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Categoria - Outras histórias Memórias acrobáticas Autor(a): Miguel S. G. Chammas - Conheça esse autor
História publicada em 21/05/2012

Corria o ano de 1957. Este "escrevedor" de memórias vivia seus 17 anos e torcia para a chegada do ano de 1958 quando então, com a maioridade completada, poderia ingressar em cinemas que tinham na programação filmes proibidos a menores de 18 anos, frequentar ambientes noturnos mais sofisticados, exibir seus dotes de dançarino para uma nova plateia. Enfim, ver-se liberto dos tabus da menoridade.

Certa noite, reunido com os demais membros dos Duques de Piu-Piu, foi decidida a saída para o jantar em uma churrascaria no centro de Sampa. A escolha recaiu na Churrascaria Guacyara, estabelecida no primeiro quarteirão da Avenida Rio Branco, na calçada do lado direito de quem ia do Largo Paissandu em sentido à Avenida Ipiranga.

Escolha feita, nos dirigimos para a referida casa de pasto. Saímos da Rua Manoel Dutra (nosso ponto de reunião era o Bilhar Rex), descemos a Rua Santo Antonio, entramos no Viaduto Major Quedinho, atravessamos no cruzamento da Rua São Luiz com a Rua da Consolação e a Rua Martins Fontes e entramos na Rua Xavier de Toledo. Alcançamos a Praça Ramos de Azevedo e nos preparamos para entrar na Rua Conselheiro Crispiniano quando percebemos uma movimentação fora dos padrões daquela região. Pesquisando um pouco mais percebemos que algumas pessoas desenvolviam um trabalho manual inusitado para o horário.

Lógico, jovens e curiosos, fomos averiguar, de perto, o que de fato estava acontecendo. Vimos que a causa de toda a movimentação era o trabalho de alguns artistas estrangeiros que preparavam a cena para algumas apresentações acrobáticas que seriam realizadas nas noites seguintes. Eles estavam promovendo a instalação de cabos de aço que iriam atravessar o Vale do Anhangabaú no topo do Edifício Matarazzo (Praça do Patriarca) até o prédio da Light (hoje Shopping Center Light).

Desnecessário dizer que nossa curiosidade adiou por algumas horas o alvo de nossa jornada, o jantar da noite. Ali nos quedamos apreciando, junto com mais uma centena de transeuntes noturnos, as peripécias que se fizeram necessárias para por a termo a missão daqueles artistas.
Ao mesmo tempo em que assistíamos a instalação dos cabos de aço, obtínhamos informações a respeito do espetáculo. Soubemos então que o espetáculo seria de acrobacia sobre os cabos de aço e, consequentemente, a travessia da trupe "Zugspitzartisten", em espetáculo único de equilibrismo.

Soubemos mais ainda, os artistas iriam precisar de colaboradores para a venda de flâmulas, lembranças, fotos e outras bugigangas e sustentá-los com a renda auferida. Eu, mais descolado e habituado a tais expedientes rapidamente me propus a fazer parte desses colaboradores e, enquanto arrecadava contribuições, além de ganhar uns trocados, veria o espetáculo de locais privilegiados. Ledo engano. Não existiam locais privilegiados. A afluência de publico foi tão grande, (chegava ultrapassar a casa do milhar a cada noite), que nós, os colaboradores, tínhamos que fazer várias acrobacias para assistir aos números artísticos e cumprir com nossa obrigação de vender as tais bugigangas.

A cada apresentação, nós nos transformávamos, também, em acrobatas do solo, para não sermos esmagados pela turba, ou enganados por espertinhos. Os ganhos daquela empreita foram bastante pequenos se comparados aos riscos que corremos, mesmo porque tínhamos que, ao final de cada apresentação, darmos conta de todas as quinquilharias que nos haviam sido entregues e do valor das mesmas quando vendidas.

Dinheirinho ganho com suor acrobático!


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Publicado em 25/05/2012 As acrobacias, quem as fazia eram vcs, Miguel, sem nenhum espaço pra trabalhar no "Le Solel". Parabéns, Chammas.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 23/05/2012 É dura a vida do artista. Enquanto, nos céus, os astros faziam piruetas, vocês faziam no chão suas acrobacias e contorsões, prenunciando o que seria vida dali para frente. Enviado por Luiz Saidenberg - [email protected]
Publicado em 23/05/2012 Texto interessante, eu também estive assistindo mas foi alguns anos antes, talvez no início dos anos cinquenta, na Praça da Sé.Era deslumbrante e assustador. Enviado por Trini Pantiga - [email protected]
Publicado em 22/05/2012 Caro Miguel, eu também cheguei assistir esses malabaristas que se apresentaram para atravessar do prédio do antigo Matarazzo até a Ligth numa apresentação perigosa. Se não estou enganado essa travessia era feita ao som da musica "O homem do Braço de ouro". Boas lembranças! Um abraço Grassi Enviado por J Grassi - [email protected]
Publicado em 22/05/2012 Exatamente Grassi, a música de gfundo era essa mesmo. Valeu a lembrança. Enviado por Miguel S. G. Chammas - [email protected]
Publicado em 22/05/2012 eu lembro dos malabaristas,era uma coisa impressionante a altura do cabo de aço Enviado por joao claudio capasso - [email protected]
Publicado em 22/05/2012 Belas e interessantes memórias acrobáticas com perfeita definição do que foi o espetáculo e a atuação de vc e seua amigos na venda das quinquilharias.Ótima história! Um abraço! Enviado por Ana Maris de Figueiredo Ribeiro - [email protected]
Publicado em 21/05/2012 Miguel, me lembro bem das apresentações desses artistas pois trabalhava na rua 7 de Abril nas Lojas Derby (uma loja de artigos masculinos) de propriedade do patrão muito querido chamado sr Basile e o seu cunhado o contador Sr Alvinho, pessoas que jamais esqueci até hoje, Alguns anos antes eu já havia assistido esse pessoal se apresentarem na praça da Sé. com os cabos colocados no alto do prédio do Cine Sta. Helena sendo que o mesmo atravessava toda a Praça e ia até a Rua Benjamim Constant, Foi um espetáculo fascinante e que sempre atraiu um enorme publico, de curiosos que iam para assistir os artistas, ou prá ver os ditos cujos caírem despencando lá de cima. rsrs. Mas que era uma grande atração. parabéns. Enviado por Arthur Miranda - [email protected]
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