Leia as Histórias

Categoria - Outras histórias O telégrafo “Western” da Rua 15 de Novembro Autor(a): Aclibes Burgarelli - Conheça esse autor
História publicada em 27/09/2011

Lembro-me bem do meu primeiro emprego na Western Telegraph Company Limited,com registro na carteira de trabalho de menor, de capa vermelha e expedida com a autorização do Juiz de Menores, porque eu tinha 12 anos de idade. Isso no ano de 1951, no mês de abril.

Em meu primeiro emprego tive a oportunidade de fazer o curso de telegrafista, condição imposta pelo Juizado de Menores, dada a minha idade. Durante a menoridade permaneci o maior tempo como auxiliar interno, o então denominado "Check boy", trabalhando durante o dia apenas. Ao completar dezoito anos de idade, maior, portador da Carteira de trabalho de capa dura marrom passei a cumprir horários alternados, de seis horas, porém nos períodos da manhã, da tarde, da noite e da madrugada. O melhor período era o da madrugada, ou seja, das 0h às 6h.

Era comum deixar para a madrugada a transmissão de certos telegramas rotulados de "carta noturna", ou C.T. N, no Brasil e "letter telegraph night", L.T.N., para o exterior,por causa da tarifa reduzida. A Western localizava-se na Rua 15 de Novembro, número 251. Durante a madrugada funcionavam três seções: a recepção de clientes, denominada "balcão", a de entregas, com o nome de "despacho" e a de transmissão e recepção de telegramas, denominada "sala de aparelhos". De madrugada o expediente era fraco e se o telegrafista – nesse horário havia apenas um - trabalhasse com afinco, por volta das 3h o serviço estava encerrado.

Havia um encarregado, um telegrafista, um arquivista e um copiador geral. No máximo trabalhavam cinco pessoas. Parte aproveitava o restante de horário para dormir, sobre as mesas existentes, usando maços de telegramas como travesseiro; outros, como eu, preferiam dar um passeio pela madrugada. O trajeto, em regra, era partir da Rua 15 de Novembro em direção à Avenida São João, onde, no térreo do Prédio Martinelli, havia uma pequena "boate", mas o consumo era caro. Sendo assim, descíamos a ladeira, para atravessar a Rua Libero Badaró e aproveitar o Restaurante do Porquinho, onde serviam excelentes sanduiches de linguiça bragantina.

Permanecíamos no restaurante mais ou menos 30 minutos e retornávamos a Rua Libero Badaró, no sentido do Largo de São Francisco, Rua Riachuelo e Praça João Mendes, para chegar á Padaria Santa Tereza, em cujo andar superior havia um movimentado salão de bilhar. Ali algumas partidas, não a dinheiro, eram disputadas e, quando o relógio marcava mais ou menos 5h e as ruas já estavam limpas por causa da lavagem noturna, executada pela Prefeitura, em carros pipas, retornávamos ao trabalho. Descíamos pelos irregulares degraus da escadaria (existem até hoje, no restaurante superior da padaria) e aproveitávamos para tomar um excelente café com leite, pão quentinho com manteiga.

Depois era só seguir em direção à Praça da Sé, ao lado da então existente Praça Clóvis Bevilacqua, seguir pela Rua 15 de Novembro, Largo do Tesouro, e finalmente avistar o grande relógio redondo, ostensivamente iluminado, com o título "Western". Durante muitos anos vivi esse ambiente e nunca, absolutamente em momento algum, deparei-me com marginais ou assaltos.

O guarda civil da noite, o Evaristo, que cuidava da Rua 15 de Novembro e adjacências,era conhecido das madrugadas e, quando necessitava, servia-se no nosso filtro de barro, para matar a sede.

E-mail: [email protected]

Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 29/09/2011 Olá Sr.Aclibes realmente a Western ao meu ver éra a unica na época a competir com os Correios,pois o nosso Correio não éra muito confiavel,por varias vezes tentei trabalhar como mensageiro mas devido a minha idade 13 anos na epoca não foi possivel eu admirava muito o uniforme dos mensageiros era o Must.Mais tarde já com 15 anos entrei no Banco Noroeste que coicidentemente,no ano 1975 alugou o prédio da Western que estava fechado a varios anos,onde trabalhei em seu subsolo que na época tinha um cofre bem antigo elevadores pantografos escadas de madeira assoalho mas fiquei muitradiante em estar ali.por isso agradeço pela narrativa meus parabens continue enviando-nos mais narrativas abraços Oswaldo. Enviado por Oswaldo Luiz Baptista de Campos - [email protected]
Publicado em 28/09/2011 Burgarelli, uma saudosa "volta ao passado" porém para os mais novos, merece algumas restrições...a "Salchicharia 2 Porquinhos" nunca foi restaurante(nem tinha espaço prá isso)era simplesmente, uma lanchonete...restaurante mesmo, era em frente, do outro lado da avenida..., ou seja o Restaurante Automático...se você descia pela XV de Novembro em direção à Western (que ficava defronte à Lojas Garbo), nunca poderia passar pelo Largo do Tesouro, pois este Largo fica entre a rua Alvares Penteado e Quintino Bocaiuva...O "Largo" que você atravessava (onde começa a General Carneiro) não sei como é chamado...se também é chamado de Largo do Tesouro, prá mim é novidade...frequentei muito os "baixos" do Martinelli, jogando snooker no salão "Taco de Ouro"...não me lembro desta "pequena boate"...Conhecí palmo a palmo, toda esta região...nos anos 40/50. O predio da antiga Western, (podiam ter deixado o seu lindo relogio)foi reformado para "abrigar" o Bradesco...Parabéns pela lembrança.Abraços - Flavio Rocha Enviado por Flavio Rocha - [email protected]
Publicado em 28/09/2011 Burgarelli...MIL DESCULPAS !!!! eu de fato, confundi o Largo da Misericordia, com o Largo do Tesouro...você ESTÁ CERTO NESTE LOCAL !!! meus "dois neurônios" me traíram !!! rsrsrsrs Abraços - Flavio Rocha Enviado por Flavio Rocha - [email protected]
Publicado em 28/09/2011 Rapaz, que lembrança, a Western!!!. Office boy de uma livraria de missionarios americanos, fui muitas e muitas vezes a Western, eles a preferiam em vez de usarem os Correios. Legal, péla lembrança, pois a Western estava adormecida nalgum lugar do porão. Seu texto a despertou e, com isso, ao lado de tantos lugares daquele centro de São Paulo, as recordações daquele tempo. Nunca mais. Abraços, Enviado por Marco Antonio (Marcolino) - [email protected]
Publicado em 27/09/2011 Aí, então veio o mal...não, não, o bendito computador e acabou com tudo isso, né Aclibes? era tão prosaico, tão gostoso mas, que se vai fazer, "la vida breve", como diz Manuel de Falla musicalmente. Parabéns, gostei de sua narrativa, Burgarelli.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 27/09/2011 Bela história. Meu tio João Delatti (apelidado Nino) trabalhou na Western desde mensageiro e lá se aposentou. Voce o teria conhecido? Abraços. Enviado por Alfred Delatti - [email protected]
Publicado em 27/09/2011 Alcides,me lembro muito bem da Western da XV de Novembro, muitas vezes me encostei naquele balcão de madeira escura para solicitar a transmissão de algum telegrama, outras confesso, foram para surrupiar formulári9os que, depois, usava para passar trotes nos colegas. Tempos bons te garanto. Enviado por Miguel S.G.Chammas - [email protected]
Publicado em 27/09/2011 Creio que de toda esta magnífica narrativa, hoje só seria possível o café na Sta. Tereza (que, aliás, tem um pão italiano ótimo). Apesar de ser assíduo frequentador do Centro, não o encaro durante a noite (talvez de carro). Mesmo aos domingos durante o dia é um pouco tenso caminhar por suas ruas, o que, sem dúvida, é uma lástima. Isso, a meu ver, para uma cidade, é como, para um ser humano, sofrer do coração. Parabéns e um abraço! Igor Enviado por Igor Nitsch - [email protected]
Publicado em 27/09/2011 NOS ANOS 63 SENDO OFFICY-BOY NO CENTRO DE SÃO PAULO, LEMBRO, QUE UMA VAGA LEMBRANÇA DESSA EMPRESA "WESTER' DE TELEGRAFO, ACHO QUE ÉRA EMPRESA AMERICANA. Enviado por RUBENS ROSA - [email protected]
« Anterior 1 Próxima »