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Categoria - Paisagens e lugares O cine que me fez perder a cabeça Autor(a): Luiz Simões Saidenberg - Conheça esse autor
História publicada em 04/01/2012

Olho para minha estante, na sala. Do alto, duas grotescas faces me contemplam, com seus grandes olhos e as ferozes bocas, agudos dentes à mostra. As cores são vivas, mas formam um conjunto harmonioso.

São duas cabeças em tamanho natural, máscaras tailandesas, da dança Khon. Que conta sobre o mítico drama Ramayana, ou Ramakyan, a luta de Rama, na sua reencarnação como Shiva, contra as forças do mal.

Quem as fez fui eu, num exercício de ceramista amador. Não só fiz as duas, como pretendo fazer outra, formando um trio. Fiz por achar bonitas, raras por aqui, embora tradicionais no ex- reino do Sião, tão distante. Será por isto, mesmo? Por que recorrer a um folclore assim longínquo, sem nada a ver com os tradições brasileiras? Terei perdido enfim a cabeça, para espelhá-la nas destas máscaras?

Mas, não terão nada mesmo a ver, apenas uma caprichosa fantasia? Eu discordo, pois minha relação com essas faces ferozes é antiga. E tem muita, mesmo, com a São Paulo de décadas atrás. Quando existia um belo cine chamado Santa Cecília, na Av. Olimpio da Silveira.

Estamos agora no final da década de 50. Casualmente quase, numa tarde de sábado, adentro o Santa Cecília, sem dar-lhe seu devido valor de -literalmente- templo do cinema. Estou acostumado a frequentá-lo, mas mesmo assim, mais uma vez chamam-me a atenção a mesa central com patas de elefante e as poltronas, com descansa braços elefantinos...

Lá dentro, a verdadeira e antiga influência das minhas futuras máscaras bravias: guardiões tailandeses cercam a platéia, com suas faces de demônios e olhos luminosos, que se apagam gradativamente quando se inicia a projeção. Isto me impressionou fortemente, mas com o tempo perdi a noção da verdadeira imponência e riqueza da ornamentação do cine.

Recuperei-a, deslumbrado, alguns dias atrás. Meu caro Fabio Santoro, cinéfilo inveterado, enviou-me páginas de A Revista, edição de 1999. Nelas, um belíssimo texto de Roberto Bicelli sobre duas glórias da velha Praça Marechal: o Circo Piolim... E o Cine Santa Cecília.

E, enfim, as fotos! Maravilha! Emocionado, revi, pela primeira vez em cinquenta anos, os suntuosos salões e platéia de meu cine favorito. Numa exuberância oriental fantástica, um sonho das mil e uma noites, o velho "Santa" voltava à vida. E que vida!

Sobre a platéia, uma abóbada celestial. Estrelas a luzir, como uma noite alucinada de Van Gogh nos domínios dos marajás moguls, ou no antigo Reino do Sião, que hospedou, num caso verdadeiro, a professora inglesa Ana.

Tudo muito além do que jamais poderia supor nossa vã imaginação, ou nossas pobres lembranças. Agora, sim, sentimos - que perda absurda, a estúpida destruição do esplendoroso cine, pecado destes que jamais poderão ter perdão.

Então, só mesmo chorando... ou fazendo máscaras exóticas de uma cultura estranha, uma humilde, mas sincera homenagem póstuma ao grande Santa Cecilia.


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Publicado em 04/02/2012 Lamentavelmente, meu caro Luiz, é assim que se comportam nossos governantes, não dando a mínima para a memória do nosso Estado.
Valeu a sua lembrança.
Enviado por Marta Segala - [email protected]
Publicado em 22/01/2012 Fui frequentador assíduo desse lindíssima casa de espetáculos. Que saudades enorme me vêm a memória daquele tempo. Obrigado amigo pela lembrança. Enviado por Fábio Gaudenci - [email protected]
Publicado em 17/01/2012 É apaixonante perceber essa sua paixão pelo cinema, Luiz. Meus parabéns por mais um texto brilhante, macio e inteligente. Tive um imenso prazer em te conhecer. Uma alegria enorme! Muito obrigada pela acolhida e só agora retornei a Florianópolis e então envio os comentários. Um grande abraço. Enviado por Vera Moratta - [email protected]
Publicado em 12/01/2012 Olá Saidenberg, infelizmente conheci poucos cinemas no Centro. Mas para os amantes da sétima arte deve ter sido um choque muito grande. Você como sempre um verdadeiro didático na matéria. Parabéns! Um abraço. Enviado por asciudeme joubert - [email protected]
Publicado em 10/01/2012 Mais um lindo texto luiz.
É incrivel que eu não tenha conhecido o cinema. Naqueles anos eu passava em frebte ao cinema para ir as matines do circo do Piolim. Ia com meus irmãos levado por meu pai. Naqueles dias iamos tambem as sessões de Zig-zag num cinema do Anhangabau e no cine Metro. Ao sair de uma manhã no Metro, por volta dos ultimos anos da decada de quarenta provei a COCA COLA que então estava sendo lançada
Enviado por fernando soares de camargo - [email protected]
Publicado em 05/01/2012 Muitíssimo obrigado. Fico feliz que tanta gente ainda se lembre, e se comova com o magnífico cinema. As fotos deverão sair na edição especial SPMC do dia 25/01, juntamente com a gravação do texto. Assim o espero. Abrações. Enviado por Luiz Saidenberg - [email protected]
Publicado em 04/01/2012 Como é prazeiroso participar deste site, aprendemos todos os dias a conviver e aprender um passado tão rico... Infelizmente foi jogado fora como se não valesse nada...Ainda bem que é resgatado informações tão importantes.
Parabéns pelo texto
MC
Enviado por mary clair peron - [email protected]
Publicado em 04/01/2012 Saidenberg, apesar de não ter conhecido O Cine Santa Cecíla, sou solidaria a você e a este sentimento de perda. Fazer o que agora, agradecer suas lindas lembranças. Um grande beijo. Enviado por margarida p peramezza - [email protected]
Publicado em 04/01/2012 Luiz, aguardo a publicação da fotos do cine no site SPMC, grato. Enviado por Pedro Cardoso - [email protected]
Publicado em 04/01/2012 Como gostaria de ter o dom de narrativa que você têem. Adoro ler seus textos. Eu ,como outros não conheceram este cine, mas eu consegui me transformar pelos minutos da leitura e me sentir dentro desse conto. Me desculpas o meu atrevimento em lhe enviar esse simples email ,perto de tanta inteligência. Fico agradecida pelos momentos vividos. Boa noite. Enviado por cirineia martini - [email protected]
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