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Categoria - Paisagens e lugares Sob os ponteiros do Mappin II Autor(a): Luiz Simões Saidenberg - Conheça esse autor
História publicada em 23/01/2012

A chuva cai, fraca mas insistente. Desgraça pouca é bobagem; nesta altura muitas cidades de Minas e do Estado do Rio estão debaixo d’água. Aqui a coisa é mais amena.

Escrevi, num artigo anterior, sobre os bons tempos do Mappin, quando se marcavam encontros sob seu vetusto relógio. Não se marcam mais, ou assim pensava até hoje. Mais um, então, e talvez o seu último.

Cláudia, de Veja, convida-me para uma sessão de fotos e marca meu encontro com o fotógrafo: mais uma vez, sob os ponteiros do Mappin. Lá vamos nós, até que o trânsito na 23 não está mau, para um dia tão chuvoso.

Estaciono no calmo Largo do Arouche e inicio minha travessia, sob chuva macia, pelos caminhos da juventude. Rua do Arouche, onde desapareceram lojas tradicionais, como a Casa Leipzig e Dr. Scholl´s. Onde lojas de calçados finos foram substituídas por lojas parecidas, mas bastante mais populares.

Cruzo o calçadão da Praça da República, agora ampla, vazia, limpa e lavada pela chuva. Por causa dela, os sem teto e drogados reuniram-se, caídos no antigo coreto. Que já exibiu bem melhores espetáculos.

A Barão de Itapetininga, com seu comércio agora popularesco. Onde se degustavam as delicatessens da Confeitaria Vienense, agora os homens sanduiche, com seus cartazes de compra de ouro (falso, talvez) e advogados trabalhistas, também falsos, com certeza.

Faço um giro nostálgico pela Galeria Califórnia, palco de tantas lembranças. Tudo tão mais pobre, e também menor. O tempo distorce tudo: onde era ao tradicional Café Haiti, palco, dizem, da primeira máquina de café expresso brasileira, temos uma lanchonete, e parece ínfima diante da minha lembrança do Haiti. Do cine ali existente, nem vestígio.

Na Barão, nobre falido, não mais a Sartoria Minelli, as Lojas Bristol, a Livraria Francesa, as lojas de tecidos finos, a Drogadada. Poucos coitados pelo caminho, principalmente agora que a policia inicia uma blitz para erradicá-los da região. Então, estamos mais livres para contemplar o entorno, e poder derramar nele nossas emoções da mocidade.

Nesta manhã, a travessia do Centro "Novo" é uma tarefa fácil, e até agradável. Cheguei adiantado, como sempre, sem ser mineiro e nem, infelizmente, Fernando Sabino. Tomando café no agradável Shopping Light, espero o fotógrafo Fernando e também, em vão, que a chuva pare. Ele chega, e imediatamente começa a fotografar. O relógio do Mappin marca, como sempre - o Tempo passa!

Com ele ao fundo, quase dou uma de Gene Kelly, em "Singing In The Rain". Capa, chapéu, guarda chuva. Faltariam só as abomináveis galochas de antigamente. Combina bem com a garoinha de outrora, e devo mais parecer um personagem da época de Lobato, Mario de Andrade ou Guilherme de Almeida.

Mas, ao contrário do filme, meus movimentos têm de ser precisos, bem vigiados pela implacável lente da câmera, a fim de que não se perca o ângulo, nem o relógio suma do fundo.
Ainda assim, é divertido... "I´m Happy Again". Mais umas fotos e a sessão termina. Mas não a chuva.

Volto para buscar o carro, com uma sensação de alívio: quem sabe desta vez, dados os primeiros passos, o Centro volte a recuperar sua antiga majestade, e um dia possamos mostrá-lo com orgulho a nossos netos, como fizeram meus pais: - esta é a nossa cidade!



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Publicado em 23/02/2012 Palmas para o seu texto! As fotos e a matéria ficam ótimas. Abraço. Enviado por suely aparecida schraner - [email protected]
Publicado em 26/01/2012 Saindenberg, afinal a capa é aquela? Gostei do parágrafo final. Enviado por Pedro Cardodo - [email protected]
Publicado em 26/01/2012 Muitíssimo obrigado. Não, cara Bernadete, a reportagem só tem aquelas duas páginas e as três fotos. Abração. Enviado por Luiz Saidenberg - [email protected]
Publicado em 25/01/2012 Caro Luiz,como sempre, mais uma vez você nos trás um texto magnífico muito bem redigido. Falar do relógio do Mappin é trazer na memória belos acontecimentos que no passado refletiram a vida de muitos paulistanos. O relógio era uma referência para muitos encontros e desencontros também. Parabéns pelo texto. Abraço Grassi Enviado por J Grassi - [email protected]
Publicado em 24/01/2012 Amigo,você a Erta e o Modesto estão muito bem nas fotos. O seu texto então,está exelente,como sempre.Gostaria muito de ter lido a Vejinha SP, mas aqui no Rio só consigo a Vejinha Rio. Li pela internet, mas gostaria de saber se na revista tem outras fotos e também, se a reportagem publicada é maior da que está no site da revista. Se assim for, pedirei as minha irmãs que me enviem o exemplar.
Um abração e parabéns meu amigo.
Bernadete
Enviado por Bernadete Pedroso de Souza - [email protected]
Publicado em 24/01/2012 Muito grato a todos, novamente. Assim fico encabulado, Lia...Não, Rubão, o guarda chuva foi comprado na Liberdade, mesmo. E João Felix, vc receberá a reportagem. Abraços. Enviado por Luiz Saidenberg - [email protected]
Publicado em 24/01/2012 TODOS OS NAMORADOS DE SAO PAULO, JA MARCARAM ENCONTROS NO RELOGIO DO MAPPIN, ERA CHAMADO DE O RELOGIO DOS NAMORADOS, Enviado por joao claudio capasso - [email protected]
Publicado em 24/01/2012 Belo relato do nosso centro de hoje . Como vivo a muito tempo longe de Sao Paulo na minha ultima visita pude ver essa diferenca , mas a rua que mais estranhei foi a Sao Bento , so tem predios vazios e para alugar.Quanto suas fotos no Vejinha estou esperando uma remessa pelo correio de alguns vejas e vejinhas dos dois ultimos meses espero que seja premiado com esse das fotos.Eu sempre assinei essa revista desde os anos 70 , mas depois com a internet passei a recebe-la digitalmente mas com a queda no valor do dolar os precos ficaram muito abusivos ($242 dollares a impressa e $150 a digital) e agora so de vez em quando recebo algumas que as manas me enviam pelo correio.
Pois temos sempre noticias praticamente ao vivo pela internet.Abracos Felix
Enviado por Joao Felix - [email protected]
Publicado em 23/01/2012 Crônica muito interessante com fundo de cena belo e saudoso,mergulho em atrativos marcantes de São Paulo e o relógio da Mappin traduzindo a passagem do tempo. Enviado por Ana Maris de Figueiredo Ribeiro - [email protected]
Publicado em 23/01/2012 Saidenberg, texto perfeito, lembranças, emoções; sobre a foto na Vejinha, Gene Kelly sorriria, vc ficou ótimo. Enviado por Cida Micossi - [email protected]