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Categoria - Outras histórias Ho, ho, ho! Autor(a): Luiz Simões Saidenberg - Conheça esse autor
História publicada em 09/12/2011

Lá está ele na porta do mercado, gingando e balançando a barba. Ouve-se uma canção, meio engrolada e roufenha, de seu interior mecânico. Mas a expressão é alegre, e os olhos azuis, mesmo de plástico, parecem matreiros.

Tem razão para sorrir, está em toda parte, e comanda pessoalmente o maior dos períodos comerciais do ano. O Bom Velhinho, enquanto o Natal não chega, há muito está em atividade, escalando janelas, as sacadas do Brooklin, nos jardins, nos semáforos da cidade toda, na mais ínfima e pobre das vitrines, colorindo tudo com o traje vermelho. Ele sabe que é garantia de faturamento gordo, mais até que sua pança que sacode ao som de sua característica risada. É rico, ri mesmo a toa...

O visual é todo planejado, especialmente para os países frios; as vestes rubras em contraste com a brancura da neve, as nuvens cinzentas e a temperatura na casa de zero grau. A Coca Cola, com seus marqueteiros e grandes ilustradores, sabia bem o que fazia quando estabeleceu o novo padrão para o já combalido Santa Claus ou São Nicolau.

Deu-lhe nova roupagem, e soltou-o pelo mundo, com o espírito de um conquistador viking, vindo da Laponia. Do alto de suas renas, lamentavelmente ele dominou o cenário do Natal, deixando para o Menino Jesus a discrição de sua humildade e pobreza.O que deveria ser uma festa de recolhimento e contrição familiar virou um super espetáculo de consumo, Noel carregando sacos, mas de puro ouro.

Não se enganem com sua aparente bonomia; ele é mesmo um vitorioso. Tentaram substituí-lo, aqui mesmo em nossas terras, por outro ser mais coerente com a realidade brasileira. Inventaram o Vovô Índio. Mas índio e subdesenvolvido logo foi extinto.

Quando eu era pequeno lembro-me, na casa de Tia Zilda, na Rua Albuquerque Lins, defronte ao Teatro São Pedro, de ter visto um belo álbum, enorme e colorido. As ilustrações eram, creio, de Monteiro Filho. Acompanhava-o um LP, muito bem feito, musicado e interpretado. Tentava realizar a substituição de Noel pelo bondoso Pai João, um preto velho, que passaria a "trazer os presentes das crianças".

Lembro da rouca voz do Pai João, dizendo:
-"Papai Noel já está velho, e cansado".
Se bem que velho e cansado quem parecia ser era ele mesmo. Ledo engano. Noel tinha muita lenha para queimar, e nada mais fez que prosperar nos anos que se seguiram.

Ao pobre Pai João, que mais parecia uma reencarnação do Pai Tomás, nada mais lhe restou que retornar à sua famosa cabana, e lá desaparecer para sempre. Noel vencera mais uma vez, por nocaute.

E aqui está ele de novo, esbanjando exuberância e vitalidade. É o maior vendedor do mundo, e de sua lábia é difícil escapar. Eu mesmo não tento, há que comprar presentes, mesmo numa escala modesta. Resta o consolo de que é ao menos um bom elemento decorativo, colocando cores festivas nas reuniões familiares, e assim aquecendo mais um pouco os corações.
E, nesse processo, talvez, sem querer, deixando-os mais abertos ao aparecimento verdadeiro do espírito natalino.


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Publicado em 17/12/2011 Ótimo texto, Luiz. Este é o Papai Noel. Norte Americano, com certeza, pois que nossos consumismo desenfreado vem de lá. Agora, por lá, a coisa está preta, mas nós continuamos consumindo. Enquanto comprarmos presentes pensando, com carinho, no presenteado, ainda dá para aguentar. Pior é ter que, obrigatoriamente, precisar dar presente ao inimigo. Feliz Natal Enviado por Ivette Gomes Moreira - [email protected]
Publicado em 17/12/2011 Sr.Saidenberg, que revelação! O "oh, oh, oh" te revelou. Você é ELE ! Brincadeiras à parte, a força da idéia marqueteira vai perdurando e não podemos negar sua influencia na sociedade. O que restou de São Nicolau que ore pro nobis. Na net sempre recebemos nessa época um material que diz que Cristo não foi convidado ao próprio aniversário, e isso dá uma boa reflexão. Ho, ho coke, para você também. Bernardi. Enviado por Ernesto Bernardi - [email protected]
Publicado em 13/12/2011 Na festa natalina, Saidenberg os personagens vão tomando seus papéis...aos pais parecem residir o papel principal: desejar e almejar alegrias e felicidades coletivas. Hora de esperar, rezar e desejar...Boas festas para todos os seus. Enviado por Clesio de Luca - [email protected]
Publicado em 13/12/2011 Muito obrigado, amigos. Feliz Natal e boas Festas a todos. Ho, ho, ho! Enviado por Luiz Saidenberg - [email protected]
Publicado em 12/12/2011 Parabéns Luiz, você escreveu exatamente o texto que eu também escreveria se soubesse escrever tão bem. Enviado por Arthur Miranda - [email protected]
Publicado em 12/12/2011 Luiz, mesmo que a idéia inicial tenha sido, totalmente voltada para a parte comercial, essa imagem enriquece o Natal de pobres e ricos.
Eu, inclusive, por anos e anos, me transformei nesse velhinho para presentear crianças pobres e crianças da familia.
É uma emoçãpo inenarrável.
Enviado por Miguel S.ç G. Chammas - [email protected]
Publicado em 11/12/2011 Caro Luiz, o Natal é semelhante a uma noite encantada, toda estrelada, com velas e enfeites de metal e de bolas coloridas, fitas multicores pendentes dos ramos da árvore de Natal, que faz chover, das mãos enluvadas do Papai Noel, mil surpresas. Para você e toda a sua família um Feliz Natal. Abraço Grassi Enviado por J Grassi - [email protected]
Publicado em 11/12/2011 Senti realismo e amargura na sua narrativa, aliás, muito bem feita! Mas acho que todo esse marketing acaba, de certa maneira, levando às pessoas um pouco do verdadeiro espírito de natal! Talvez meio às avessas, mas, mesmo assim, muita gente é tocada por ele. Vejo mais pessoas preocupadas com o próximo; pessoas que passaram o ano inteiro sem nem mesmo olhar para o lado, de repente, se preocupam em "adotar" alguma criança para que tenha um natal melhor, menos sofrido! Conheço pessoas assim, então, de alguma maneira, acho que toda essa parafernália acaba sendo positiva... Considero, sim, que nós devamos fazer a nossa parte difundindo aos nossos que, além de toda a festa e troca de presentes, há um motivo muito maior a ser lembrado e homenageado.
Abraço
Célia
Enviado por Regina Célia de Carvalho Simonato - [email protected]
Publicado em 11/12/2011 Bela crônica sobre os valores cotidianos da época natalina,da figura comercial,popular e inspiradora de Papai Noel.Relato que nos faz pensar.Parabéns! Boas Festas! Enviado por Ana Maris de Figueiredo Ribeiro - [email protected]
Publicado em 10/12/2011 No final desta crônica você nos coloca diante de uma verdade, clara e insosfismável - a figura do papai noel nos deixa mais abertos ao aparecimento do verdadeiro espírito natalino. Eu acrescentaria que, muitas vezes por tortuosos caminhos, acabamos atingindo nosso objetivo final que, neste caso, é unir-nos na fé, na solidariedade, no amor e na esperança. Enviado por trini Pantiga - [email protected]
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