Leia as Histórias

Categoria - Outras histórias Para não comer depois Autor(a): Adriana Alves - Conheça esse autor
História publicada em 31/10/2011
Olho para cada detalhe. Tudo me chama atenção. Diferente, corrido, gente estranha. Foi com um olhar de quem morou por três décadas na mesma cidade que cheguei a São Paulo.

Distância entre riqueza e pobreza que parece não ter fim, cheiro de poluição, ruas bem sinalizadas, restaurantes charmosos, movimento que não cessa. Cenário que permeou as minhas primeiras semanas.

O Pão de Açúcar da esquina foi o primeiro alvo a ser explorado. Lá, fui recebida com um banner, bem na entrada: “O que faz você feliz?”. Fui à sessão de frutas e verduras, pensando na resposta desta pergunta existencial. Fiquei espantada com o que encontrei ali: várias frutas, entre elas laranjas e mexericam descascadas, separadas em gomos, bem embaladas. Imediatamente, pensei em Adélia, no seu poema “Para Comer Depois”, no qual ela diz: "Na minha cidade, nos domingos de tarde, as pessoas se põem na sombra com faca e laranjas. Tomam à fresca e riem do rapaz de bicicleta, a companhia desatada, o aro enfeitado de laranjas."

A camaradagem interiorana à beira das portas, as reuniões das mulheres com suas vassouras embaixo do braço fingindo que estão varrendo as calçadas, os fuxicos, as mães sentadas na portas das casas vendo as crianças brincarem na rua, tudo tão distante, mais distante que eu poderia imaginar:
- “Será que as pessoas acham tão complicado descascar uma fruta, picar uma verdura?” - pensei.

Saí de lá com essas questões, incomodada, tentando entender a dimensão que a praticidade tomou nesse mundo tão diferente do meu. Em apenas sete dias comecei a trabalhar. Com isso, minha rotina mudou bastante, as excursões pelo bairro reduziram de maneira significativa, a final de contas, saía de casa às 7h e só retornava às 21h.

Em um desses longos dias de labuta, me deu uma vontade enorme de tomar uma sopa. Fazia um friozinho, novo para mim, frio com garoa. Queria tomar uma sopa bem quente, isso me faria feliz, sem dúvida. Saí do escritório, pensei em voz alta:
- “Passo no supermercado compro os ingredientes e vou preparar uma sopa para esquentar a alma”.

Um trajeto que era para ser feito em trinta minutos foi finalizado em três horas e trinta minutos. Só na Avenida Berrini, acredito que fiquei mais de duas horas, sem ter por onde sair, tudo parado. Impaciente, no engarrafamento e cada vez mais faminta:
- “Quer saber, não vou fazer sopa coisa nenhuma. Vou direto para casa e preparo alguma coisa com o que tiver na geladeira” - decido sem pestanejar.

Mas o desejo falou mais alto. Resolvi parar no supermercado. Chegando lá, olhei para a sessão de verduras, peguei cenoura, batata, vagem, cheiro verde. Tudo descascado, picadinho e bem embalado.
- “Agora sim, entendi!”


E-mail: [email protected] E-mail: [email protected]
Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 10/11/2011 Sra.Alves, durante as 24 horas do dia, pode-se comprar de tudo em Sampa. A vontade da sopa me deu uma saudade! Sopa da vovó de feijão com couve rasgada, a minestra. Sopa de ervilhas com arroz de minha mãezinha. Outras de legumes com macarrão. Morar em cidade mais fria é muito bom. Hoje em M.G. quando faz 20º estou comemorando minhas saudades paulistanas com a garoa que inexiste. Bela história. Parabéns, do Bernardi. Enviado por Ernesto Bernardi - [email protected]
Publicado em 04/11/2011 Adriana, sem falar da sopa, deixa dizer-lhe uma coisa. São Paulo vai lhe surpreender. Você levou três horas na Berrini, noutro dia você faz o mesmo trajeto em menos de vinte minutos e ninguém consegue entender porquê. Não tente, pois estou aqui a mais de seis décadas e até hoje não entendi. Seja bem vinda. Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - [email protected]
Publicado em 04/11/2011 Adriana, sem falar da sopa, deixa dizer-lhe uma coisa. São Paulo vai lhe surpreender. Você levou três horas na Berrini, noutro dia você faz o mesmo trajeto em menos de vinte minutos e ninguém consegue entender porquê. Não tente, pois estou aqui a mais de seis décadas e até hoje não entendi. Seja bem vinda. Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - [email protected]
Publicado em 01/11/2011 Adriana, nada como ter tudo a mão para fazer uma sopinha caseira....que delicia! Ainda bem que os grandes mercados fornecem esta praticidade. Uma comida caseira sempre vale a pena. Adorei seu texto, um grande abraço. Enviado por margarida p peramezza - [email protected]
Publicado em 01/11/2011 Muito bom sua historia, Luiz Carlos Berrini me tras boas recordações e o pão de açucar Av. Sto Amaro, o primeiro 24h.
São Paulo com noites de frio, ou sopa ou pizza, qualquer opção vai bem.
Parabéns pelo texto.
Enviado por daniel - [email protected]
Publicado em 01/11/2011 ISSO ME FEZ LEMBRAR QUANDO NOS TINHAMOS PENSAO, EU FICAVA PICANDO LEGUMES ,ESCOLHENDO VERDURAS E FEIJAO, LAVANDO MARMITAS.ATE A NOITE,NAO DAVA TEMPO NEM DE FAZER A LIÇAO DE CASA Q BOM HOJE TUDO TA NA MAO E A SOPA DE LEGUMES E UMA DELICIA
FAÇA SEMPRE E BOM APETITE[ OTIMA IDEIA]PARABENS
Enviado por maria pia tiezzi mirabella - [email protected]
Publicado em 01/11/2011 Saborosa narrativa, Adriana, uma sopinha com ingrdientes bem naturais, nestas noites frias, ahhh. Sua escrita é mais saborosa, ainda. Parabéns, Alves.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 01/11/2011 Agora tem até rodízio de sopa. Pode ? Enviado por newton - [email protected]
Publicado em 31/10/2011 Adriana, você me fez lembrar do meu pessoal. Minha espôsa é magra, mas falou em comer, é com ela, principalmente doces, e com ele (pessoal). Pois bem sua expressão " quer saber " é que muitas vezes falam: "Quer saber"... segunda-feira eu começo o regime sem falta mas agora quero é comer... risos. Parabéns pela excelente narrativa. Enviado por asciudeme joubert - [email protected]
Publicado em 31/10/2011 Adriana, qualquier sopa caseira é muito mais saborosa do que as tais sopas em pó. Fez muito bem em fazer a tua sopa com produtos preparados para consumo.Émuito mais fácil. Enviado por Miguel S. G. Chammas - [email protected]
« Anterior 1 Próxima »