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Categoria - Outras histórias Memórias homeopáticas Autor(a): Miguel S. G. Chammas - Conheça esse autor
História publicada em 07/05/2012

Natal! Época na qual nós, componentes do batalhão da melhor idade, comovidos, buscamos nas cinzas do passado motivos que nos fizeram viver marcantes alegrias ou grandes decepções. São pequenas lembranças que, solitárias não mereceriam um texto épico, mas juntas, em doses homeopáticas poderão render uma boa descrição e, consequentemente uma boa leitura. Esta fórmula, acredito, renderá também bons resultados. Vamos a ela!

Natais das décadas de 40 e50, eu não posso afirmar ser oriundo de uma família bem posicionada financeiramente, éramos, por assim dizer, remediados, e como tal deveríamos dispúnhamos de parcos recursos para gastar. Tínhamos em uma caixa, guardada no porão da Rua Augusta, várias bolas de vidro colorido lindas e frágeis, embrulhadas, uma a uma, em pedaços de jornal quando do desmonte da Arvore de Natal do ano anterior.

No inicio de cada mês de dezembro, minha mãe conseguia, a custo de suas rendas advindas de bordados que ela fazia por encomenda, comprar um belo pinheiro. Entregue a arvore símbolo natalino, íamos todos, mãe, tias, eu, meu irmão e meus primos, iniciar a tarefa de decoração.
Com papel celofane colorido encapávamos a lata onde a arvore havia sido plantada dando-lhe uma aparência mais agradável. Depois, com todo o cuidado, desembrulhávamos cada um daqueles pacotinhos de jornal e acondicionávamos as bolas coloridas na mesa da sala. Algumas, que pena, quebravam e eram motivos de broncas ou de gestos de conforto, dependendo do motivo que gerava o incidente.

Finda a tarefa, meu pai, por sua altura era incumbido de pendurar as bolas na arvore, subia em uma cadeira e ia recebendo os enfeites e, lógico, os palpites:
- “Pendura ali naquele galho... Isso... Um pouco mais para frente... Assim está melhor...”.

Era uma tarefa que por sua importância e delicadeza consumia algumas horas, às vezes era cumprida em duas noites. Terminava a decoração da arvore com a colocação, na sua ponta, da estrela cometa devidamente preparada com esmero e carinho por minha mãe, usando papelão de uma caixa de sapatos, cola e muita purpurina prateada. Ela representava a estrela guia dos Reis Magos.

Pronto, arvore decorada, cabia a este que vos escreve seu irmão e primos, a missão de armar, aos pés do pinheiro, o presépio representativo do nascimento do Menino Jesus. As demais imagens eram espalhadas ao redor, espelhos eram usados para representar lagos, pedregulhos para representar caminhos e lá no extremo do presépio, imponentes, os três Reis Magos despontavam. Era, ainda, nossa missão, mover os Reis Magos, um bocadinho a cada dia, para que no dia 25 eles chegassem à manjedoura e rendessem homenagens ao recém nascido.

Nós, crianças, também chegávamos no dia 25 até os baixos da arvore para buscarmos nossos presentes que eram, invariavelmente, iguais todos os anos. Para mim cabia sempre um revolver de chumbo prateado acondicionado em uma cartucheira de plástico e um almanaque do Tico-Tico. Anos de agruras, mas também de muita felicidade.


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Publicado em 10/05/2012 Que belas e delicadas memórias homeopáticas sobre a simplicidade e beleza dos natais de sua infância.Uma crônica de lembranças,saudades e significado!Parabéns pelo relato! Um abraço! Enviado por Ana Maris de Figueiredo Ribeiro - [email protected]
Publicado em 09/05/2012 Realmente vc. tem razão, não só me encontrei como cheguei a participar da montagem do presepio. Bons tempos que não voltam mais, só nos resta esta maravilhosa lembrança,ainda bem...... Enviado por jbcmenezes - [email protected]
Publicado em 09/05/2012 Puxa Miguel eu Adorava o Almanaque do Tico Tico. Me diga uma coisa Miguel era nesse Almanaque que vinha as historias do RECO-RECO, BOLÃO e AZEITONA? Boas lembranças e belo texto. Enviado por Arthur Miranda - [email protected]
Publicado em 08/05/2012 Chammas, vi-me diante desta árvore, e minha mãe a “ralhar” quando eu quebrava os enfeites de um vidro de tão fina camada que um pequeno sopro desmanchava-se. Por fim meu pai colocava a “haste” no topo, era ele o “esteio” de nosso lar, nada mais justo completar a beleza multicolorida da árvore de natal, que meu avô plantava aos montes e depois repassava também para outros moradores. Hoje quase todas são artificiais, sendo as lembranças de nossas vidas reais. Parabéns! Enviado por Carlos Fatorelli - [email protected]
Publicado em 08/05/2012 Deliciosa sua crônica! Amo Natal e todos os seus preparativos! Acho lindo quando a família toda participa de todas as etapas preparatórias dessa linda festa! Minha família curte; meu marido me atiça o ano todo para montar a árvore, mas acabo sempre fazendo tudo sozinha.Eles dizem que é porque não gosto dos palpites que eles dão (mas é isso mesmo)! às vezes, desmonto e monto a árvore inteira, com seus zilhões de lampadinhas de led, porque não ficou como eu queria... Mas acho tudo uma delícia!
Tenho tantos enfeites que preciso da metade de um armário (guarda roupa) no quarto para guardá-los e sem a árvore! Por mim seria natal sempre! Gosto da festa mas nunca esqueço do aniversariante !
Parabéns pelo texto! Abraço Célia
Enviado por Regina Célia de Carvalho Simonato - [email protected]
Publicado em 08/05/2012 Belas lembranças. Geralmente, são bonitas as lembranças do Natal passado, bons momentos de vida.Viviamos mudando, então árvore de Natal não fazíamos, mas havia o pequeno e honesto presepinho, com seus lagos de espelho com peixinhos de celuloide, nos tempos em que existiam celuloide e galalite... Enviado por Luiz Saidenberg - [email protected]
Publicado em 08/05/2012 Orra, Miguel, que lembrança deliciosa, faser presépios, (eu era bom nisso, até o terrivel incêndio), revolver de alumínio, o Tico-Tico, ai que saudades, meu Deus, quanta nostalgia. Chammas, vc sabe cutucar os frageis corações de seus leitores, parabéns, Miguel.
Laruccia
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.larucc[email protected]
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