendo as faixas com as efígies de Santo Antônio, São João e São Pedro.

As fogueiras eram feitas sem prejuízo porque as ruas eram todas de terra. O dia de Santo Antônio, mesmo sendo considerado o Santo Casamenteiro, ainda apresentava uma festa tímida, sem muita fogueira. O forte desse dia era as missas na Igreja de Santo Antônio do Pari, no bairro com esse mesmo nome, onde eram e ainda é distribuído até hoje os pãezinhos de Santo Antônio. É, esperança de casamento para muitas moças.

Os bailes de Santo Antônio eram os mais concorridos, principalmente quando esse dia caía num sábado ou domingo, e foi em um desses bailes que aconteceu uma grande tragédia no salão de baile do clube Elite 28, situado na Rua Florêncio de Abreu 259, no centro da cidade de São Paulo em 1953, onde morreu muitas pessoas (56) por causa de um incêndio.

Agora, quando chegava o dia de São João, fervia. Não tinha uma casa que não tivesse uma fogueira ou alguém que não soltasse um balão ou bombinhas e fogos “Caramuru” de um tiro canhão ou de três tiros.

“Fogos Caramuru’, dizia a propaganda, eram aqueles que não davam “Chabú”. O dia de São João representava a festa num todo e, por isso o povo dizia que era Festa Joanina. O certo é Festa Junina, pelo fato de ser no mês de junho.

O dia de São João coincidia com o aniversário da minha mãe. Aí a festa era maior. Soltávamos muitos balões, pois meu irmão José era o baloeiro da família desde pequeno. Meu pai comprava muitos fogos, bombinhas e biribas, fósforos de cor e estrelinhas para as crianças. Já os adultos, gostavam mesmo era dos caramurus de três tiros, ou de um tiro canhão, que quase estouravam os tímpanos.

Lenha para a fogueira a gente já vinha guardando há muito tempo. Começava com troncos de eucaliptos de um metro e meio de comprimento, com uns 20 cm de diâmetro que as construtoras derrubavam no Brooklin para a construção de casas. Quando chegava o dia de São João, os troncos já estavam bem secos. Colocávamos de dois em dois, uns ao contrário dos outros até que ficavam em uma altura de dois metros. Por dentro, muitas caixas de frutas de pinho que pegávamos na feira e que era fácil de queimar.

Na hora de acender a fogueira, um litro de álcool e um fósforo eram o bastante para, quase, queimar a casa. Soltamos um balão charuto de muitas folhas, que subiu como um foguete devido ao excesso de breu que meu pai colocou na tocha. Berto, para comemorar, soltou um caramuru. Só que ele errou o alvo e o foguete estourou bem no meio do balão. Meu pai engoliu seco, porque era o filho de Dona Laura, a quem ele respeitava muito. Mas que foi de propósito, isso todo mundo sacou.

Berto era um gozador, quando dona Laura foi levar quentão em canecas de louça (que era outra superstição), para puxar o saco do São João e conseguir dividendos futuros, todos devolveram a caneca. Berto, que sempre foi engraçadinho, jogou no poste e ela se espatifou. Ainda bem que a caneca era da mãe dele.

Veio à hora da quadrilha. Era uma quadrilha de pessoas inocentes, diferente das quadrilhas de hoje, que são iguais as de Brasília. Uma parte veio da igreja, a turma treinada pelas carolas, e outra parte da escola treinada pelas professoras. "Balance", "olha a cobra", "sai de baixo", e por aí ia.

Na vitrola RCA Victor, um disco 78 rotações. Aquelas bolachas pretas tocavam uma música gravada por Francisco Alves. "Ó Rosa Maria, venha pular a fogueira, que a noite tá fria, levante dessa cadeira. Pega um foguete e um busca pé, venha ajudar a soltar balão. Rosa Maria não faça chiquê, que é noite de São João".

A vizinha do lado, a dona Iésse e seu marido, Seu Alfredo, família de italianos, sempre estavam na festa. Eram vizinhos “habitues” de casa.

Estavam no apogeu da dureza porque seu filho, Afonso, tinha pegado o dinheiro que estava escondido no armário, dentro da lata de arroz, para jogar bilhar no Bar Central da Rua Joaquim Floriano. Por isso, foram “filar a bóia” lá em casa.

Seu Alfredo, não sei por que cargas d’água, sempre chamava eu de Mário Cagarósso era muito gozado. Contava muitas histórias da baixa Itália. Meu pai, também descendente de italianos e meio chumbado, morria de rir. Seu Alfredo, visivelmente com a cara cheia, cantava alto assim, no estilo de Vicente Celestino: “Má porca Itália, como é bela, essa merda, nessa abertura distincione!!”

Quando chegava a meia noite, tinha aquelas pessoas que iam pisar descalços nas brasas. Segundo elas, era uma simpatia. E faziam com fé, que não queimava e nem doía a sola do pé. E tinha gente que pisava mesmo, mas só depois que tiravam as batatas doces que eram colocadas debaixo das brasas, para assar.

A coisa estava avançando pela madruga e só parava quando seu Antonio frangueiro, um português invocado que era feirante, veio gritando com um "berro" na mão: “Vamos acabar com essa bagunça. Preciso trabalhar amanhã!”

Todos entraram, assim acabou a festa. Como se dizia naquele tempo: ”acabou a história e morreu a Vitória”.


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Publicado em 17/07/2012 Adorei sua história, Mario. Sou apaixonada por festas juninas.
Mas ofinal foi hilário, ainda que não houve briga, se fosse hoje já sairia tiroteio...hhhhh
Enviado por Mariza - [email protected]
Publicado em 18/06/2012 Caro Lopomo: bela história, como sempre. Só para constar: algumas pessoas trocavam o "junina" por "joanina" por estas se referirem às festas de São João. Abraço grande. Enviado por Edmilson Mário Jacoud - [email protected]
Publicado em 18/06/2012 Realmente, as festas antigas eram diferentes para não dizer melhor, hoje em dia temos muitas festas no mes de Junho, que são as juninas de Junho, porem para fugir da concorrencia muitas igrejas e escolas realizam as festa julhinas de Julho e aqui no meu bairro houve a festa maioinas de Maio, também para fugir da concorrencia, sinais dos tempos parabéns,Estan Enviado por Estanislau Rybczynski - [email protected]
Publicado em 18/06/2012 Prezado Mário: seja joanina, seja junina o que interessa é que essas festas são maravilhosas e as de antigamente nos deixa muita saudade.
Parabéns.
Enviado por heitor Iório - [email protected]
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