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Categoria - Outras histórias Caminhando por São Paulo Autor(a): Antonio Roberto de Oliveira - Conheça esse autor
História publicada em 10/01/2012
Da mesma forma como todos começam suas histórias neste site, gostaria de deixar registrado que o adoro. Adoro de vez em quando passar por aqui e ler suas belas histórias. Quanta nostalgia! Que bom poder compartilhar nossas histórias, nossas memórias, como é bom podermos nos reconhecer, ou quem sabe até de vez em quando, nos sentirmos inseridos nas histórias que lemos...

Há muito digo as minhas filhas que um dia começaria escrever neste site, quando falo isso para elas, coisa que já aconteceu por reiteradas vezes, sempre ouço:
- "Ô pai você sempre só fala...".

Então, para não ficar só falando me lanço na tentativa de escrever fragmentos da minha memória, passada nesta mágica e envolvente cidade. Hoje gostaria de falar sobre o meu querido pai, o qual já há alguns anos atendendo a chamada do Pai de Todos nós retornou a Pátria Celeste. Como eu era o “raspa de tacho” e meu pai por um motivo de saúde cedo se aposentou, o tive como um grande companheiro e amigo durante a toda a minha infância, Graças ao Bom Deus.

Recordo-me com alegria de todos os momentos que passamos juntos, era seu companheiro constante. Embora na época tivesse problemas de enjôo ao andar de ônibus, sempre o acompanhava. Nos dias em que tinha de ir ao banco, geralmente dia 5, para receber uma magra aposentadoria, que como o milagre da multiplicação dos pães e peixes, conseguia cuidar de sua família com dignidade. Era um tempo sem bolsas, os mais carentes estavam largados a própria sorte. Gratos eram aqueles que estavam empregados ou eram aposentados, dias de carência material, mas felizes.

Está gravada em minha memória e em meu coração para sempre nossos passeios em passos apressados pela cidade de São Paulo, em especial pelo centro velho, onde a cada momento ele fazia uma observação de caráter histórico, antropológico, ou gastronômico. Na Rua São Bento ficava a Botica ao Veado de Ouro (onde um farmacêutico receitou uma pomada e a milagrosa água de alibu, que curou "perebas" nas pernas que nenhum médico dava jeito). Na mesma rua também tinha um sanduíche de linguiça com vinagrete e suco de maracujá, maravilhosos!

Na Rua Direita era onde tinha a Lojas Americanas, cachorro quente e brinquedos maravilhosos. Sempre conseguia um soldadinho, um cavalo ou um índio para compor meu sonhado Forte Apache. Sonho de consumo em uma época em que não havia vídeo game e ninguém se transformava em “serial killer” por brincar de guerra com soldadinhos plásticos (que vinham grudados no doce) no fundo do quintal.

Praça do Patriarca, Pátio do Colégio, onde São Paulo nasceu, Padres Anchieta e Nóbrega catequizando os indígenas; a casa da Marquesa de Santos, que ao passar pela mesma ressaltava meu velho pai:
- "Dom Pedro I era uma cara safado...".

Rua São João, com toda sua boemia, bares cheios onde ficavam mostruários com canivetes de mola e outras coisas interessantíssimas para um menino; na mesma rua tinha uma Casa de Caça e Pesca, onde na parede ficava exposta a cabeça de um alce, me parecia algo monstruoso, enorme.

Meu pai sempre alertava para observar o Prédio do Banespa e não perdê-lo de vista nunca, para que caso me perdesse, tivesse um ponto de referencia nítido naquela selva de pedra, acho que isso hoje não funcionaria muito bem. O viaduto Santa Ifigênia, dizia o velho:
- "Já pensou rapaz? Ele veio todinho da Alemanha!"

O Largo São Francisco, com as Arcadas da faculdade de Direito e seus bares e restaurantes em volta, com suas cadeiras de madeira centenárias, meu pai dizia:
- "Esta vendo, Rui Barbosa o homem mais inteligente do Brasil, almoçava aqui quando era estudante".

Bem pelo que soube depois ao estudar história, o grande Rui estudou Direito em Olinda, mas quem sabe em uma de suas vindas a nossa capital nada impede que naquele dito bar tenha parado para bar para tomar um cafezinho. Boa solução não é?

O Batalhão de Guardas do Parque Dom Pedro, quartel do Exército; o Mercado Municipal com toda a sua riqueza; a Liberdade dos japoneses; o Brás dos italianos, com suas antigas fábricas de enormes tijolos de barro expostos, chaminés de alvenaria, portas de madeira enormes, fechaduras de ferro gigantescas, sobre as quais meu velho sempre fazia a seguinte observação:
- "Veja quanta ignorância naquela época! Fazerem algo tão grotesco!"

Desconhecia meu velho que este foi o melhor que pode ser produzido de acordo com os recursos e a tecnologia da época. Apesar desses breves senões históricos, aqueles apressados passeios pelo centro, ficaram para sempre gravados em meu coração e mente, e colaboraram de forma indelével para meu crescimento enquanto cidadão.

Ao observar que a cidade foi (e ainda é) uma construção coletiva realizada em diversos períodos históricos, onde membros das mais diversas etnias colaboraram, e naquele mesmo chão de Piratininga onde eu pisava, outros tantos brasileiros e brasileiros por adoção ali pisaram, e sobre este chão derramaram o seu suor e suas lágrimas, quando não o seu próprio sangue, para que essa cidade seja o que é... Algo que só entende quem a ama, e disso só é capaz quem um dia teve a oportunidade de vivenciá-la e senti-la.


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Publicado em 23/03/2012 Fui boy em Sampa. Me vi correndo por esses lugares, com a pasta na mão cheio de duplicatas. As vezes um sanduíche de calabreza, churrasco grego, um X qual-
quer. Boa, muito boa essas lembranças. Abraços.
Enviado por Luiz Carlos - [email protected]
Publicado em 11/01/2012 Um belo passeio com roteiro aleatório bem descrito sobre São Paulo. Como guia, seu pai deixou a impressão de uma preocupação em ressaltar os principais pontos de interesse da cidade. Bem redigida, Antonio, meus parabéns. Comente, também os trabalhos de seus colegas.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 10/01/2012 Antonio, embora todo esse roteiro seja de meu conhecimentos, viajei com você nesse incursão. Senti, como minhas, as tuas emoções e concordei com plenitude nas afirmativas do seu ultimo parágrafo.
Quem bom que você resolveu cumprir o prometido e escreveu.
Escreva mais, ficou um gostinho de quero mais....
Enviado por Miguel S. B. Chammas - [email protected]
Publicado em 10/01/2012 Oliveira, este "sanduiche de linguiça" que você comeu na rua São Bento, penso que foi no "Bar California" que servia a famosa linguiça de Bragança...quanto ao "grande baiano" Ruy Barbosa, seu Pai tinha razão, pois o "Águia de Haya" formou-se aos 22 anos, Bacharel em Direito, nas "Arcadas da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco" (aliás, com muita honra à ela...) apesar também de ter passado antes, pela Faculdade de Olinda e logo depois voltou à sua terra natal.Abraços - Flavio Rocha Enviado por Flavio Rocha - [email protected]
Publicado em 10/01/2012 Sr. Antonio, seja benvindo ao SPMC, adorei sua narrativa, e ficou sim, um gostinho de quero mais. abs Marisa Enviado por marisa fredini - [email protected]
Publicado em 10/01/2012 Eu caminho até hoje pelos lugares que foram o chão da minha infância e mocidade... identifiquei-me com seu texto. Sábio foi seu pai que soube transmitir o amor que tinha por São Paulo... a você! Parabéns Enviado por Lia Beatriz Ferrero Salles Silva - [email protected]
Publicado em 10/01/2012 Antonio, estreou bem no SPMC,contou um roteiro que identifiquei-me com ele e não guarde suas histórias, conte-as. parabens, Estan Enviado por Estanislau Rybczynski - [email protected]
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