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Categoria - Nossos bairros, nossas vidas Um ícone desaba Autor(a): Luiz Simões Saidenberg - Conheça esse autor
História publicada em 23/02/2012

Quando jovem, você teve a infelicidade de fazer tratamento naqueles dentistas de antanho, verdadeiros “megarefes”, que trepanavam seus dentes com aparelhos de baixa rotação, sem anestesia?

Eu sim, e acredito que deveria ser coisa próxima das futuras sessões de tortura no DOI-CODI, ao qual felizmente nunca tive de comparecer. Além da dor, o ruído nos perfurava os tímpanos, vibrava toda a cabeça, os membros hirtos tremiam.

Pois foi assim que nos sentimos naquela manhã, quando a obra começou. Um perfurar giratório, como buscando as profundezas da terra, um saca rolhas gigantesco, uma daquelas máquinas infernais que surgiam nas velhas páginas de Flash Gordon, a serviço de Ming, o Impiedoso.

Constatamos: era o grande laboratório sendo destruído. Há quantos anos ocupava um quarteirão do Brooklin, sendo um dos marcos, um ícone da região. É perto da Abbott, dizia-se, e a pessoa se localizava imediatamente. Sua imensa caixa d’água alteava-se sobre o bairro, dominava a paisagem, antes que os espigões de vinte e cinco andares começassem a brotar como cogumelos.

Nada é para sempre, embora a Abbott ainda aparentasse ser. Mesmo quando foi vendida à Farmasa, suas muitas atividades continuaram. E, quando menos se espera, ei-la sendo demolida- és pó, e ao pó voltarás.

Quando contei isso a um amigo, que morara na Rua Pensilvânia, perto da esquina da Abbott, ele até engasgou. O barulho continuou, brocando as estruturas antigas e os nossos ouvidos. Passando ao largo, podíamos ver montanhas de entulhos, tubos e canos retorcidos se acumulando, como as ruínas de Berlim após a Segunda Grande Guerra.

Não havia volta. E o futuro? Que surgiria dali? Uma vizinha, destas que tudo vêem e tudo sabem, trouxe a primeira notícia. Bastante consoladora; ao invés de novos arranha céus, um condomínio horizontal. Assim fosse.

Mas, novas informações: ao invés, seriam seis altíssimas torres de apartamentos. Até imaginamos- mais milhares de carros sendo despejados nas antigas ruas, antes tão pacatas.Como absorver mais essa nova multidão automotiva?

Olhávamos para o sul, de onde vinham os ruídos, e as notícias assustadoras. Parecia uma guerra avançando no horizonte, as tropas inimigas ultrapassando as trincheiras e esmagando qualquer resistência. Uma Linha Maginot, ou melhor, Imaginot, uma vez que não se podia prever o que viria.

Na manhã de hoje saímos para nossas andanças, e ao ver-nos divagando sobre os escombros, uma senhora que passava foi incisiva:
- “Pois eu sei o que vai acontecer aí! Vai ser um pequeno shopping, tendo apenas uma alta torre nos fundos!”
Tomara que tenha razão; até que não seria mau ter, tão próximo, um shopping. Poderíamos olhar as vitrines, tomar um café... Quem sabe até um cineminha, ou estou querendo demais?

De qualquer forma, meu humor melhorou. No bairro temos até um pequeno bosque, que não se chama Solidão... Temos cafés, restaurantes, bom comércio. Um pequeno shopping até que cairia bem.
Mas, é cedo para otimismo. A imensa caixa d’água ainda não foi totalmente derrubada. Quando cair, estará sepultada uma página da história do Brooklin.

E das insaciáveis construtoras não se pode esperar clemência, nem humanidade. Mas, afinal, São Paulo é mesmo uma caixa de surpresas, e quem sabe...


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Publicado em 27/02/2012 Em nome do progresso, caro Saidenberg. as referências de nossa infância e de nossa juventude vão desaparecendo. E, parodiando Drummond, como dói!
Abraços
Mancini
Enviado por Mancini - [email protected]
Publicado em 25/02/2012 É, Luiz, as mudanças vão ocorrendo, as memórias vão ficando, as dores das perdas são visíveis e a cidade vai se definindo magicamente. E como adaptar os sentimentos a toda transformação tão rápida? Eu não sei, mas é bem difícil ter o progresso à frente de uma maneira tão frenética... o coração não caminha no mesmo passo. Abraços. Enviado por Vera Moratta - [email protected]
Publicado em 24/02/2012 Nossa como eu lembro dessa caixa d agua da Abbot
Parabens
Alexandre
Enviado por alexandre ronan da silva - [email protected]
Publicado em 24/02/2012 Não contei os seus textos Saidenberg. Clicando no link do seu nome aparece todas suas histórias agrupadas somando 150. Enviado por Pedro Cardoso - [email protected]
Publicado em 24/02/2012 Luiz, como as recordações se acumulam... teremos várias lembranças de um mesmo lugar! Tomara que, as suas, sejam boas. Parabéns Enviado por Lia Beatriz Ferrero Salles Silva - [email protected]
Publicado em 24/02/2012 Muitíssimo grato pelos comentários.
E, infelizmente, a caixa dágua vai para o chão, sim, Giglio. Não querem deixar nem lembrança.
Pelo barulho que se ouve no momento, deve já ter sido a última a cair. Obrigadão, Pedro, vc contou os meus textos. É isso...abraços a todos.
Enviado por Luiz Saidenberg - [email protected]
Publicado em 24/02/2012 Saidenberg,tive uma namorada que trabalhou nesse lab.e morava na Ribeiro do Vale,Não chore amigo dias piores virão,eles vão deixar a caixa d'agua,em todo lugar ela fica como,diriamos lembrança,saudades não,aliás não gosto dessa palavra,pesada dá vontade de chorar,o Bairro do Brooklin,deveria ser proibido demolir e construir mais alguma"coisa",esta entupido,o que vemos hoje são só caçambas nas calçadas e muito lixo nas pobres calçadas destruidas e com muito impostos.
Um abraço e não desanimemos.
Vilton Giglio
Enviado por vilton giglio - [email protected]
Publicado em 23/02/2012 Luiz que pena! Mais uma grande empresa que deixa de existir. Nos idos anos 60 trabalhei na Abbott na Rua Nova York. Tenho muitas saudades daqueles idos tempos. Abraço Grassi Enviado por J Grassi - [email protected]
Publicado em 23/02/2012 Saidenberg meu amigo, não se torture assim,quem sabe algo de bom está por vir e você já está predisposto a não gostar, quero saber o final desta história, quando o grande elefante branco surgir dos escombros e você deslumbrar o que vem por aí. Abraços.Sônia Enviado por Sonia Maria de Paula - [email protected]
Publicado em 23/02/2012 Luiz, em São Paulo principalmente o que mais se tomba do verbo tombar, derrubar são os ícones de todos os segmentos, como casarões, palacetes, vilas históricas, que foram ícones dos primeiros tempos de São Paulo, dos barões do café.
Será que não se consegue unir o passado com o presente, preservando obras antigas?
Será que o sinônimo de crescimento, evolução é destruir o antigo, é tão bonito ver um contraste de um prédio moderno com um antigo ao lado, aqui em Santo Amaro por exemplo estão derrubando tudo em nome do”progresso”, parabéns,Estan.
Enviado por Estanislau Rybczynski - [email protected]