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Categoria - Outras histórias Belém, um bairro inesquecível Autor(a): Deise Domingues Giannini - Conheça esse autor
História publicada em 24/01/2012
Era o ano de 1954 e eu tinha nove anos quando fui morar no Belém, bairro melhor do que aquele em que eu morava antes (Vila Formosa). Pelo menos aí teríamos água encanada e maior disponibilidade de condução. Na Vila Formosa, se quiséssemos ir até o centro, teríamos que pegar um ônibus até o Belém, no Largo São José e de lá pegar outro até a Praça Clóvis Beviláqua. Mas aí não. Era tudo o que a gente achava de comodidade.

Nossa rua, a Fernandes Vieira, era uma rua de terra, em frente à atual Estação Belém do metrô. Brincar na calçada, de calção (ainda não se dizia "short"), era qualquer coisa de maravilhoso. As mães, no final da tarde, colocavam cadeiras na calçada e a gente brincava muito, sem preocupações, principalmente no verão. Eu fui estudar no Grupo Escolar Amadeu Amaral, que fica no Largo São José do Belém. Lá tinha a ‘Dona’ Babá, que servia sopa no intervalo das aulas. Ficava em frente à Igreja de São José, onde fiz minha primeira comunhão. Ficava a quatro quarteirões de casa.

No final da Rua Toledo Barbosa, já quase no Tatuapé, ficava a biblioteca onde eu ia estudar todas as tardes. Lá eu fazia as lições da escola. Essa biblioteca era como uma escola, daquelas que a gente guarda no coração. As funcionárias ficavam espreitando para ver se cada criança fazia sua lição. Aí sim, a criança podia ir para a sala de jogos, a sala de gibis e a sala de pintura. Levávamos lanche, como se fosse uma escola. Lá plantei um limoeiro. Ia para a biblioteca andando pela linha do trem, fazendo uma farra com a criançada que ia comigo.

Um dia chegou a luz de rua, e depois o bonde, que passava na Rua Herval, a uns 30m de nossa casa. E depois o asfalto. Quando asfaltaram nossa rua, foi uma verdadeira revolução. Os caminhões levavam para lá muita areia e faziam aqueles montes enormes e a gente então aproveitava para brincar de escorregar nos montes de areia. Depois do asfalto, já dava para brincar de "mãe da rua", de "lateiro", de "esconde-esconde". Também pulávamos corda.

Quando o bonde vinha pela Rua Herval, o motorneiro que a gente conhecia, o Mineiro, vinha com aquele "dim-dim" e a gente já sabia que era ele. Era só correr para a esquina e esperar o bonde chegar. O Mineiro diminuía a velocidade e pegávamos o bonde andando. Chamava-se a isso de "chocar o bonde". Íamos até o ponto final de carona, que ficava na Avenida Álvaro Ramos.

No outro quarteirão da nossa rua ficavam as casas do Matarazzo. Era um quarteirão inteiro de sobrados iguais, todos de tijolos à mostra – Rua Fernandes Vieira, Rua Júlio de Castilhos, Avenida Álvaro Ramos e Rua Herval. Na Fernandes Vieira ficava a Vila Matarazzo. Ali, sem preocupações, também brincávamos de pique, jogávamos pedrinhas naqueles saquinhos de pano que nossas mães faziam e, como tinha ali um clube de bairro, o Clube 23 de Maio, onde meu pai era diretor, as festas juninas eram feitas na Vila Matarazzo, por causa do espaço. A sede do clube ficava na Rua Julio de Castilhos, em espaço de um armazém desocupado, onde tinham também apresentações de peças de teatro. Quando eu era adolescente participei de algumas esquetes de comédia.

Eu nunca tive uma bicicleta, porque nossa família não podia dar-se a esse luxo, mas andava na bicicleta do Milton ou no patinete do René. Dávamos a volta no quarteirão. Éramos quatro amigas: Deise, Darci, Dolores e Sonia.

Na Rua Toledo Barbosa, ao lado de onde hoje é o metrô, tinha uma chácara, onde se buscava a verdura fresquinha para as refeições. Um dia acabaram com a chácara e veio um circo que ficou muito tempo por lá e a gente, como era criança, não podia perder a chance. Depois, quando o circo foi embora, construiu-se ali um conjunto de casas e um prédio (hoje tem a estação do metrô).

Na rua onde começava a nossa, tinha uma fábrica, a Nadir Figueiredo, que no carnaval reservava um espaço de um salão, para a criançada brincar. As crianças brincavam com confete e serpentina. Na mesma rua tinha a ACM (Associação Cristã de Moços) com sua quadra de esportes, onde muitos jovens iam jogar vôlei e basquete.

Uma vez, na Rua Doutor Clementino, paralela à nossa, veio um rinque de patinação. Minha irmã mais velha, que começara a trabalhar, comprou um par de patins e, quando ela ia para o trabalho, eu os subtraía, para tentar patinar, mas nunca consegui, porque levava muitos tombos.

Nessa rua, quando criança, brinquei, depois vivi minha adolescência e meu primeiro namoro e minha primeira desilusão. Ali, também, sonhei com meu primeiro baile, que foi no Clube Piratininga (minha irmã me levou). Ali entendi o que era ter um amigo de verdade. No Belém aprendi a ver a vida, a valorizar as pequenas coisas que são tão importantes. Na doce Rua Fernandes Vieira...


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Publicado em 03/04/2013 Se alguém estudou no Amadeu Amaral no período de 56 a 60, meu nome era Vanderlice Caldas dos Santos, hoje é V.S. Brigato, e dentre as amigas lembro o nome de uma, Maria José Falocchio Camargo...Infelizmente, minha memória deixa a desejar e não consigo me lembrar de muitas outras... Minha primeira professora foi a Ernestina. Se alguem se lembrar de meu nome, que não é comum, me escreva. - [email protected] Enviado por Vanderlice dos Santos Brigato - [email protected]
Publicado em 26/03/2013 Deise, gostei muito de ler sua história. Também estudei no G.E.A.Amaral, pelos meus cálculos, de 1956 a 1960. Eu morava na Água Rasa mas passava semanas na casa dos meus tios e padrinhos, no Belenzinho e íamos, eu e minha prima, a pé para a Escola atravessando a linha do trem. Tempo muito gostoso que estou adorando relembrar lendo as postagens... Também fiz primeira comunhão na Igreja São José, em frente ao Grupo...Anos depois saí do bairro, morei em Perdizes e Tucuruvi, mas retornei, muito feliz, pra Rua Tobias Barreto, já casada e com uma filhinha. Amei recordar tudo isto. bjs. Enviado por Vanderlice dos Santos Brigato - [email protected]
Publicado em 27/01/2012 Deise, li sua historia e achei muito legal. Morei na rua Julio de castilhos, 505, esquina com a siqueira bueno, tenho duas irmãs ivone romano e irene romano, nao sei se vc as conheceu, estudamos tambem no amadeu amaral de 57 a 62 e me lembro muito bem na rua fernades vieira o portao que dava atras do cine sao jose e o porteiro ainda era o sr. geraldo. me escreva [email protected] Enviado por OSMAR ROMANO - [email protected]
Publicado em 27/01/2012 Cine São José, ficava no Largo São José do Belém. Curioso, José Romano, até parece transmissão de pensamento, nestes dias mesmo, conversávamos numa roda de amigos sobre ele, simpático Cine São José. Se não me engano, o proprietário dele, era também proprietário do Cine Catumbi que ficava na Rua Catumbi. O prédio do Cine Catumbi, hoje em reformas, depois do fechamento do cinema foi Forró do Pedro Sertanejo por vários anos. Grata recordação, o Cine São José. - abraços - Pedro Luiz Enviado por Pedro Luiz Boscato - [email protected]
Publicado em 26/01/2012 Sem contar que o Largo era o ponto de encontro de toda população local que de charrete passeava... quanta diferença!!! Enviado por Janise Allegranci - [email protected]
Publicado em 25/01/2012 DEISE, SOU DA PENHA, LEMBRO NOS ANOS 64 EU IA NA RUA JULIO DE CASTILHO, HAVIA UMA FÁBRICA DE CALÇADOS MASCULINOS LINDOS , COMPRAVA SEMPRE LA, FUI SOCIO DA A.C.M NA NESTOR PESTANA, NÃO LEMBRO DA UNIDADE DO BELEM ? ABRAÇOS, RUBÃO Enviado por RUBENS ROSA - [email protected]
Publicado em 24/01/2012 Deise,sua infancia e mocidade foi semelhante a minha que morava e moro na Vila Maria, as vezes íamos eté a Rua Marcos de Arruda pertinho de vc,onde havia bailinhos na casa de uma amiga. Era muito bom.Sônia. Enviado por Sonia Maria de Paula - [email protected]
Publicado em 24/01/2012 Deisinha, amiga, seja bem vinda ao site. Estreia em alto nível, com esse emocionante texto sobre o Belém. Parabéns. Enviado por Cida Micossi - [email protected]
Publicado em 24/01/2012 Deise, belas lembranças, comum na nossa infância da decada de 50 e 60, não conheço essa brincadeira chamada "lateiro".- Seria o mesmo que bate lata?, parabéns,Estan. Enviado por Estanislau Rybczynski - [email protected]
Publicado em 24/01/2012 Deise, meus parabéns! O teu texto foi muito bem descrito e com recordações de grandes momentos bem vividos num cantinho que eu acho muito bom de S.Paulo. Valeu! Enviado por Carlos Rocha - [email protected]
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