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Categoria - Outras histórias Ingenuidade de "Office Boy" Autor(a): Daniel Coutinho - Conheça esse autor
História publicada em 03/02/2012

Isso me aconteceu lá pelos anos 80 na Rua São Bento, fato que serviu de lição e para trazer boas risadas até hoje.

Dia normal de semana, sexta-feira, como disse em história anterior, trabalhava perto da Estação Santa Cruz e pegava o metrô todos os dias para o centro. Desembarcava na São Bento, como sempre, portava a pasta com os documentos a pagar e depósitos a serem realizados etc. Detalhe, a pasta tinha o nome da empresa em que eu trabalhava, estava andando pela Rua São Bento, quando um senhor muito simpático e bem vestido me abordou logo falando:
- "Olá meu rapaz, então você trabalha na ABU?” (nome da empresa em que eu trabalhava e estava estampada na pasta) - ao que respondi:
- “Sim senhor”.
- “Que grande coincidência, eu sou despachante, precisava falar urgente com seu chefe, o, o? Qual é o nome do seu chefe mesmo?”
- “Ah! O Jair”
- “Sim claro, o Jair, como ele está?”
- “Muito bem”.

Nisso, eu nem percebi que ele estava tirando informações de mim. E este senhor simpático começou a falar:
- “Meu rapaz, é o seguinte; a ABU precisa retirar uns documentos urgentes no cartório da Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, senão, a empresa terá que pagar uma multa enorme, foi muito bom tê-lo encontrado, pois podemos ligar para o Jair e falar a ele da situação, pois ele deve ter se esquecido destes documentos. Alias, deverá ser pago a mim para poder retirar no cartório, você tem dinheiro aí?”

Eu respondi que não, mas tinha um cheque, que deveria descontar para levar de vale para os funcionários do escritório para passar o final de semana, (não lembro o valor), mas ele disse que daria certinho para pegar os documentos no cartório. Mas é claro que ele, para me deixar tranqüilo, disse:
- “Vamos ligar para o seu chefe, para que ele autorize ou não o pagamento”.

Dirigimos-nos até um orelhão, nisto ele me perguntou o número do telefone, pois estava sem agenda, (agora eu sei) simulou ter colocado fichas e discado os números.

Enfim começou a conversa:
- Olá Jair, estou aqui com o Daniel (nesse meio tempo já tinha dito meu nome a ele) e vocês precisam retirar os documentos do cartório... Ah? que bom, então ele pode ir até lá? E como fica o pagamento? O Daniel disse que tem um cheque pra descontar no Unibanco da Rua Líbero Badaró, ele pode pagar com este dinheiro? Ah sim? Então está bem senhor Jair... Você quer falar com o Daniel? Não? Ok! Então faremos o negócio por aqui... Até mais”.

Nisso eu já estava me sentindo o cara mais útil do mundo ao ajudar a empresa a não pagar uma multa enorme ao retirar o documento do cartório. Pois bem, caminhamos até o banco na Rua Libero Badaró e no caminho ele apontou para um prédio de uns cinco andares em uma esquina (creio que na esquina das ruas São Bento e Miguel Couto), disse que trabalhava no terceiro andar, qualquer problema, era só procurá-lo, senhor Antonio.

Chegamos ao banco, ele ficou do lado de fora e eu entrei, sai logo em seguida e entreguei todo o dinheiro a ele (risos)... E ele ainda pegou uns trocados e me deu dizendo:
- “Este é pra você comer algo e tomar um refrigerante”.

Pronto, este senhor conquistou meu coração. Despedimos-nos. Deixei de fazer todos os outros serviços e rumei para o cartório da Avenida Brigadeiro Luiz Antônio (a pé), ficava ao lado da Federação Paulista de Futebol.

Depois de uma longa caminhada (quem conhece sabe a distancia), mas para mim era um prazer essas caminhadas pelo centro. Chegando lá, me deparei com um funcionário fechando a porta e eu insisti em entrar, e a pessoa me disse que estava fechado para hora de almoço, só reabriria em duas horas.

Pois bem, a solução foi ligar para o Jair para ver se voltaria ao escritório, ou ficaria pelo centro fazendo outros serviços até o cartório abrir. Liguei, o Jair atendeu e eu falei:
- “Jair, o cartório fechou que eu faço?”
- “Que cartório? Eu não mandei você fazer serviços de cartório hoje!”
- “Como não? E os documentos que o Senhor Antonio mandou vir pegar aqui... Ele até falou com você?”
- “Senhor Antonio? Quem é este senhor Antonio?”

Caiu a ficha (não do telefone)... Entendi tudo, o cara me passou a perna, mas não tem problema... Ele me falou onde trabalha... E eu, tonto, voltei até o prédio que ele falou que trabalhava, subi no terceiro andar e perguntei para uma moça:
- “Moça, por favor, me chame o Senhor Antonio”.

Ao que ela me respondeu:
- “Não tem ninguém com esse nome aqui neste andar e que eu saiba no prédio inteiro”.

Caiu a ficha de novo (risos). É claro que o manganão me enganou, e naquela hora já estava contabilizando o lucro do seu golpe muito longe dali.

Pois bem, voltei à empresa, com muita vergonha e raiva é claro, expliquei tudo isso que vocês com muita paciência leram, e o Jair foi muito bom comigo, a despesa ficou por conta da firma. Entretanto, a partir daquele dia, embora tenham tentado outros golpes, eu nunca mais cai em nenhum deles.

Como disse, serviu para a experiência, serviu para a história, serviu para boas gargalhadas, porque, São Paulo é assim, até nos piores momentos, ela nos ensina, ela no apaixona. Afinal, São Paulo esta na veia, São Paulo esta no coração.

Parabéns cidade de São Paulo pelos 458 anos.


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Publicado em 12/02/2012 Caramba,acho uma loucura essas maluquices de office-boy,Assim, eu um dia passei apuros,mas nada como uma boa escola da vida para ficar experto.Valeu, Daniel! Enviado por edvaldo sales rios - [email protected]
Publicado em 07/02/2012 Sua história é triste, pior que a minha que fiquei correndo um monte de papelaria procurando papel carbono branco. Pode???? Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - [email protected]
Publicado em 03/02/2012 Daniel. Golpista é o que não falta,só varia a modalidade do golpe. Atendi há uma semana um cara no telefone,fazendo-se passar por engenheiro de uma Construtora(que existe). Queria nossos dados cadastrais para podermos orçar uma obra para ele, procedimento comum no nosso ramo. Enviamos. O sujeito sumiu,ao mesmo tempo em que alguém tentava fazer compras vultuosas no Interior, em nome da Empresa, usando nossos dados.Felizmente ninguém vendeu para ele e por garantia já foi feito um B.O.na Polícia. Enviado por Tony Silva - [email protected]
Publicado em 03/02/2012 DANIEL, EU TAMBEM FUI O.BOY CO,M MUITO ORGULHO ANOS 64,FOI UMA VERADEIRA ESCOLA DA VIDA,FICARIZA AQUI HORAS PARA RELATAR CASOS E CASOS, MAS SEMPRE ESTAVA LIGADO PARA NÃO CAIR NA MÃO DE VIGARISTA, TEMPINHOS BONS, VALEU RUBÃO Enviado por RUBENS ROSA - [email protected]
Publicado em 03/02/2012 Me perdoem, mas é muita ingenuidade. Enviado por Carlos A.Silveira - [email protected]
Publicado em 03/02/2012 Situações próprias de uma megalópóle. Valeu o aprendizado.
Abraços
Enviado por Cida Micossi - [email protected]
Publicado em 03/02/2012 Que dó, que dó, que dó Daniel! rsrsrsrs... Fiquei agoniado, devorando cada linha da sua história, esperando por um final trágico. Mais sua ingenuidade e seu caráter devem ter pesado muito na decisão do Jair, se não fosse um bom oficce boy, com certeza teria sido mandado embora. Ufa! Tudo acabou bem dessa vez. Tem mais aventuras? Grande abraço! Enviado por Hugo Morelli - [email protected]
Publicado em 03/02/2012 Vivendo e aprendendo. E parabéns ao Jair pela compreensão. Raro de se ver. Enviado por Almir - [email protected]
Publicado em 03/02/2012 Que pena Daniel. Sorte que o Sr. Jair era uma boa pessoa. Soube de casos em que os contínuos tiveram que arcar com o prejuízo ou foram demitidos. Já passei por situações semelhantes quando era boy, sendo que de uma escapei por muita sorte. Com o título "GOLPES NA PRAÇA – Parte 2" foi publicada aqui no SPMC outro golpe que muito boy caia antigamente. Enviado por Abilio Macêdo - [email protected]
Publicado em 03/02/2012 Também fui vítima de um golpe muito parecido com esse, um bom velhinho e um ofice bobo na mesma região, só não lembro se deu o nome de sr.Antonio. Se quiserem conhecer a história solicitem por email que contarei com prazer, abç. Enviado por Sérgio Ferreira de Araujo - [email protected]
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